Colocado em 2015-06-26 In Projetos

Estava na prisão e viestes a mim (Mt. 25,36)

PARAGUAI, María Fischer •

Paraguai, depois do churrasco, chipas e sopa paraguaia, ainda me falta o famoso tereré. Chegou a hora, uma segunda-feira de sol e muito calor, a cinco quilômetros de Tupãrenda, cercada de sorrisos e de olhares expectantes, um “queres, tia? Fiz para ti, tomamos juntos?”, um momento de susto nos olhos do Padre Pedro Kuehlcke que se transforma em plena satisfação no momento do meu primeiro sorvo. É meu primeiro tereré, e nunca mais tomei um tereré tão bom, um tereré com sabor a pobreza, a miséria, a esperança, a solidariedade, a amizade e a compromisso com essas crianças e ganas de pedir o premio Nobel da Paz para o Padre Pedro.

Estamos no “Centro Educativo Itauguá” (CEI), mais conhecido como “Panchito”, a maior penitenciária para menores no Paraguai, situada a uns cinco km de Tupãrenda, tomando tereré com uns 10 menores, entre 14 e 18 anos. É o primeiro e será o melhor tereré da minha vida, este tereré preparado pelos jovens presos que viemos ver.

Una hora antes, entramos, sem maior controle. O Padre Pedro Kuehlcke nos meses que está trabalhando na pastoral penitenciaria ganhou a confiança dos funcionários, seja dos guardas, seja dos professores ou dos demais empregados e voluntários desta instituição. Enquanto nos abrem a porta para entrar, entra um guarda com dois menores, de apenas 15 anos, algemados. Sim, estamos numa prisão, neste âmbito de cárcere que se respira tanto em Hamburgo como em Itauguá.

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Vem o Padre e tudo muda

Vem o Padre Pedro – numa segunda-feira, quando normalmente vem aos sábados ou quando há emergências de todo tipo -, e tudo muda. Vem o “Paí” (padre). Vem quem acredita neles, quem os escuta, quem os consola, quem os abraça, quem os confessa e absolve, quem enxuga suas lágrimas, quem busca advogados, quem lhes tira fotos, quem os abraça, e quem os convida – aos que têm permissão – vir a Tupãrenda, vestir-se de branco como coroinhas e participar na liturgia, quem lhes dá esperança de seguir, quem os acompanha mesmo quando só saíram para voltar à prisão, quem lhes tira milhares de fotos com seu celular (sim, pode levar à prisão, apenas ele) e imprime as fotos para que sintam que existem, como pessoas amadas e importantes. Vem o padre. Paternidade pura. É o pai destes mais de 100 jovens entre 14 e 18 anos.

Abraços e fotos

IMG_20150330_102327Dentro da instalação, a maioria dos jovens podem se movimentar livremente durante o dia. Vários estão nas salas que funcionam como escola dentro da penitenciária, para muitos deles a primeira oportunidade de ir ao colégio ou a possibilidade de continuar os estudos. O Padre Pedro os anima a seguir, lhes pede que mostrem seus cadernos. Uns ficam em suas cadeiras, outros correm felizes para mostrar-lhe suas obras. Depois de olhar tudo atentamente, o Padre Pedro se dirige, um a um, aos que ficaram em seus lugares, mira, alenta, anima… Todos recebem um abraço forte, e todos querem uma foto – todos com ele, cada um com ele, dois amigos juntos a ele, todos com os professores, todos com a senhora que veio de Alemanha para visitá-los, cada um com ela, e mais uma foto e um abraço dela…

Vamos às celas, onde alguns jovens estão limpando. Outra vez fotos. “Não têm armários”, me diz o P. Pedro. “Não têm nada onde deixar suas coisas pessoais. Não têm espaço individual…” – “Por isso as fotos?” – “Sim”, me responde o Padre Pedro. “É como experimentam que têm importância, que têm valor pessoal.” É por isso que lhes leva, às vezes: as fotos impressas. “E gravuras da Virgem de Schoenstatt de Tupãrenda”, agregou. “Muitos a querem, especialmente os que estiveram lá.”

Um jovem de aproximadamente 15 anos aproximou-se do Padre Pedro: “outro dia minha mãe veio visitar-me, foi a primeira vez desde que estou aqui.” –“ Quanto tempo faz que estás aqui?”, pergunto-lhe. “Um ano e sete meses”, me diz, e desta vez meu abraço se antecipa ao pedido.

