Colocado em 5. Maio 2015 In Projetos

Vendia goma de mascar, hoje vende inversões

Pelos 30 anos de Dequeni, publicado no jornal Ejempla, Paraguay •

Quando era criança vendia goma de mascar na rua, hoje é vendedor de inversões em um banco. Derlis Cáceres está convencido que o êxito na vida depende das pessoas de boa vontade com as quais cruzamos pelo caminho.

Ali estava ele, tomando “tereré” com seus companheiros de rua. Com um gole dessa refrescante bebida tentava apagar a sede que lhe queimava a garganta, mas não o conseguia, porque não se tratava de uma sede por falta de água; mas de dignidade como ser humano.

Esse adulto no corpo de uma criança sonhava que um dia as coisas melhorariam que já não seria mais um dos excluídos. “A ninguém lhe importa que estejamos aqui, ninguém nos vê, ninguém nos sente”, pensava enquanto colocava um pouco de água naquela guampa alugada, na praça ‘Marcelina Insfrán’, em frente à igreja de San Lorenzo. Nesse mesmo dia conheceu ‘O Careca’.

—O que vendem? Perguntou o recém chegado.

—Gomas de mascar e balas, Derlis apressou-se em responder.

Na verdade o desconhecido não tinha intenção de comprar seus produtos, mas de fazer-lhes uma proposta. Apresentou-se como Juan Oviedo da Fundação Dequení e estava acompanhado por Raúl, “o que sim tinha cabelo”, agrega sorrindo. Perguntou-lhes se gostariam de trabalhar em outro lugar, para não estar na rua que é muito perigosa.

Entre as dez crianças estavam as incrédulas, elas se retiraram em seguida e continuaram com suas vendas. Seis ficaram simplesmente por curiosidade ou talvez porque sentiram que era a oportunidade que esperavam. “A mim me chamou a atenção porque era a esperança que eu tinha, senti alegria de saber que isso era possível. Continuei escutando e meus companheiros também”, lembra.

Juan e Raúl os convidaram a ir até o local localizado na Ruta Mariscal Estigarribia Km 9, em Fernando de la Mora. Disseram para que levassem seus documentos e seriam inscritos no curso. A proposta era trabalhar como empacotadores nos supermercados, que naquela época começavam a instalar-se. “Despediram-se e foram embora, imagino que foram convidar outras crianças”, rememora Derlis, que não se esquece de nenhum detalhe do dia que mudou sua história.

Como chegou a rua?

Algumas crianças sobem ao ônibus. Chiclete, bala… diz um, escoltado pelo que parecera ser seu irmão menor. Nota-se que está cabisbaixo e envergonhado. Ao terminar, esperam atrás que o motorista diminua a velocidade para descer. As pessoas que estão no ônibus parece acostumadas a isso. Essas crianças sentem que já não formam parte da sociedade.

“Eu nasci em Pilar, departamento de Ñeembucú. Meu pai é originário de Ybycuí, departamento de Paraguarí. Como era vendedor ambulante, tinha muitos clientes de Pilar. Numa de suas viagens conheceu a minha mãe, aí se encantaram e eu nasci”, conta. Quando completou dois anos, sua família mudou-se para a cidade de Capiatá, buscando melhores oportunidades laborais. Foi uma decisão acertada já que foram sete anos de prosperidade.

Seu pai começou a trabalhar num posto de gasolina e foi ascendendo até se tornar encarregado da empresa e chegou a administrar dez locais. Mas este grande vendedor tinha um grave defeito: era viciado em jogos de azar. Foi assim que apostou tudo que tinha e ficou com as mãos vazias. “Perdeu tudo o que havia conseguido em apostas e ficamos sem nada, nem para comer lhe digo”, enfatiza Derlis.

Dar é receber

Atualmente Derlis é padrinho de uma criança em Dequení, porque está convencido que com seu aporte pode mudar sua vida.

