Colocado em 2015-06-23 In Projetos

“Quando alguém precisa, todos vamos e ajudamos”

PARAGUAI, Fundação Dequeni: entrevista com Basilio Santacruz, líder da comunidade ‘El Carmen’, em Arroyos y Esteros, por ocasião dos 30 anos do Dequeni

O Sr. Basilio é o tipo de pessoa que quando vê alguém chegar, caminha ao seu encontro para encurtar distâncias. Caminha ereto sob o céu de Arroyos e Esteros, descendo a rua que o leva até as janelas apinhadas de crianças do Centro Comunitário que ele construiu com as próprias mãos que ele estende para cumprimentar. “Peguahéke”, [Venham, entrem] diz ele, em guarani. E, com a mão livre, pega o chapéu ‘piri’ [de palha] para mostrar a cor de seus olhos que tem o marrom do rio Manduvirá, com a mesma profundidade. É o líder. Do tipo que é, porque a aflição do próximo é sua aflição, e a alegria do próximo é a doçura desse rosto que se prepara para a conversa; “koa ha” e “ñande roga guasu” [Esta é nossa casa grande] diz, com orgulho, também em guarani. A casa grande, aquela onde os sonhos, assim como o pão, são compartilhados entre todos…

Basilio Santacruz nasceu há 57 anos. Em sua infância, quando se bebia a doçura do ar que corria entre os canaviais, seu pai, o Sr. Delio Santacruz Flor, ensinou-lhe a linguagem da terra; e sua mãe, Juliana Cubilla, ensinou-lhe o resto.

Basilio conta, em guarani: “eu me dedico a plantar cana-de-açúcar, assim como meu pai. Meu filho planta comigo, ali em cima, e um de meus irmãos – são quatro – produz mel de cana”.

Para mostrar de que lugar fala, aponta com o dedo para o espaço entre os tufos verdes que são ofuscados pela garoa que começa a cair sem fazer ruído. “Mais tarde levo vocês lá”, promete.

Cita Natalicia Galeano e o olhar se suaviza. É sua mulher, a que lhe deu o filho, aquela que sabe do que ele fala, porque foi ela quem falou primeiro: “Minha senhora foi a primeira presidente da comissão da comunidade”, explica.

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Sonhos comuns

Rodeada pelo céu transparente e as filas apertadas de cana de açúcar, a comunidade El Carmen tem uma história marcada por dois extremos: por um lado, as inundações; de outro, a luta pela água potável para cada lar.

Se não o fizessem juntos, hoje as famílias continuariam buscando água no rio, como Basilio Santacruz lembra que faziam quando era criança. Porém, eles se uniram, criaram um Centro Comunitário; pediram o terreno, onde, peça por peça, levantaram o que atualmente é a casa de todos, e seus sonhos começaram a tornar realidade: “Tuicha okambiá la ñande vida”, [mudou muito a nossa vida] assegura ele.

– Sr. Basilio, é muito linda esta casa que têm e compartilham com todos…

– Este terreno era área pública; eles nos deram, mas fomos nós que levantamos a casa e criamos o Centro. Agora, já é fácil porque, pelo centro comunitário, conseguimos a ajuda da Fundação Dequeni, que ajudam as crianças com material, uniforme escolar, alimentos, assistência em saúde e acompanhamento escolar.

– Tudo é canalizado pelo centro comunitário?

– Sim. Aqui se faz tratamento contra verminose, vacinação; eles têm acompanhamento também na área dentária. Temos 300 lares cadastrados para recebem toda essa assistência e não há exigências para o cadastramento das famílias. Qualquer um que quiser pode se cadastrar.

– Precisa pagar alguma contribuição para fazer parte do centro comunitário?

– Cada um paga 5.000 guaranis por mês. Aqui nos reunimos todas as semanas; as mães preparam o café da manhã e lanche para as crianças que recebem aulas de reforço e de motivação. Aos sábados, também há aulas de cabeleireiro; neste dezembro, recebemos meninas e meninos também. Para eles, essa profissão é importante.

