Colocado em 25. Agosto 2015 In Projetos, Schoenstatt em saída

Quer seguir em frente…

PARAGUAI, por Maria Fischer •

Chegámos depois de uma viagem aventureira no carro do Padre Pedro Kühlcke, por caminhos de terra vermelha meio perdidos na selva, com buracos e ondulações de terreno gigantes que me fizeram desfrutar, grátis, de um quase Rally Dakar. Mas a aventura maior desse dia foi ao chegar. A grande aventura chama-se Ángel (nome fictício), tem 17 anos e é um dos amigos jovens do Pe. Pedro Kühlcke da Pastoral penitenciária “Visitação de Maria” na Prisão de Menores próximo de Tupãrenda. É uma aventura de Maria e dos seus instrumentos.

Ángel recebe-nos, com um sorriso um pouco tímido e muito sincero, no que é desde há algum tempo o seu lugar de onde não pode sair – uma cabana humilde rodeada de terra vermelha, com uns arbustos e uns jogos coloridos, situada perto de Luque. A sua prisão domiciliária, depois de passar algum tempo na prisão de menores. Na parcela de terreno ao lado os vizinhos estão a terminar a construção de uma casa muito simples… “Nós ajudamo-los, os três” disse, e o seu tio, bem como o pequeno que observa com olhos grandes o “Pai Pedro” e a senhora que veio da Alemanha para os visitar, dizem que sim com as cabeças. “Ajudamo-los a construir uma casa, e depois eles ajudar-nos-ão quando pudermos construir, disse Ángel.

Sentados nas cadeiras de plástico em torno de uma mesa, sob o sol radiante do Paraguai, Ángel começa a contar a sua vida, animado e incentivado cada vez mais pelo Padre Pedro, depois nos ter preparado um tereré (bebida típica do Paraguai) que partilhámos enquanto falava. Entretanto, houve momentos de abraços em silêncio, quando o relatado se tornava demasiado emotivo…

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Do que mais sente falta é deTupãrenda

Na prisão Ángel foi à escola. Gostava de aprender, e aprendeu bem. “Foi o aluno com as melhores notas”, disse o Padre Pedro, com orgulho paternal. Mas desde que foi submetido à prisão domiciliária, não pode ir mais à escola, porque não pode sair de casa. “Gostava muito de poder continuar com a escola”, disse “Quero seguir em frente, quero trabalhar e ganhar alguma coisa para poder alimentar uma família. Não quero voltar a rua. Nenhum jovem devia estar na rua…” É uma das inquietações do Padre Pedro tanto no caso de Ángel como de outros: procura ter permissão do Ministério da Justiça para que ele e outros jovens possam ir à escola para terminar as aulas que começaram na prisão. “Sinto falta da escola”, disse, e de que mais sentes falta pergunta-lhe o Padre Pedro “dos lanches de sábado?” – “Não” responde-lhe Ángel. “Tupãrenda. Tenho saudades deTupãrenda. Das missas em Tupãrenda”.

Este jovem, que desde os seus 8 anos esteve a viver na rua, sobrevivendo e tendo às vezes muito dinheiro por tráfico de drogas e roubos de motas (impressionante a quantidade que roubava e vendia num dia! Tem talento de empresário este rapaz, pensei) sente a falta de Tupãrenda, do Santuário, das missas.

Conta-nos com que vontade foi sempre – como prisioneiro de “Esperanza”, podendo sair às vezes – , a Tupãrenda, às missas dos jovens. Fala-nos das longas conversas com o Padre Pedro, e da confissão de toda a sua vida, a alegria de se sentir livre de todo o pecado e ter a graça de seguir em frente…

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A Mãe e Rainha de Schoenstatt vive ali

“Mas tenho Tupãrenda aqui, lá dentro”, disse-nos, com sorriso tímido. Convida-nos a acompanhá-lo até à cabana. Sentámo-nos na cama, olhámos na penumbra… Aqui está. Numa das traves que suporta o teto de plástico. A Mãe e Rainha de Schoenstatt, Ela que no seu Santuário de Tupãrenda recebe milhares e milhares de peregrinos, está aqui com este jovem que tantas saudades tem dela. “Oferecia-lhes estas imagens autocolantes de Tupãrenda, do jubileu”, disse o Pe. Pedro. “Guardaste-a?” Claro que sim, disse Ángel. “Rezo-lhe todos os dias para que me ajude a continuar em frente, com ela. Não quero voltar a ser o que era”, afirma.

Aqui estamos: três paraguaios, um sacerdote argentino e uma alemã, olhando o Santuário Lar mais singelo que jamais vi. Abraçados, “em Aliança”, rezámos… com palavras livres, primeiro, depois, juntos, “Oh Senhora minha…”, e silenciosamente acrescentei: “consagro-te neste dia… os seus desejos, o seu futuro, a sua volta a Tupãrenda e à escola, à sua família…”. O Padre Pedro deu-nos a bênção sacerdotal. Saímos pois o calor ali dentro era insuportável. Não se conseguia dizer se o que escorria pela nosso rosto eram gotas de suor ou lágrimas…

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Volta a Tupãrenda

Aconteceu em março. Meses mais tarde, umas semanas depois da visita do Papa Francisco ao Paraguai, o Padre Pedro recebe a boa notícia: depois de muitas diligências, muito tempo, muita espera, chegou a permissão para Ángel sair da sua prisão domiciliária para ir à Missa dos Jovens em Tupãrenda! Um momento de alegria enorme…

“E a escola?”, pergunto, via Whatsapp, ao Padre Pedro. “Ainda nada”, responde-me. “É que já tenho quem faça um donativo para os gastos da camioneta…”

Ainda temos de esperar.

Peço à Mãe de Tupãrenda, à Mãe e Rainha que vive e atua neste Santuário Lar humilde de Ángel, que Ela interceda pelo seu filho, seu aliado. Por Ángel, e por toda a Pastoral das prisões e seus instrumentos, e tantos jovens como Ángel que caem na criminalidade por não conhecer outra maneira de sobreviver na rua.

E para os que com as suas doações de tempo, amor e dinheiro tornam possível a tarefa da Pastoral “Visitação de Maria”.

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Fotos: Pe. Pedro Kuehlcke, “Ángel”

Original: espanhol: Tradução: Maria de Lurdes Dias, Lisboa, Portugal

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