Naquela época o matrimônio tinha quatro crianças: Derlis tinha completado 10 anos, Jorge 8, Luis Gemán 6 e Magnólia recém nascida. Seus pais se separaram y eles ficaram com a mãe. Conservaram a casa graças a que estava no nome dela. “Minha mãe trabalhava no Km 15 em frente ao shopping. Tinha uma frutaria e com o que ganhava começou a pagar por uma casa, estava quase quitando, quando aconteceu o que aconteceu”.

O que Derlis agradece a seu pai é que sempre o mandou a uma escola pública, graças a isso conheceu muitas crianças que estavam pior que ele. Seus amigos, que sempre iam a sua casa para lanchar, perceberam que as coisas não andavam bem. Um deles, chamado Fredy Vargas, disse a Derlis e a Jorge para ir vender guloseimas em San Lorenzo. “Tinha muita vergonha para vender, a princípio as palavras não saíam; mas nos armamos de coragem, eu e meu irmão, com ele acontecia o mesmo. Hoje agradeço a Deus porque até agora me dedico a vendas e é o que me apaixona. Tudo o que sei agora aprendi na rua”, comenta.

A mudança de vida

Derlis era uma das 70 crianças que assistiram aos dois meses que durou a capacitação para trabalhar no supermercado. Ao final tiveram que prestar um exame prático e teórico porque somente havia 45 vagas. “A princípio contratariam trinta. Explicaram que como era um negócio muito novo teriam que provar primeiro para ver como funcionaria”, explica. Na primeira seleção apenas ele foi selecionado, seu irmão lhe disseram não ter a idade que eles estavam pedindo, mas que abririam outro local e o chamariam para trabalhar ali.

“Lembro bem que na rua ganhava entre 15 e 20 mil guaranis por dia. No meu primeiro dia no supermercado ganhei 80 mil guaranis, era muito dinheiro para mim; não imaginei ganhar essa quantidade num único dia. Depois mantive uma média de 50 mil guaranis por dia e em casa não voltou a faltar nada”, assegura.

Enquanto isso, seu irmão seguia vendendo chicletes na rua. Já não era precisamente por necessidade, já que graças a ajuda do filho maior, a mãe colocou um pequeno negócio na casa, o que ajudava a cobrir os gastos. O motivo era que era adicto ao vídeo games e saindo para trabalhar fora, tinha maior liberdade. “Assumo que eu também tenho esse vício. Todos os que estão na rua de uma ou outra forma caem nessa adicção. Se souber controlar é positivo, porque a mim deu muita lógica e até agora sigo jogando. O ruim é que usam todo seu dinheiro nos vídeo games, nos caça-níqueis, nas apostas”, explica Derlis.

Um ano mais tarde, a fundação cumpriu sua promessa e Jorge começou a trabalhar em outro supermercado. E ganhava melhor que seu irmão. “Ele mantinha uma média de 80 mil por dia. Eu, ressentido, lhe dizia que era porque o supermercado foi recém inaugurado. Ali apliquei uma filosofia que mantenho até hoje, disse: aqui não estou ganhando o que deveria ganhar, vou buscar trabalho ali”, admite.

“As pessoas de boa vontade são as que ajudam a que se concretizem campanhas que ajudam as crianças a ser felizes de uma maneira digna.”

— Derlis Cáceres

Então foi até o escritório para falar com quem era o gerente na época, Horacio Rey. Disse-lhe que queria trabalhar com eles porque ali se ganhava melhor. O Sr. Rey não o levou muito a sério, lhe disse que deveria dar a oportunidade a outro. Finalmente, depois de tanta insistência, lhe disse que levasse seu currículo. “Era evidente que ia me ignorar, no dia seguinte levei minha mãe comigo. Disse a ela que já estava tudo acertado. O Sr. Rey disse que eu era um caradura e falou um instante com mamãe, depois sai e me diz que começava no dia seguinte, as duas da tarde. Aí estive até completar 18 anos.

Durante todo esse tempo seguiu estudando no Colégio Nacional Carmen de Peña de Capiata. Nunca esquece os três bons amigos que lhe ajudavam a cumprir com todas as tarefas: Katya Guerrero, Andrea López e Richard Ocampos. “Sempre entrava na sala depois do recreio. Na hora da sesta comia na casa de Richard, quem me ensinava o que haviam dado em Matemática; quando devia fazer as tarefas de inglês comia na casa de Katya, para os exames pedia permissão no trabalho e nos juntávamos para estudar”.