– Por quê?

– Porque aqui o que mais há é descascador – de cana-de-açúcar; é mão-de-obra muito barata e como cabeleireiro ganha-se mais.

– Quantas pessoas trabalham aqui?

– Dezesseis e são todos voluntários.

– Como foi para escolherem o senhor como presidente do Centro Comunitário, sr. Basilio?

– Já faz quatro anos que sou presidente e antes era a minha esposa. Foi em uma reunião que fui eleito como autoridade, sem conflitos, em total tranquilidade.

– Uma criança que vem ao centro comunitário – em que ela muda?

– Para as criaturas, a mudança é grande, porque aqui seu rendimento escolar é acompanhado. Antes, a maioria deixava de frequentar a escola; agora não; e também há ajuda para as famílias delas para cuidar de todos os registros públicos das crianças. Os pais são conscientizados.

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O milagre…

O Sr. Basilio nos leva mais além dos canaviais que planta com seu filho, e que alguma vez seu pai plantou com ele. Mostra-nos a casa onde cresceu (janelas antigas, corredores frescos, a sombra dos retratos presos por pregos invisíveis); nos faz caminhar sobre o tapete de cana-de-açúcar já espremida pelo moinho e nos deixa sentir o cheio de mel fervente. “Vende-se a 5.000 a garrafa”, conta, reclamando dos caminhos que, pelo mal estado de conservação, não lhe deixar tirar o produto quando chove.

– Em quanto tempo conseguiram a forma para conseguir água para a comunidade, sr. Basilio?

– Batalhamos durante sete anos. Não conseguíamos, até que a Fundação Dequeni fez um acordo com a empresa Coca-Cola para nos ajudar. Agora, temos água em nossas casas.

– Como vocês conseguiam água, antes disso?

– Usávamos o poço; trazíamos do rio em tambores, carrinho de mão, kuñakuéra iñakã ari ogueru [as mulheres traziam água na cabeça]. Acontece que aqui há três meses de seca e três meses de água; porém, agora, isso já não se precisa levar em conta, porque temos a planta. Agora, as pessoas já podem ir estudar tranquilas, porque antes tinham que deixar tudo para ir buscar água; agora, isso não é mais necessário. Têm mais tempo até para brincar.

– Conta para nós, sr. Basilio, o que motiva o senhor a fazer todo esse trabalho pelas pessoas daqui? Por que deixa seu canavial para participar de uma reunião ou para organizar uma atividade?

– Porque gosto de trabalhar com as pessoas, com a comunidade; gosto de ver que progridem. Eu sei para onde temos que ir quando eles precisam; vamos e ajudamos. Se precisa fazer um poço, vamos todos e o fazemos, porque assim também um dia os outros nos ajudam.

O sr. Basilio despede-se de nós com o menos aperto de mão do início; coloca o chapéu na cabeça e volta para suas terras onde as fileiras de cana-de-açúcar, encostadas umas às outras, crescem vigorosas sob o céu de Arroyos e Esteros.

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Nós fazemos pelas crianças…

De seu local, todos podem aliar-se ao Dequeni. “Nós fazemos pelas crianças”. Com uma doação (55 ) por ano, uma criança pode ir à escola. Com uma contribuição mensal entre 18 – 35 Euros, o doador pode se tornar padrinho de uma criança para tudo o que ela precisa para crescer com dignidade. Empresas também podem contribuir; aceitam-se voluntários; o projeto pode ser difundido entre familiares, amigos e colegas; pode-se fazer rifas e muito mais; o amor é criativo..,

Mais opções na página do Dequeni: www.dequeni.org.py

Dequeni nas tendas virtuais da cultura da aliança

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Original em espanhol. Tradução: Maria Rita Fanelli Vianna – São Paulo / Brasil

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