Himmelwärts

Posted On 2022-10-23 In José Kentenich

Rumo ao Céu: como se fosse ouvido pela primeira vez

ALEMANHA, Maria Fischer •

Sem aplausos. Um silêncio imponente, no qual nem sequer se ouve uma mosca. Martin Flesch pediu no início para não se aplaudir durante as pausas e para deixar alguns segundos no final. A fim de se poder aprofundar a impressão pessoal. Isto não teria sido necessário. Tanto os versos conhecidos, frequentemente rezados e amados do Rumo ao Céu, como os desconhecidos e intensos, soam como se fossem ouvidos pela primeira vez esta noite. O diálogo entre as arrogantes e desesperadas vozes contemporâneas e o ferido e confiante José Kentenich não se fica pelo momento histórico. De repente Mariupol, Cabul e Teerão estão nele e também a casa de refugiados em chamas em Solingen, abuso, cardeais e pandemia e algures pouco depois do meio, eu, neste meu tempo indo já Rumo ao Céu. —

“Quando me perguntei em 2016 como é que as orações do Rumo ao Céu, escritas pelo Padre Kentenich no campo de concentração de Dachau, poderiam ser permeáveis e recuperar vigência para o tempo presente, rapidamente se tornou claro para mim que as utilizaria com base numa aura sonora em diálogo com as vozes da época”, diz o autor e compositor Dr. Martin Flesch.

E este diálogo ataca, toca, comove. Histórico, biográfico, actual, pessoal, feito à medida, como diz Martin Flesch no início. Ou como este diálogo em palco, nesta composição total, feita de música, palavras e gestos minimalistas, toca a todos os que se deixam tocar. Não é um espectáculo com efeitos de luz e cor, apenas algumas imagens, uma vela e de resto apenas palavras e som: harpa, oboé, violoncelo, monocórdio, percussão, guitarra, voz. Intenso, comovente, como nunca se ouviu antes.

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Entretanto, as vozes do tempo falam incessantemente, acusando, duvidando,…

Entretanto, as vozes do tempo falam incessantemente: acusam, duvidam, acreditam, relativizam, negam e, por vezes, permanecem presas ao nihilismo. Os textos do Rumo ao Céu defendem a segurança existencial básica do Homem a partir de uma fé sólida enraizada na Divina Providência, percebendo a realidade inabalável da transcendência divina que irrompe diariamente para apoiar, guiar, proteger, abrigar e – em última análise – redimir, com todas os matizes e tons intermédios. As vozes do tempo, baseadas nos “Poemas do Gólgota” de Peter M. Behncke de 1985, não são apenas “o mundo perdido do mal”; aí ressoam com agressão e amargura, com dor, desilusão e raiva, e com saudade, amor, esperança, que, esmagada e estilhaçada, é reacendida. E na voz do Padre Kentenich, por vezes suave, por vezes com pontos de interrogação, ressoam as feridas e chagas que há muito desapareceram nas sombras: o nascimento ilegítimo, a infância sem pai, o orfanato, a solidão inelutável, as lutas religiosas insanas, as rejeições dos seus superiores, suspeito, traidor….. Esta é a história de José Kentenich, uma história com mil nomes que está lá fora no vestíbulo, no destino dos migrantes, nos testemunhos de vítimas de abuso espiritual, escritos em livros e em almas, esses são Haile da Eritreia, Mirko do Cazaquistão e Leandra da casa das crianças ao lado.

E a percussão bate com força.

Quase insuportável com esta intensidade. Mas antes disso é esta canção sobre a dignidade do Homem.

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Há dignidade em nós

Há dignidade em nós,
Isso canta uma canção em ti.
Descoberta apenas pelo teu anseio,
que só o som desperta em ti.

Uma canção, um leitmotiv, indescritivelmente cantada na sala por Susanne Scherer. Quando a voz de José Kentenich diz nas suas orações escritas em Dachau: “Pai, que se cumpra em cada instante o que previste para nós,…”, isto só pode ser realizado de forma credível através do som desta canção de dignidade em nós. “As orações do Rumo ao Céu são o resultado de uma história: a história do Homem com Deus e a história de José Kentenich com Deus Pai; portanto, não são um fim em si mesmas, mas estão num contexto que moldou a sua própria vida, a vida das pessoas no campo de Dachau, mas também a nossa vida de hoje.

A história da origem das orações do Rumo ao Céu mostra-nos que há sempre a possibilidade de tomar decisões que podem mudar profundamente as nossas vidas, porque se relacionam concretamente com Jesus Cristo e contra o ódio e violência da guerra, mas também contra as mascaradas do tempo presente.

