inserción social

Colocado em 2021-07-02 In Fratelli Tutti, Schoenstatt em saída

No meio do nosso povo, testemunhos de inserção social

CHILE, Nicolás Zalaquett •

Perante tantas bandeiras que ostentam o selo da “dignidade”, que são notórias, especialmente na vida pública e política, vale também a pena partilhar instâncias que, a partir do interior da Igreja e de Schoenstatt, contribuem para uma vida social mais integrada e dignificante. —

Um estilo de projectos pastorais que tem sido desenvolvido há muitos anos, que não diminuiu de força – pelo contrário, parece estar a crescer – é o de casas de inserção em comunidades vulneráveis ou marginalizadas pela sociedade. Neles, grupos de jovens vivem durante um período de tempo – de um semestre académico a um ano ou mesmo mais – para se envolverem de forma vital com a comunidade à sua volta, participando activamente nas suas Paróquias, capelas, conselhos de bairro e realizando várias actividades pastorais e comunitárias.

No artigo seguinte, entrevistámos quatro jovens do Movimento de Schoenstatt que vivem hoje – apenas – em algumas destas casas de inserção: Arde Puente Alto, Misericórdia e Banderas. Queríamos conhecê-los, compreender o que fazem e porquê. Queremos partilhar a sua vida e o seu trabalho, primeiro para rezar a Deus pela sua missão e, também, para inflamar os corações na Juventude e Família de Schoenstatt e motivá-los a viverem uma vida em saída, cada um a partir da sua própria realidade, procurando renovar a alma do Chile e recuperar a dignidade esquecida de tantas das nossas irmãs e irmãos.

José Ignacio Torrealba, Missionário em Banderas (UC Pastoral) / povoação de La Bandera

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José, M. Jesús E., Consuelo G., Gonzalo G, Pe. Javier Concha

O meu nome é José Ignacio Torrealba, tenho 23 anos de idade. Estou no meu 5º ano da Universidade. Entrei na Faculdade da Universidade Católica, estou a fazer uma Licenciatura em Economia com um Bacharelato em Política Pública e outro em Psicologia. Neste momento, vivo na povoação La Bandera, San Ramón, para Banderas, um projecto da UC Pastoral.

Há quanto tempo estás envolvido no Movimento?
– Desde toda a minha vida, desde que os meus pais participaram na sua juventude e mais tarde como casal e como família. Fiz parte dos Cruzados e Pioneiros em Curicó. Quando saí da escola, fui para Austin, Texas (EUA) durante um ano como missionário de Schoenstatt. E finalmente, participei novamente no Ramo Universitário em Santiago, agora mais de perto como militante.

O que é Banderas?
– Banderas é um projecto que procura gerar espaços de encontro onde se podem levantar potenciais soluções para diferentes problemas sociais através do diálogo entre a intuição popular, a academia (universidade) e a Doutrina Social da Igreja. Desta forma, queremos ser testemunhas da luz para renovar, assim como partilhar a fé, a esperança e a caridade nos “últimos lugares”. Paralelamente, trabalhamos com uma casa de inserção, uma ponte directa entre o projecto e a população, para que possamos trabalhar os vínculos, conhecer pessoas diferentes, que no futuro serão protagonistas da mudança e do trabalho que queremos fazer em conjunto. Hoje somos quatro estudantes da universidade que vivem em La Bandera.

O que te motivou pessoalmente?
– Fui motivado pelo encontro e por um profundo sentido social. Tendo tantas oportunidades que a vida me tem dado, com todo o conforto, sem grandes necessidades, quando, através de uma proposta da Pastoral, acabei por conhecer a população, que sentido poderia dar à minha vida de estudante e de agente da pastoral universitária? O mínimo que eu podia fazer era devolver. Colocar o foco naqueles que não são visíveis, nas pessoas que lutam todos os dias porque não têm as mesmas oportunidades que os outros. Já não foi por caridade, mas por justiça. E bem, senti que era necessário envolver-me em tudo, como diz o Padre Hurtado: “Não devemos encobrir a desigualdade e a injustiça social com obras de caridade esporádicas, mas temos o dever cristão de dar as nossas vidas para pôr fim a estas situações”.

Como concilias o apostolado com a tua vida universitária?
– Claramente a realidade da pandemia é algo diferente do que seria em “normalidade”. Mas basicamente, é o cumprimento dos meus deveres académicos durante o dia e à noite, partilhar a vida com a comunidade. Na praça, brincando com as crianças e conversando com os vizinhos, indo aos lares das crianças que não puderam aprender a ler devido à eterna quarentena, contribuindo para a Paróquia, para o conselho de bairro, e no meu caso, envolvendo-se noutros espaços (como os bombeiros), entre outras actividades mais esporádicas. A ideia é participar e envolver-se sendo mais um, mas ao mesmo tempo ser testemunha da luz, tal como João Baptista foi. Por vezes é preciso ficar acordado até tarde e levantar-se cedo, mas é a única forma de se poder dedicar o tempo que a povação e a sua população merecem, bem como de se poder desempenhar com responsabilidades académicas.

