Colocado em 2019-12-15 In Projetos

Ao redor da mesa, ou quando a chefe do pessoal subiu para as escadas

ALEMANHA, Maria Fischer •

Devia ter tirado uma selfie, mas, embora não o tenha feito, pode-se perfeitamente imaginar o rosto deste Director Geral que estava a ir para o seu gabinete, já que nesse dia investidores importantes iam chegar, mas ao chegar descobriu que, no alto da escadaria, não havia uma pessoa da área de manutenção, mas a chefe de pessoal com uma lâmpada na mão. Diante do espantado “O que faz você aqui?” do Director Geral, a resposta que ele recebeu foi uma simples “Mudando as lâmpadas, porque hoje os investidores vêm e aqui tudo tem que estar muito iluminado”.—

Esta foi uma das muitas histórias que foram partilhadas durante o último fim-de-semana de Novembro na sede de Schoenstatt em Memholz, no contexto dos encontros “Ao redor da mesa”, nos quais participaram empresários e executivos da Alemanha, Suíça e Áustria. O programa é composto pelas observações, perguntas e experiências próprias que foram escritas em cartões coloridos de moderação na tarde de sexta-feira. Os pontos de interrogação que se desenhavam nos olhos daqueles que vinham pela primeira vez tornaram-se, à medida que os dias passavam, exclamações para dizer: “Assim é!”

Um colóquio, um método de moderação feito na vida real. A vida real como tema. De modo algum uma “historieta”, mas um procedimento que o Padre Kentenich deixou como um legado ao Movimento de Schoenstatt: escutar as vozes do Tempo e da Alma como fonte para saber o que está a acontecer, realmente.

Valor acrescentado:vivenciar, pessoalmente, experiências ditosas. Funciona

Este programa não é apenas uma troca de relatos. Por exemplo, um notário que, há pouco tempo trabalha de forma independente no início da reunião comentou que este programa o ajudou a organizar melhor as responsabilidades dentro do escritório. Resultados: mais eficiência e menos atrito. Isso também pode ser aprendido num seminário de gestão de pessoal, mas a diferença é que aqui, neste caso, tudo vem da vida real”, foi o argumento que ele usou para justificar a sua presença na próxima edição do “Ao redor da mesa”.

Para reforçar ainda mais isto, alguém da mesa acrescentou: “Eu ouvi o seu caso na outra vez que estive aqui e percebi que eram os mesmos desafios que eu tinha num grupo de voluntários pelos quais sou responsável. Por isso, decidi adoptar as vossas propostas no meu caso e funcionaram muito bem, todas elas”.

A ideia da directora de uma instituição de caridade também possibilitou corroborá-lo. Três funcionários estavam prestes a reformarem-se, causando-lhes uma certa tristeza que se reflectia nos seus rostos. Tudo isso mudou porque ela lhes pediu que escrevessem um artigo sobre seus anos de actividade. Não só fizeram isso, como também ficaram entusiasmados ao escrever sobre o porquê de terem adoptado essa profissão. “Isso deu origem a quase um livro e, além disso, gerou uma atmosfera de gratidão e alegria em toda a instituição”, disse a dirigente.

“O fim-de-semana foi intenso, com muitas impressões. Ficámos felizes ao ver que, em vez de contratarmos coaches para a empresa, devíamos começar a mudar-nos a nós próprios”, foi um dos comentários.

 

Melanie e Ulrich Grauert, Ebikon, Suíça, coordenadores da IKAF

Consensos básicos, amor carente, perfeccionistas criativos

Muita perícia está sentada à volta da mesa, seja na pedagogia e na comunicação Kentenichiana, seja no coaching, na gestão empresarial, na sustentabilidade e até na psicografia (não havia ninguém que não conhecesse o DISC). Após a exposição numa “mesa redonda” entre os dirigentes de uma empresa multinacional, houve uma troca sobre os consensos básicos indiscutíveis, um dos princípios fundamentais do modelo de comunicação Kentenichiana: “A partir de alguns, talvez poucos, indiscutíveis consensos básicos, cada um pôde dançar ao seu próprio ritmo.”

