Colocado em 3. Março 2019 In Casa Mãe de Tuparendá, obras de misericórdia

Mover fronteiras

PARAGUAI, P. Hans Martin Samietz •

Em sua viagem da Jornada Mundial da Juventude no Panamá ao Paraguai, Argentina, Chile e Equador, o P. Hans-Martin Samietz, conselheiro nacional da Juventude Masculina de Schoenstatt na Alemanha, visitou duas vezes juntamente com o Pe. Pedro Kühlcke na cadeia de menores em Itauguá, no Paraguai. Ele resumiu suas impressões no artigo a seguir, que disponibilizou para schoenstatt.org e para a revista alemã Basis.—

Ele tatuou algumas lágrimas. De cor azul escuro, estendem-se sobre a face direita. Pedi à pessoa que me acompanhava para perguntar: “O que suas lágrimas significam?” Depois de traduzirem minha pergunta, seus olhos de uma distância insondável encontraram os meus. Seus dedos deslizaram de tatuagem à tatuagem: “liberdade – amor – paz”. Essa foi a sua explicação naquele momento. Juan tentou escapar deste lugar. Para isso, ele subiu ao teto de sua cela, mas escorregou e caiu lá embaixo. Ele caiu de costas no asfalto do pátio da prisão: três semanas em uma cadeira de rodas. Por que ele não ficou lá, com a coluna quebrada, paralisada, incapaz de mover um dedo, talvez para ele se converteu no enigma de sua vida: tomara que sim! Porem talvez suas lágrimas também representem uma de suas vítimas, que ele esfaqueou na luta por um pouco de cocaína. Talvez também sejam válidas para sua mãe, que desapareceu de sua vida desde a infância. Quem sabe! Mas hoje eles querem dizer: “liberdade – amor – paz”.

 

Tarde de Sábado da pastoral da prisão

Eu estava nesse momento ali, lá na cadeia de menores em Itaguá (Paraguai). A equipe pastoral da prisão estava naquele lugar. Todos os sábados se distribuem pelo lugar, reúnem jovens e celebram uma pequena festa na ante-sala do bloco de celas. Tem bolo. A fila começa com o padre Pedro. Ele segura o microfone no ar e tenta manter a ordem. Uma e outra vez os meninos tratavam de colocar-se junto do padre Pedro na primeira fila. Padre Pedro teve que dar um grande passo para trás e rir. Então eles poderiam começar a festa.

Sacramentos

Desde que Pe. Pedro visitou a prisão, houve 149 batismos, 160 primeiras comunhões, 117 confirmações. Um dos meninos queria confessar um dia. O padre Pedro percebeu que aquele menino não sabia o que era o batismo. “Mas eu quero confessar, meu coração está tão carregado!” Esse foi o começo do primeiro batismo no complexo da prisão. Agora, todos os sábados há pequenas catequeses que duram entre 10 e 15 minutos para os meninos que querem receber alguns dos sacramentos. Os meninos não conseguem se concentrar por mais tempo. Mas a equipe do ministério da prisão vem toda semana para visitá-los.

Fui abordado por dois garotos que me reconheceram da visita que fiz quatro dias antes. Eles me pediram para acompanhá-los. “Claro!” Eles me levaram para um pequeno terraço de um prédio anexo. Lá nos sentamos. “De onde é? “Da Alemanha”: risos e cinco minutos de palavras que eu não entendo e mais risos. Finalmente entendi a mensagem: eles me mostraram uma velha bola de futebol que estava em um canto. “Futebol!”, exclamei. Mais risadas. Eu queria saber como dizer relógio e indiquei com o dedo indicador a parte de trás da mão direita, enquanto girava ligeiramente. Mais risadas.

Deixe as crianças virem até mim

45% das crianças paraguaias não sabem ler ou escrever depois de terminar a escola. Pais e professores não percebem o significado disso. E essa é a média de todo o país. Aqui estamos em uma prisão, assassinos ao lado de vagabundos. O que seria possível para os meninos se tivessem a sorte de ter alguém interessado neles pelo menos alguns minutos por dia …

Começo a entender: “Porque para pessoas como eles pertence o reino dos céus”. Quem pode valorizar mais o amor do Pai do que esses meninos neste lugar desolado, quando eles sentem: “Existe alguém que se preocupa comigo?”