Como podemos partilhar um sentido de urgência para trabalhar em prol da dignidade pessoal?
– O Papa, na sua última encíclica social, deixa claro que “quando a dignidade humana é respeitada e os direitos humanos são reconhecidos (…) a criatividade e o engenho (…) florescem para o bem comum” (Fratelli Tutti, 22). Da mesma forma, acredito que a sabedoria é necessária para agir, “a verdadeira sabedoria pressupõe um encontro com a realidade” (FT, 47). Ou seja, aquele que sofre, encontra a realidade do sofrimento e, é desta forma que adquire verdadeira sabedoria sobre o assunto. Aquele que vive com os mais vulneráveis, encontra essa realidade, e é assim que adquire sabedoria… isto é replicado para todos os aspectos da vida. Isto é urgente, a vida é curta, e o que estamos hoje a fazer pelo outro? Ou, o que vamos responder a essa esperada pergunta que nos será feita quando deixarmos este mundo: quanto é que amaste?

Sofía Jouanne, Missionária em Arde Puente Alto

inserciónEu sou a Sofía, tenho 21 anos e estou a estudar Pedagogia básica. Entrei na Juventude Feminina de Colina no 2º ano, comecei a ir em missões e descobri a amizade pessoal com Deus e a necessidade de O partilhar. Quando entrei na universidade, comecei a participar no Arde Puente Alto, uma Fundação que trabalha nas cidades de El Refugio, Carol Urzúa e Las Caletas, e através das comunidades de inserção (voluntários que vivem na zona) e oficinas (académicas, recreativas ou formativas) na Escola Padre José Kentenich, procura que cada vizinho e cada criança experimente que é amado por Deus e que pode construir laços saudáveis com os outros, consigo mesmo e com Deus. Na minha experiência na Fundação, tenho podido ver muitas deficiências de perto e, em como Deus é uma resposta a essas deficiências. Este semestre vivo com Berni Strappa e Tutu Garnham, procurando trazer a experiência de casa que, vem de Deus (aos vizinhos, através do serviço na cozinha comum, à comunidade da capela e a quem quer que se aproxime).

Significa algo especial para ti o facto de haver mulheres a viver no projecto Arde?
– Embora não sejamos a primeira comunidade feminina, a comunidade missionária de mulheres que aqui vivem é um sinal de novos tempos em que a grande contribuição que as mulheres, cada uma à sua maneira, podem dar para a missão é reconhecida e valorizada, o que na nossa experiência é diferente (nem melhor nem pior) do que o que as comunidades masculinas oferecem.

Como pensas que no Movimento de Schoenstatt podemos caminhar para colocar o trabalho pela dignidade humana mais no centro?
– Nos dois meses que aqui estamos, vimos realidades muito duras: solidão, pobreza e toxicodependência são algumas delas, e descobrimos que embora muitas vezes não tenhamos os instrumentos para resolver os problemas, vincular-se sem julgar e, como irmãos, é sempre a resposta. Como schoenstatteanos, a dignidade humana deve ser um princípio que reja as nossas relações diárias, mas na maioria das vezes o que mais precisam é ser tratados com dignidade. Eles estão nas periferias, e é por isso que temos de sair do conforto do nosso ambiente quotidiano para os encontrar, sem medo.

Vicente Hurtado, Missionário em Arde Puente Alto

inserciónOlá, eu sou Vicente Hurtado, tenho 23 anos, sou de Talca e estou no meu 5º ano da Faculdade de Medicina. Conheci o Movimento toda a minha vida porque participei nos Cruzados e Pioneiros. Depois, na universidade não participei activamente por razões pessoais, até há dois anos atrás, quando pouco a pouco comecei a regressar. Actualmente vivo em Puente Alto por causa da Fundação Arde Puente Alto.

Esta é uma Fundação que procura ajudar a criar “casa” e bairros desejáveis para viver a nível local, através de diferentes iniciativas, tais como oficinas de arte, música, tutoria e desporto, e também para tornar Deus conhecido através da missão e dos vínculos, quer com oficinas sacramentais, missões e com as comunidades que vão viver todos os anos no sector.

Com quem vives aí?
– Vivo em “Puente” com Tomi (Tomás Prieto) que tem 25 anos, (muito bonito, ha,ha,ha…) estudante de Psicologia, e Gusti (Agustín Lorca) que tem 22 anos, um pouco cómico e estudante de Sociologia; vivemos em Villa El Refugio há quase 2 meses e até agora tem sido uma missão muito frutuosa e simpática, embora não sem as suas dificuldades devido à pandemia e aos cuidados que têm de ser tomados, mas penso que nós os três concordamos que não mudaríamos nada em relação a isso.