Na decisão de José Kentenich, vemos o horror de Dachau. Ele procura Cristo e no campo de concentração a face do desespero, a negação da vida, a ironia, o escárnio e o desprezo, mas no final Cristo tem o fôlego mais longo”, diz Martin Flesch.

“Também nós, as pessoas do presente, que somos os primeiros a moldar as vozes dos tempos, temos todos os dias a oportunidade de usar a espiritualidade do momento, de tomar decisões corajosas todos os dias. O nosso tempo também está repleto de situações de campos de concentração, vícios, cinismo, guerra de trincheiras dualista e desumanidade; estamos a viver uma era de narcisismo”.

Mas há uma dignidade em nós… a canção do verdadeiro eu, do núcleo divino em acção em todos nós, indestrutível. Há uma dignidade em nós… uma dignidade que transcende a solidão nesta canção que encerra o “prólogo”, que tantos na escola do Padre Kentenich talvez rezem diariamente: Tudo o que levo em mim, o que suporto…te ofereço como dom de amor…

Alguma vez rezámos isto acompanhado de harpa, violoncelo e oboé?

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Tu nunca me deixas só

Irrupção, contradição, avanço: o oratório move-se quase sem fôlego nestas três partes através da história e biografia, não só, de José Kentenich. Onde o Homem declarou o céu na terra e a transformou em inferno – Concedes-me luz, dás-me forçaconfiguras-me à tua imagem,….

E o Teu santuário, diz a canção, é para nós Nazaré, onde o sol de Cristo se manifesta claramente. Isto soa tão maravilhoso. E exigente: Mãe faz que Cristo brilhe em nós com maior claridade… não para nós, para este mundo na escuridão.

Esta voz do “Rumo ao Céu” não é apenas suave e adorável. No “silêncio, onde nada acontece”, a “palavra de Deus” bate como um “martelo que destroça“, como uma “espada“. E em resposta aos “golpes leves que só doem depois de anos” não se trata de descanso, mas de “levemo-la“, a palavra de Deus, “com alegria para os povos“.

Quase inquietante nesta mesma hora, no contexto do bombardeamento de alvos civis na Ucrânia, é a “voz do tempo” da pomba branca da paz, posando no telhado do século XXI… onde não há paz. “Em grandes aflições e amargas dores… escutaste com benevolência a minha oração…a todos os meus, que se unem a ti, guardaste fielmente… cheio de confiança… Ele me conduzirá

através das trevas …

Mesmo no meio do medo do Homem frente ao Homem, capaz de caminhar sobre cadáveres, pelo poder e possessões… No meio de feridas da alma e da fé. “Queremos servir a Tua obra desinteressadamente…”. Agora, já.

A expressão “rumo ao Pai” aparece no Rumo ao Céu?

A expressão “rumo ao Pai” aparece no Rumo ao Céu? Sim, mas nunca ouvi nada parecido com o descrito esta noite no epílogo da Páscoa do oratório. ” Por todos os meios queremos arrebatar o mundo e os corações rumo ao céu, rumo ao Pai…” E o tempo fica parado. Repete as palavras de Rumo ao Pai, de forma hesitante, silenciosa, firme. Cristo tem o fôlego mais longo. “Por todos os meios queremos arrebatar o mundo e os corações rumo ao céu, Rumo ao Pai…” Um verdadeiro arrebatamento. Mais do que os poucos segundos que Martin Flesch pediu no início, passam antes de começarem os aplausos.

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Rosas

No final, há rosas para os músicos, a cantora, os cantores, os rapsodistas, os técnicos, os patrocinadores e relações públicas. O Prof. Söder do Instituto José Kentenich agradece a composição deste oratório por ocasião do 50º aniversário da Instituição.

Algumas palavras da introdução de Martin Flesch ressoam: “Em todo o lado hoje ouvimos a pergunta: Como deve ser o futuro da Igreja?

Não deveríamos antes discutir a questão de como deveria ser, realmente, a pessoa do futuro que molda a Igreja e procura um lar nela?

Mais submissa, auto-sacrificial ao ponto de se abnegar, endurecida e lutando por um ideal inatingível, mas instável, vazia e depressiva, ou melhor, introspectiva, responsável, empática, compassiva e vulnerável, mas cheia de esperança? As vozes dos tempos mostram facilmente como é difícil seguir o caminho de Jesus com todas as suas consequências”.

Pesado. Brutalmente pesado, como os golpes duros da percussão. Mas nele soam os tons da harpa, o oboé, o monocórdio, a guitarra e o violoncelo e o canto do verdadeiro eu. Há dignidade em nós…

“Por todos os meios queremos arrebatar o mundo e os corações rumo ao céu, Rumo ao Pai…”

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Original: alemão (18/10/2022). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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