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Colocado em 2021-01-12 In José Kentenich

Sem medo dos erros do pai

Gonzalo Génova, Charo González, Madri, Espanha •

O bispo de Tréveris constituiu recentemente uma comissão de investigação em sua diocese, onde foi iniciado o processo de beatificação e canonização do Pe. Kentenich, a fim de estudar com rigor histórico os acontecimentos denunciados pela teóloga Alexandra von Teuffenbach em julho de 2020, completados com novas e sérias acusações no mês de outubro. —

Junto com esta comissão de investigação histórica diocesana, também foi constituído em Schoenstatt um grupo internacional de pesquisa com membros das diferentes comunidades que formam o Movimento, com um propósito diferente: estudar em profundidade e avaliar criticamente o pensamento e a prática pedagógica e religiosa do Pe. Kentenich. São dois objetivos diferentes, mas é óbvio que estão intimamente relacionados.

Esperamos que em ambas as comissões não haja apenas especialistas em história e teologia, mas também especialistas em avaliar os temas de abuso, particularmente no campo eclesiástico. Provavelmente o resultado destes estudos será um relato dos eventos que motivaram o exílio do Pe. Kentenich muito diferente daquilo a que estamos acostumados.

O marco por excelência

Dos quatro marcos que são geralmente mencionados na história de Schoenstatt, o terceiro é o marco por excelência, porque nele estava o núcleo da contribuição do padre Kentenich à Igreja: a denúncia do pensamento mecanicista na cultura ocidental (e por extensão em grandes setores da Igreja Católica), junto com a cruzada do “pensar, amar e viver orgânicos”. Talvez devêssemos também considerar que o “princípio paternal” (sua compreensão particular no entendimento da paternidade espiritual) é uma parte essencial do que foi colocado em xeque.

Da mesma forma, entre as várias causas do exílio que são frequentemente mencionadas, a protagonista da história sempre foi esta: “a Igreja não entendeu Schoenstatt; o pai não podia ceder; ao contrário, respondeu corajosamente escrevendo a Epístola Perlonga; isto lhe custou o exílio”. Além disso, as biografias mencionam outras causas menos conhecidas: ações concretas do pai e seus seguidores em relação às Irmãs de Maria, aos sacerdotes diocesanos e aos palotinos.

Se a investigação histórica concluir que houve algo de errado com estas ações, que adquiriram maior destaque à luz dos testemunhos que agora são conhecidos, será necessário aceitar isto e renunciar a este “relato heroico” do exílio que, ao que parece, já não se sustém. Como já disse o Pe. Angel Strada há alguns anos, “temos que renunciar a uma imagem do Fundador, onde tudo é perfeito”.

O Santo Ofício não se retratou

Recordemos o que o Cardeal Ratzinger escreveu em 1983 em resposta ao padre Errázuriz, que na época ocupava a Presidência Geral do Movimento, a respeito da reabilitação do Pe. Kentenich: por parte do Santo Ofício não houve nenhuma retratação sobre  medida “administrativa” adotada em 1951, mas sim a confirmação de que tinha sido uma medida adequada e frutuosa.

No entanto, de acordo com as informações que recebíamos sobre o relato desta incompreensão carisma de Schoenstatt por parte da Igreja, sempre se supôs que o Pe. Kentenich estava completamente certo em suas denúncias “proféticas”, e que o julgamento da Igreja estava equivocado (além de abusivo em sua forma de proceder). Mas e se não foi bem assim? E se o Pe. Kentenich estava equivocado, não em tudo, mas em algum aspecto do que ele considerava tão essencial a ser defendido, mesmo com o maior dos sacrifícios pessoais? Por exemplo, tudo que se refere à relação entre governo e direção espiritual, e sua possível confusão.

Um trabalho de reflexão e discernimento

Parece-nos que um elemento essencial do processo que nós schoenstattianos temos que enfrentar é o trabalho de reflexão e discernimento. Não apenas sobre certas ações concretas, mas principalmente sobre o carisma do Fundador, porque esse carisma é o que continuará a inspirar Schoenstatt no futuro.