Faltava-lhe sua juventude

Derlis tinha vantagens sobre seus companheiros, era independente, dispunha de seu tempo e podia comprar o que queria porque ganhava seu próprio dinheiro. As conversas dos demais estudantes lhe pareciam muito simples, sentia que esse não era seu lugar. Mas em realidade ele sentia inveja, invejava o tempo livre que eles tinham. “Eu ansiava para que chegasse sexta-feira porque era meu dia livre no supermercado e ficava no colégio até tarde jogando vôlei”, conta.

Quando estava no último ano do colégio, seu pai regressou e decidiram juntar dinheiro para abrir um açougue, com a condição de ser administrado pela mãe e os irmãos. Esse negócio lhes permitiu cobrir todos os gastos da casa sem a necessidade de trabalhar fora. Então Derlis e Jorge aproveitaram ao máximo esse ano. “Daí recordo a outro de meus ídolos, Mujica, que sempre menciona a frase de Sêneca, quem disse que pobre não é o que tem pouco, mas o que necessita muito. Eu não necessitava dinheiro, necessitava ser feliz”.

O terceiro irmão seguiu o exemplo dos maiores e também trabalhou no supermercado. Mas a ele, lograram convencê-lo a não concentrar sua atenção apenas no trabalho, mas que ao mesmo tempo estudasse no Colégio Técnico Nacional. Assim foi como se formou em Técnico em Mecânica Industrial.

O ano de 2003 acabou e Derlis percebeu que o negócio já não era suficiente. Tentou recorrer novamente a Horacio Rey, mas ele já era gerente geral da cadeia, era impossível falar com ele. Então, decidiu ir até o supermercado no qual havia trabalhado quando a fundação o tirou da rua. Ali se encontrou com Fredy Cabrera, quem nesse momento já era Chefe de Compras. “Foi muito gratificante encontrá-lo. Perguntei-lhe onde podia buscar trabalho e me deu o contato da encarregada de Recursos Humanos para que lhe levasse meu currículo. Dois meses depois me chamaram”, conta.

Anos mais tarde conseguiu trabalho em uma empresa de cobranças, onde esteve por quase dez anos e passou por vários departamentos. Depois, fez parte de um projeto de uma multinacional para trazer jogos de azar ao país. Até que se postulou a uma vaga para a área de vendas de Visión Banco, aonde trabalha até agora.

Não dar moedas as crianças

Desde sua experiência pessoal, ele afirma que não se deve dar moedas às crianças, porque isso os torna acomodados e o que se vende não é um serviço, é lástima. “Sentia vergonha de subir aos ônibus, molestar as pessoas para que comprem, me parecia que não era a forma de pressionar. O primeiro dia em que provei limpar para-brisas foi pior, porque ali o que se vende não é o serviço, é compaixão, lástima. A compaixão não tem inversão, é grátis”.

Aconselha a quem estiver interessado em ajudar que assegurem seu investimento e que doem a fundações confiáveis. “Assegure-se que esse dinheiro se use em algo positivo, no o regale a alguém para que tome cerveja. Eu estou convencido e tenho fé de que se canaliza seu aporte para fundações confiáveis como Dequení, está fazendo um investimento para a vida. E se quer tirar alguém da rua; dê-lhe a oportunidade de seguir estudando, porque a base para que uma criança busque sua felicidade de maneira digna á a educação”, insiste.

Embora dois de seus centros ainda se dediquem a atender crianças de rua; atualmente Dequení enfoca mais na prevenção do trabalho infantil. Para isso trabalham com as crianças desde a primeira infância. Segundo sua Diretora, Andreza Ortigoza, hoje mais de 7.000 crianças e adolescentes se beneficiam com os diferentes programas que desenvolvem. Durante os 30 anos de vigência, em torno a 25.000 pessoas já passaram por esta fundação.

Fonte: ejempla.com

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