“O que pode dar sentido à sua vida?”

“Pai, eu vou a Tuparendá!” “Ok, quantos meses você ainda tem?” “Três”. “Então eu vou esperar por você.”

Então, uma pergunta é a chave para este novo mundo: “O que você deve fazer para que sua vida tenha sentido?” A resposta está nos garotos. Felizmente, há alguém que faz essa pergunta a esse menino nesse centro de detenção.

Em Tuparendá, o Santuário de Schoenstatt próximo a Itauguá, encontra-se a Casa Mãe. Os jovens recebem um pequeno salário se chegam na hora todos os dias para o programa: nove meses até a formatura, quatro semanas “para tentar”, quatro semanas “de esforço sério”, oito semanas “de ser um parceiro confiável”, oito semanas “Para aprender paciência”, oito semanas “qual poderia ser a melhor formação profissional para mim?”. Fica registrado quem chega atrasado. Há meninos que precisam de três tentativas e duas sentenças de prisão, essa é a realidade. “Trabalhamos com quem quer fazer”, diz padre Pedro. Pacientemente, os reincidentes reúnem-se novamente desde o início. Infelizmente, existem apenas 20 lugares. O padre Pedro tem a lista dos interessados ​​em seu livreto. Ele sempre leva seu livreto para a cadeia. Os meninos acham que é o seu celular. Do lado de fora você só pode ver que o padre Pedro tem algo no bolso. Eles querem que eu tire fotos, mas é claro que isso não é possível. O padre Pedro não carrega o celular. Ninguém, exceto os guardas, pode levar um celular com eles. “Padre, tire uma foto conosco.” “Com o quê?”, Pergunta padre Pedro, surpreso e segurando as mãos vazias no ar. Os meninos apontam para o bolso de suas calças. Padre Pedro ri, pega o caderno, segura na frente do rosto e clica. Sim, esta caderneta é um símbolo de outro mundo, um mundo que, graças ao padre Pedro, à equipe prisional e à Casa Mãe, não precisa ser uma ilusão para essas crianças. A pergunta chave para este novo mundo: “O que pode dar sentido à sua vida?” A resposta depende dos jovens. Graças a Deus, há uma pessoa que faz essa pergunta às crianças no complexo da prisão.

 

Liberdade não é um bem de luxo

Aqui no Paraguai, Schoenstatt encontrou sua tarefa: formar corações para todos. A partir do centro de uma espiritualidade, chegar a converter-se no defensor do dom da liberdade de todo ser humano. O Paraguai vive em uma situação em que as pessoas acreditam espontaneamente em Deus. Com este projeto, a dignidade humana se tornará realidade neste país, aqui e ali, cada vez mais. Grupos como a equipe pastoral da prisão em torno do padre Pedro levam a sério seu cristianismo.

Nós, na Alemanha, por outro lado, podemos ser gratos que nossa sociedade vê a dignidade de cada ser humano como o bem maior, mesmo sem os crentes cristãos se posicionarem, e que tenha as rotinas correspondentes, por exemplo, contra os decretos arbitrários de funcionários públicos. Nenhuma criança é detida na prisão preventiva quando um policial o detém por não pagar uma pequena quantia de dinheiro e estabelece o delito.

Nós podemos mover fronteiras. A fronteira mais alta, o arame farpado mais denso é provavelmente a ausência de afeição. Até onde um jovem tem que ir para esperar que sua vida faça sentido quando crescer em um ambiente de desinteresse brutal? Cada um de nós pode se tornar um marco decisivo nesse caminho através de suas perguntas e, acima de tudo, com o sentimento de gratidão.

 

 

Fotos: Maria Fischer, Setembro 2018, @schoenstatt.org

Original: Alemão, 10 de fevereiro de 2019. Tradução: João Pozzobon, Santa Maria, Brasil

Página oficial de CMT: www.fundaprovapy.org

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