Não temos dúvidas de que o vínculo com o Pe. Kentenich gerou uma imensa corrente de santidade. Mas isso não anula o fato de que se havia em seu pensamento, ações e pedagogia elementos que podem conduzir para a direção errada, eles precisam ser devidamente discernidos e prevenidos. E este é para nós o ponto radical, mesmo acima de hipotéticas falhas na integridade moral do Pe. Kentenich ou de uma possível perturbação do seu julgamento após sua passagem pelo campo de concentração, unido a uma ferida anterior de apego, exacerbada por tempos especialmente difíceis para qualquer pessoa.

Restauração da honra e revisão de atitudes

É claro que a vida do Pe. Kentenich e as acusações que estão sendo feitas contra ele precisam ser revistas e investigadas. Esta investigação histórica é necessária para restaurar sua honra, ou a das pessoas que sofreram seus abusos, que também eram membros da família de Schoenstatt, se as acusações forem comprovadamente bem fundamentadas.

É necessário rever a atitude institucional que tem prevalecido durante todos estes anos em relação a estes eventos. Também é necessário rever a atitude perante vozes críticas, e rever a atitude de silenciamento e sigilo de fatos e pessoas que tiveram um papel fundamental no desenvolvimento de Schoenstatt.

Mas ainda mais importante é rever um carisma e uma pedagogia que não foram adequadamente revisados pelo Movimento, pois o exílio sempre foi interpretado como uma consequência injusta de uma Visitação que não foi capaz de compreendê-lo, ao invés de considerá-la uma intervenção nascida do cuidado solícito da Igreja.

Esta é a tarefa fundamental. Pode-se assumir um fundador com defeitos, com erros claros e graves no trato com os outros. Mesmo que isto se torne evidente, pode-se assumir um fundador que – talvez como conseqüência de suas experiências no orfanato, em duas guerras mundiais e no campo de concentração – tivesse dificuldade em reconhecer um tratamento abusivo, que poderia não ser perturbador para ele, mas sim para as pessoas do seu convívio. O que não se pode assumir é que continuemos a construir sobre um terreno escorregadio, sobre uma história que não está fundamentada na verdade. Esta é nossa primeira tarefa: encontrar a rocha, a verdade, a fim de fortalecer o caminho e voltar à vida. Não tem sentido resistir à verdade, a única que nos torna livres.

Nossa única rocha

Nossa única rocha é Cristo. Não devemos ter medo de reavaliar o carisma e os ensinamentos do fundador de Schoenstatt, que sem dúvida teve a força e o espírito para colocar em prática contribuições únicas e frutíferas para a Igreja. Pelo contrário, é um caminho que consideramos especialmente fecundo: se Schoenstatt já nos proporciona um caminho que nos cativou, submetê-lo à luz renovadora do Evangelho e à tradição mais saudável da Igreja pode ser uma oportunidade de novidade, pode ser a verdadeira ocasião para um Schoenstatt em saída.

Kentenich foi um profeta em seu tempo, mas também foi filho do seu tempo: não podia saber tudo, não podia prever tudo, pode ter cometido erros e pode ter tido ideias equivocadas. Não devemos ter medo de empreender este trabalho de discernimento. Não devemos ter medo dos “erros do pai”.

Cruz de la Unidad

Cruz da Unidade | Foto: Dillinger

Original: Espanhol (9/1/2021). Tradução: Luciana Rosas, Curitiba, Brasil

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2 Responses

  1. Luciana Rosas diz:

    Querido Gonzalo,
    Agora sou eu quem digo “querido Gonzalo”.
    Obrigada por este texto. Obrigada pelo caminho que estamos percorrendo – juntos – de reflexão e discernimento como bem sinaliza em seu texto.
    É realmente um presente ter tido a oportunidade de traduzi-lo e poder assim refletir com maior profundidade cada palavra deste grande artigo.
    Um grande abraço do Brasil.

    • Gonzalo Génova, Madrid diz:

      Querida Luciana, transmito sua gratidão a Charo (María del Rosario) com quem escrevi o artigo em frutuoso diálogo.

      Ela também trabalha, como você, em questões de abuso no campo eclesiástico. E também, como você, ela é uma sonhadora e uma lutadora.

      A verdade é que é um presente poder compartilhar e continuar unidos neste caminho. Abraços, Gonzalo e Charo.

      (tradução automática)

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