Colocado em 23. Julho 2016 In Campanha, obras de misericórdia

Seguindo as pegadas do Papa Francisco na Villa 31

ARGENTINA, por María Fischer •

“Hoje completo 40 anos”, diz com grande alegria uma mulher que parece muito mais nova. Carrega em seu colo os dois filhos menores. E antes de cantar os “Parabéns”, ela surpreende a todos com um anúncio: “Vamos nos casar…” Desde a escada, para o lado de fora, onde a maioria dos homens estavam, escutamos um eco um pouco menos forte: “Sim, é verdade, nós vamos casar”. Aplaudiu espontâneo e sincero. “Você deve saber que ele era alcoólatra”, disse-me Cristina, missionária da Campanha que me convidou a este encontro impactante, chave de ouro de minha visita à Argentina.

“Estamos junto há mais de vinte anos”, relata ela, “passamos por muitos momentos lindos e outros horríveis, mas seguimos juntos. Ele bebia, bebia muito. Mas eu pensei comigo: não me vou render à uma garrafa que nem pode falar. Eu posso falar e lhe falei, e fiquei com ele. Ele superou, não bebe mais, e há muito tempo!” Enquanto isso ele entrou, sentou-se no chão, e com uma cara que brilhava de felicidade, olha para ela e diz: “Não bebo mais, ganhamos. ” E vão se casar. Olho a Mãe Peregrina na humilde mesa. É o centro desta reunião no segundo andar de uma casa na Villa 31, e rezo: “Você ganhou”.

Amoris Laetitia: aqui entendemos o que oferece o Papa Francisco

“…nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las…” (AL 37). Quanto amor, sacrifício, superação, fidelidade investida nesta relação deste casal que agora sonha com o sacramento do matrimônio. Quanta grandeza humana e quanta abertura à graça.

“Na perspectiva da pedagogia divina, a Igreja olha com amor para aqueles que participam de modo imperfeito na vida dela: com eles, invoca a graça da conversão; encoraja-os a fazerem o bem, a cuidarem com amor um do outro e colocarem-se ao serviço da comunidade onde vivem e trabalham. (…) Quando a união alcança uma estabilidade notável por meio dum vínculo público – e se reveste de afeto profundo, responsabilidade pela prole, capacidade de superar as provações –, pode ser vista como uma oportunidade a encaminhar para o sacramento do matrimónio, sempre que este seja possível” (AL 78).

Tinha lido estes parágrafos da Amoris Laetitia há algum tempo. Agora os entendo aqui na Villa 31, onde o Cardeal Bergoglio é lembrado como aquele que os escutava, visitava, e que batizou, crismou e casou muitos dos que estão aqui nesta tarde fria, em torno da Mãe Peregrina de Schoenstatt.

“Nós também”. Enquanto estava pensando no Amoris Laetitia e admirando este casal ainda não casados, mas talvez com uma fidelidade mais provada que muitos casais “regulares”, quase perdi o anúncio. “Nós também”. São os anfitriões, os donos desta casa que ofereceram generosamente para as reuniões dos schoenstattianos, mas que sempre saíam. Há pouco tempo que estão participando. “Nós também”. Também querem se casar… ”Mas não na mesma data”, dizem os outros. “Mas também queremos nos casar ainda em julho”.

“Foram mais rápidos” disse-me Cristina mais tarde: “Estive pensando em contar a eles em algum momento sobre o casamento, mas eles foram mais rápidos. É, a Mãe Peregrina, realmente realiza milagres”. Somos testemunhas do anúncio de cinco casais que decidiram pedir o sacramento do matrimônio.

A Mãe Peregrina na Villa 31

A Villa 31 é uma favela localizada na Cidade de Buenos Aires, no bairro chamado Retiro, ao lado da estação central de ônibus e perto dos terminais ferroviários mais importantes. Possui mais de 40.000 habitantes, a metade são argentinos, tendo também paraguaios, bolivianos e peruanos.

A Mãe Peregrina chegou na Villa com uma missionária paraguaia que foi viver e trabalhar em Buenos Aires. Conquistou mais e mais corações. Crianças, jovens, homens e mulheres selaram sua Aliança de Amor. Agora estão conquistando uma ermida da Mãe e Rainha. A Villa 31 é dEla.…

Esta tarde Adela, vereadora da Villa 31 e coordenadora dos schoenstattianos, recebeu-nos na entrada da Villa. Cristina White a visita há algum tempo, com ela já fizeram uma peregrinação ao Santuário de Confidencia, e no dia 18 de outubro querem peregrinar ao Santuário do Pai em Florencio Varela. Com ela caminhamos pelas ruas que tantas vezes passou o Cardeal Jorge Mario Bergoglio, ruas com cheiro de pobreza, violência, desespero e com milhares de histórias de luta por uma vida digna, uma vida feliz, uma vida de fé…. Subimos até a casa no segundo andar, pela escada mais cheia de aventura da minha vida, onde nos esperam umas quarenta pessoas, entre elas adultos e crianças.

Cristina aproveita a presença de sua amiga alemã para pedir-lhes que contem suas histórias com a Mãe Peregrina. Já com a primeira, tenho a resposta à pergunta que me fiz depois dos anúncios de casamento: “Mãe Peregrina, como você faz? ”

“Esta menina esteve à ponto de morrer”, conta uma mãe jovem. Meningite… “A levamos ao hospital e rezamos, todos nós rezamos…” Com lágrimas nos olhos conta como toda a comunidade rezou pela intercessão da Mãe Peregrina de Schoenstatt. E a menina estava ali, com um sorriso contagiante em sua linda carinha…. Assim “trabalha” a Mãe Peregrina. Simplesmente lhes mostra que os ama. E muito. Simplesmente realiza milagres de graça.

Seguia uma história atrás da outra, durante mais de uma hora, entre chimarrão, lágrimas e risadas, histórias de cura, de conversão, de conseguir uma boa educação para os filhos, de mantes uma relação, de poder escapar de situações perigosas, de batismos, comunhões, crismas, Alianças de Amor, casamentos, (no final da noite houve cinco anúncios de casamento, junto com meu louco desejo de ter ali neste momento o Papa Francisco e todos os Padres Sinodais, junto com todos os agentes da pastoral familiar de todo o mundo…)

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Mãe, faz com que cada família possa sentir o paraíso do Reino de Deus em seu lar

E chega o momento de rezar o terço. As crianças o dirigem e convertem-no em um momento de céu. Crianças de 6, 7, 8 anos que rezam os Pais-nossos e Ave-Marias com seriedade e alegria. Uma menina de 11 anos repete, depois de cada mistério, uma oração simples e forte: “Mãe, faz com que cada família possa sentir o paraíso do Reino de Deus em seu lar, que cada lar seja unido e acolhido sob seu manto protetor”. Tocamos algo do mistério da ação da Mãe Peregrina na Villa 31. Depois do terço, rezamos pelo Papa Francisco. Tenho certeza que ele também reza pelo seu povo da Villa 31…

Terminamos com uma deliciosa comida, preparada não sei quando nem como para tanta gente…

É quase meia noite quando voltamos num carro que Adela conseguiu por estas ruas da Villa 31 com cheiro de Santuário.

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Original: espanhol. Tradução: Isabel Schmid Lombardi

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