O que te motivou a mudar para Villa El Refugio?
– Sempre estive muito consciente do aspecto social, acredito mesmo que a minha fé se baseia em encontrar Deus neste tipo de actividade, em ajudar os outros. Portanto, sempre desejei uma missão mais constante que, não fosse apenas para o Verão ou uma vez por mês, ou mesmo uma vez por semana. Quando a opção de vir viver para Puente se apresentou, senti que era algo que estava planeado desde cima para mim, foi uma daquelas decisões fáceis e calmas a tomar, aquelas em que se podem colocar obstáculos no caminho, mas que se sabe que no final se vai dizer sim porque se sente bem e, se sabe que está certo.

O que te trouxe mais alegria enquanto lá estiveste?
– No pouco tempo que lá estamos, o mais belo foi estabelecer verdadeiros vínculos com as pessoas e que esses vínculos se baseiam na fé e em Deus. Apesar de todas as imperfeições que possamos ter, a Sua presença é sentida.

O que é o mais importante que deve ser dignificado no teu ambiente?
– Penso que o mais importante é a falta de segurança para se desenvolver livremente na vizinhança. A baixa coesão familiar, o tráfico de droga, a falta de vínculos com a comunidade, a falta de estabilidade económica, entre muitos outros factores, tornam estas populações locais não desejáveis para viver, nem locais muito adequados para se desenvolverem no dia-a-dia.

E como podemos nós contribuir para isso?
– Há um mundo de coisas para fazer e ajudar, desde apoio financeiro a Fundações, a participar em workshops, a agarrar um grupo de pessoas e a limpar as ruas. Pode fazer-se de tudo, desde o mais básico ao mais complexo; é apenas uma questão de imaginar a diferença entre apanhar o autocarro numa paragem cheia de lixo em todo o lado, sem árvores ou relva nas calçadas e apanhar o autocarro em Providencia. Começa com coisas pequenas para dignificar e de lá saem coisas grandes.

María Jesús Tocornal, Missionária na Misericórdia / Povoação La Pincoya

inserciónOlá a todos! O meu nome é María Jesús Tocornal e sou missionária em La Pincoya em Huechuraba. Sou Cientista Familiar e trabalho como missionária na Fundação Misericordia como educadora.

O meu tempo em Schoenstatt começou em 2012 no Santuário de Melipilla, e em 2015 no Santuário de Providencia. Fiz parte de várias Jornadas, encontros e missões. No Movimento, descobri a importância de saber discernir qual é a minha missão, a fim de me entregar aos outros.

Actualmente, vivo com três missionárias numa casa dentro da cidade. Aqui dedicamos o nosso tempo a evangelizar porta a porta, com a intenção de mostrar um Deus misericordioso, que nos perdoa constantemente, convidando-nos a aproximar-nos d’Ele e a confiar nas Suas infinitas graças.

A minha maior motivação tem sido conhecer outra realidade, onde pude experimentar a alegria de viver a amizade com simplicidade e misericórdia. Aqui, o verdadeiro amor nasce de vínculos sinceros que estão prontos a mostrar tudo o que são e tudo o que têm, onde nos permitimos partilhar com eles muitas alegrias, tristezas e tantas experiências que guardamos nos nossos corações.

Como vives a tua relação com os teus amigos e familiares de La Pincoya?
– Isto tem sido o mais difícil para mim, porque apesar de estar perto deles em termos de distância, tenho-me sentido distante, uma vez que não tenho tanto tempo como gostaria. Contudo, isto levou-me a gerar uma maior profundidade nas conversas, a ser mais atenta e a apreciar cada mensagem ou chamada. É incrível como as pessoas próximas de nós estão felizes por nos verem felizes, e isso faz com que ambos cedamos aos tempos, sabendo que não é por nos vermos menos que o afecto não está lá, e bem, também se aprende a apreciar mais as amizades, também se faz um sacrifício para vir aqui e isso é apreciado.

Que papel podem desempenhar os vínculos pessoais na dignidade de cada homem e de cada mulher?
– Os vínculos pessoais são fundamentais nas inter-acções humanas, para que possam ser aprendidos e se afiancem no Homem.

Quando as relações interpessoais são superficiais, o desenvolvimento necessário para dignificar o outro não é alcançado, portanto, o respeito deve ser a base. Isto pode parecer óbvio, mas esquecemo-lo todos os dias. Devemos começar por estar conscientes de que a pessoa tem uma história que ainda não conhecemos e, que cada acção faz parte de um marco nas suas vidas. Isso faz-nos entrar com um olhar mais humilde e simples, para olharmos para o outro com olhos cheios de misericórdia onde podem sentir o amor de Deus.

inserción socialFonte: Revista Vínculo, com autorização

Original: espanhol (30/6/2021). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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