“Alguém deve ser nosso advogado, alguém deve interceder por nossos direitos”

Alguns estão por terceira vez na prisão, muitos por primeira vez, outros já não sabem quantas vezes ingressaram. O P. Pedro explica como alguns viveram com seus avôs, já que as mães trabalham no exterior, os pais se foram… Quando morrem os avôs, ficam na rua, e na rua aprendem como sobreviver roubando ou drogando-se. Outros parece que sempre viveram na rua. Têm pais que não puderam cuidar deles, por ser doentes, por estar sem trabalho, por estar na prisão, ou por ser adicto das drogas… Uns estão simplesmente por equivocação, e não têm advogados para sua defesa. “Percebe algo?”, me pergunta o P. Pedro. “Apenas se vê jovens de classe baixa. Não são os únicos em Paraguai que roubam ou negociam com drogas. Mas os de classes altas têm advogados e pais que podem pagar…” Antes que pudesse perguntar, o P. Pedro fala dos advogados do Movimento que o ajudam com estes e tantos outros casos.

Vamos a capela da penitenciária, este lugar, onde o Padre Pedro batizou a muitos desses jovens, onde receberam a primeira comunhão… A capela serve como uma sala de usos múltiples, não pudemos entrar neste momento, mas pela janela miro e vejo a imagem da Mãe na parede. Silenciosamente, a coroei “rainha e advogada” deste lugar. “Alguém deve ser nosso advogado, alguém deve interceder por nossos direitos”, disse o Padre Kentenich no campo de concentração em Dachau, ao nomear a MTA, diante da falta de direitos, mãe e rainha advogada. Dachau, aqui e agora. A Mãe três vezes Admirável visita seus filhos neste lugar de falta de direitos, de falta de dignidade, de falta de lar. Caminhava por Dachau em pessoas como o Padre Kentenich. Faz uma visitação nesta prisão de Itauguá, caminha de cela em cela na pessoa do Padre Pedro…

“Não todos são santos”, me diz o P. Pedro. Conta-me umas histórias criminais dignas de uma novela, como de histórias trágicas que se desafogam em longas confissões e com muitas lágrimas. Fala-me de milagres. “Não se trata de uma segunda oportunidade”, diz, “para muitos deles é a primeira de sua vida.”

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Casa Mãe de Tupãrenda

Com isto chegamos a sua idéia predileta: uma casa à sombra do Santuário de Tupãrenda, uma casa para quando saem da prisão e não têm para onde ir… Uma casa onde possam aprender algo, e como “não encontram trabalho com antecedentes penais”, onde possam trabalhar para ganhar seu sustento… O sonho desta casa que umas semanas depois desta visita começou a concretizar-se com a benção da ermida. Espiritualmente esvazio minha conta corrente, pois o que tenho nos bolsos em dinheiro basta para uma merenda de um destes sábados quando vem o Padre Pedro… (mas ao menos para isto basta).

Estava na prisão e viestes a mim (Mt. 25,36). O Papa Francisco quer fazer em cada mês do Jubileu da Misericórdia um gesto de misericórdia, criando algo que perdure para depois do jubileu. Poderia Schoenstatt também?

Poderia a Casa Mãe de Tupãrenda ser algo que ficará do Jubileu da Misericórdia?

Não todos podem ter o privilégio de tomar seu primeiro tereré no Centro Educativo Itauguá. Mas todos podemos rezar por estes jovens, e talvez contribuir com algo mais para a Casa Mãe de Tupãrenda e o trabalho do Padre Pedro.

Foi o melhor tereré de minha vida. Obrigada, jovens de Itauguá, por sua amizade.

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Doações:

Em Paraguai:

Banco GNB
Cta Nro. 001-065259-003
Congregación Padres de Schoenstatt

Em Europa

Schönstatt-Patres International e. V.
IBAN DE91 4006 0265 0003 1616 26
BIC/SWIFT GENODEM1DKM
Uso previsto: P. Pedro Kuehlcke, Casa Madre de Tupãrenda

Original: Espanhol – Tradução: Lena Ortiz, Ciudad del Este, Paraguai

 

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