Colocado em 18. Agosto 2016 In Casa Mãe de Tuparendá, obras de misericórdia, Projetos

A sociedade sou eu, por isso me uni à Casa Mãe de Tuparendá

PARAGUAI, por Susana Stanley •

Toca o telefone. É a mina cunhada para me dizer que assaltaram meu sobrinho a duas quadras de sua casa! Faço as perguntas de sempre: Está bem? Foi machucado? Responde-me que não o machucaram e me conta como foi o assalto. Dois meninos, um de 12 anos e outro de mais ou menos uns 17, abordam-no e pedem apontando a arma, o celular e a carteira. Ele entrega tudo, corre para casa e telefona para ela. Vão à delegacia denunciar o roubo e fazer os trâmites de costume. A polícia diz que são sempre os mesmos, e que há pouca ou nenhuma chance de recuperar o celular e os documentos.

Semanas mais tarde, por estas coisas da vida, ou melhor, da Divina Providência, comprometo-me a acompanhar a equipe da Pastoral Penitenciária em sua visita à Penitenciária de Menores.

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Batismo na cadeia de menores, julho de 2016. Foto: Javier Vera

Falta de recursos, falta de família, ruas, droga, roubos, cadeia…

Após um longo tempo preso no trânsito de sábado, chego na Cadeia de Menores em Itauguá. Como cheguei tarde, entro sozinha. “Sou de Schoenstatt”, digo aos seguranças. Pedem para que eu deixe todas as coisas de valor e, depois de me registrar, indicam como chegar para me encontrar com a equipe da Pastoral. Na capela, esperamos os meninos entrarem.

Chega o primeiro grupo, aproximadamente 35 meninos. Fico surpresa, já que um deles era tão pequeno que parecia ter uns 12 anos. Logo me dizem que tem 16 e que é muito pequenininho pela desnutrição. Nós nos apresentamos, rezamos, então formaram a fila para darmos o lanche e neste momento aproveito para conversar com alguns deles.

Uma das histórias me comove, é a de Pedrinho (nome fictício). O pai é desconhecido, sua mãe foi trabalhar na Espanha há alguns anos como empregada doméstica e não soube mais nada dela. Ele ficou com sua avó, que morreu de câncer e ficou sozinho… A partir daí, fez amizade com outros meninos, limpa vidros, prova o “chespi” (cocaína de má qualidade que fuma) e para ganhar a vida e conseguir o dinheiro necessário para comer e se drogar, rouba celulares e motocicletas. Um dos roubos deu errado e por isso está aqui cumprindo sua pena. Contou-me que em alguns meses sairá da cadeia e que não tem para onde ir.

O tempo se acaba. Sai este grupo e repetimos o processo com o seguinte: apresentação, oração e lanche. Os outros são diferentes e iguais ao mesmo tempo. Todos têm “cheiro” de pobreza e solidão. Escuto outras histórias: o fator em comum é a falta de recursos, a indiferença, a violência familiar, as drogas. Aí me pergunto onde está o Estado, a sociedade na hora que eles precisam de uma mão.

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O Pe. Pedro Kühlcke e Orlando, da cadeia de menores, apresentando a Pastoral ao Papa Francisco (Julho de 2015)

A sociedade sou eu

Ao chegar em casa me contam que deram para meu sobrinho um carro para que não se arrisque mais caminhando pelas ruas. Colocaram câmeras de segurança na casa, e em algumas semanas, o assalto será só uma má recordação para ele. Porém, para Pedrito e os outros, serão meses de cadeia, para sair de novo para a mesma realidade, sem esperanças.

Então, finalmente, tomo consciência de que a sociedade sou eu, a mesma que, com egoísmo e indiferença, se escandaliza pela insegurança e violência, mas que não se comove diante da pobreza alheia.

Observo a imagem da Mãe que, desde meu Santuário Lar, devolve-me o olhar com o Filho em seus braços. Parece que me diz: “tanto tempo demorou, filha, para se dar conta? Não importa, o que vale é o que fará de agora para frente”.

Assim é como trabalha a Mãe, assim me uni à Casa Mãe de Tuparená, onde vamos trabalhar para dar a estes meninos a oportunidade de saírem da cadeia, onde o faremos sentir que são importantes para nós e lhes daremos uma oportunidade, talvez a primeira em suas vidas, para seguir adiante.

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Foto acima: Susana em sua visita à família de um jovem, com o Pe. Pedro Kühlcke
Original: espanhol. Tradução Isabel Lombardi, Guarapuava – PR, Brasil

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