Sempre que algo novo começa – seja um movimento, uma empresa ou um grupo – há um processo de definição de certos consensos comuns básicos que irão distinguir este novo empreendimento. Esta fase original de negociação e flexibilidade é única e irrepetível. Estes consensos de base recentemente obtidos servirão como critérios de identidade e de selecção. Devem ser apenas estes, não há necessidade de “dogmatizar” mais formas e normas. Noutras “etapas suaves” podem manter estes consensos básicos ou alterá-los. O que não é possível é discutir permanentemente os princípios, caso contrário cairemos num narcisismo que conduzirá à ineficácia  e à falta de credibilidade. São necessárias definições que sirvam tanto, para aqueles que já fazem parte desta comunidade, assim definida, como os interessados em participar nela, e as decisões devem ser encorajadas.

A seguir, alguém partilhou a história de um cozinheiro que vivia a repreender os seus empregados até que acabavam por desistir. “Ele está preso na fase do amor carente”, foi a conclusão. Isto vem da escola Kentenichiana, que dizia coisas como: “há pessoas que não podem trabalhar em equipa devido a uma profunda insatisfação da alma que as torna incapazes de amar ou sentir empatia. “Ou também: “Só se pode suportar isto, se se estiver saturado ou ensopado em amor.

E os perfeccionistas criativos! A mera descrição do que contêm estas palavras é suficiente para nos relaxarmos.

 

P. Peter Locher

Têm as experiências de um Terciado para os futuros Padres de Schoenstatt, alguma coisa a dizer aos empresários?

O Padre de Schoenstatt Peter Locher foi convidado no sábado à tarde para partilhar as suas experiências com o Padre Kentenich, particularmente durante o “Terciado de Milwaukee”. Ele já era muito mais do que um orador, era apenas mais um membro da mesa redonda. É assim que deve ser, de acordo com o consenso básico da reunião “Em redor da mesa”, organizado pela IKAF.

“De vez em quando é necessário participar em ambientes de trabalho para não se ficar apenas num domínio puramente espiritualista”, disse o Pe. Locher.

O Pe. Locher tentou , o tempo todo, ligar a experiência da formação recebida do Pe. Kentenich em Milwaukee com a situação dos empresários.

Seja através da sugestão de um ritmo racional de alternância entre o tempo de trabalho e o de descanso (quer quisessem quer não, os Padres no Terciado tinham as quintas e os domingos de folga, e às quintas-feiras era recomendado que fugissem dali!) ou outra frase: “Quem se dedica à formação de uma comunidade ou equipa precisa dum objectivo, dum fim e dos meios para o atingir”.

O Terciado consistiu em saber o que correspondia e o que não correspondia na elaboração da constituição da comunidade nascente dos Padres de Schoenstatt. Trabalhou de forma autobiográfica e com isso conseguiu a identificação total dos jovens com a incipiente comunidade que estavam a formar.

O conselho que o Pe. Kentenich deu aos futuros sacerdotes que iriam trabalhar com os jovens e que ainda não falavam inglês foi: “criar experiências e manter um contacto vivo”, e serve também para o trabalho com os funcionários: as experiências e ideias não esperaram de forma alguma pelo fim da conversa, mas surgiram imediatamente, para alegria do orador.

Em questões específicas, entrar com base numa aliança.

Alguns dos testemunhos da avaliação da manhã de Domingo podem ser resumidos nestas vivências:

“Não se pode rezar para que os empregados se afastem, às vezes temos de nos envolver. Foi um dos “ensinamentos” da conferência sobre consenso básico.

“Não aprendemos conteúdos, mas um método”, disse um casal que veio pela primeira vez. No início foi surpreendente para eles, mas com o passar das horas eles estavam como se “sempre tivessem trabalhado assim”.

“Vou implementar um caderno de observações no trabalho”, disse alguém que assumiu uma nova posição de gestão.

“Tal deveria ser a Igreja do futuro, nas questões específicas, para entrar com base numa aliança”. A Aliança é a nível pessoal, o que os consensos básicos indiscutíveis são a nível de valores e objectivos. É assim tão simples.

Quando isso acontece, a chefe do pessoal sobe a escada e muda a lâmpada antes da chegada dos investidores.

 

Fotos: Grauert, Fischer, Strutz-Winkler

 

Contacto:  famil[email protected]

Original: alemão (7/12/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

Etiquetas: , , , , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *