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Colocado em 2020-11-09 In José Kentenich

Que reabilitação?

 Gonzalo Génova, Espanha •

Entre as várias acusações que Alexandra von Teuffenbach fez contra o Pe. Kentenich, no início de Agosto ela denunciou (ES) que nunca houve qualquer reabilitação formal após o seu regresso do exílio em Milwaukee. Sobre isto houve um artigo anterior em schoenstatt.org onde foram citados os documentos pertinentes ao caso, principalmente duas cartas do Cardeal Ratzinger quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, respectivamente em 1982 e 1983, em resposta a diversas consultas e queixas que recebeu, tanto dos Palotinos como da Presidência de Schoenstatt e de outros Bispos e Cardeais. —

A primeira coisa a notar é que, de facto, nunca houve um decreto formal de reabilitação, tal como o Pe Angel Strada já confirmou (ES). Não houve um decreto formal porque “não era costume”. Não hesito em dizer que, ao serem permitidas tais ambiguidades na situação jurídica de uma pessoa perante a Igreja, parece-me uma grave injustiça por parte de um órgão do Vaticano. E, se é ou foi uma prática habitual, então é uma injustiça habitual.

Uma reabilitação “de facto” – o que é isso?

P. Josef KentenichArgumenta-se então que houve uma reabilitação “de facto”, para a qual são fornecidas várias provas, entre as quais podemos destacar:

  1. que a Congregação para a Doutrina da Fé considerasse encerrado o caso Kentenich e o remetesse para a Congregação para os Religiosos (20/10/1965);
  2. que o Papa Paulo VI aprovasse esta medida dois dias mais tarde e, além disso, recebesse o Pe. Kentenich em audiência (22/12/1965);
  3. que o Pe. Kentenich retomou a sua actividade à frente do Movimento, e em particular como Director Geral das Irmãs de Maria, com o conhecimento de muitas pessoas com autoridade na Igreja, sem que ninguém se opusesse;
  4. que o Bispo Höffner, que aceitou incardinar o Padre Kentenich na sua Diocese de Münster para que ele pudesse deixar a comunidade dos Padres Palotinos, informou o resto do episcopado alemão e não recebeu qualquer objecção ao regresso do Padre Kentenich nem, à sua retomada do apostolado à frente de Schoenstatt;
  5. que o Bispo Stein, autor do relatório da primeira Visitação (Fevereiro de 1949), foi quem abriu o processo de beatificação e canonização em 1975, com a autorização prévia (nihil obstat) da Congregação para a Doutrina da Fé em 1973.

O que ainda está em aberto

Pessoalmente, considero todas estas provas mais do que suficientes para argumentar que houve, verdadeiramente, uma reabilitação “de facto”. No entanto, deve ter-se em conta que a questão não foi completamente esclarecida de um ponto de vista histórico. De facto, na sua carta de 2 de Abril de 1982, o Card. Ratzinger diz que, quando o Santo Ofício remeteu a causa aos Religiosos, foi na condição de que o Pe. Kentenich não assumisse a direcção da Obra de Schoenstatt. Mas, esta mesma afirmação foi contestada pelo Pe. Javier Errázuriz, que na altura era o Presidente Geral, e pelo mesmo Bispo Höffner que tinha incardinado o Pe Kentenich. Do meu ponto de vista, o que ainda requer explicação é a razão pela qual, na sua carta de 15 de Novembro de 1983, o Card. Ratzinger não ratifica nem nega essa afirmação, apesar de lhe ter sido, firmemente, solicitado que o fizesse. Tanto quanto sei, este é o último documento escrito sobre o assunto.

Dois sentidos de reabilitação

Agora, quando falamos de “reabilitação”, devemos começar por distinguir dois possíveis significados do termo. Primeiro sentido: o Santo Ofício considerou que a “medida administrativa” do exílio tinha cumprido o seu objectivo e o Pe. Kentenich poderia regressar à sua vida anterior. Segundo significado: o Santo Ofício considerou que o exílio tinha sido uma medida injusta, ou pelo menos desproporcionada, e esta medida deveria ser anulada.

Como se pode ver, são dois sentidos completamente diferentes, porque no primeiro sentido não se considera, de forma alguma, que o exílio teria sido uma injustiça. Isto é mais importante do que parece, porque se, se estabelecer que o Pe. Kentenich foi reabilitado no primeiro sentido (“sentença cumprida”), então não se pode concluir que ele também foi reabilitado no segundo sentido (“sentença injusta”). Não podemos ignorar que a grande maioria das pessoas não distingue, adequadamente, estes dois sentidos, e tende a assumir que a reabilitação “de facto” envolveu o reconhecimento de que o exílio tinha sido uma medida injusta.

De facto, na segunda carta de Ratzinger (1983), dirigida ao Pe. Errázuriz, podemos ver uma indicação clara de que o exílio não é considerado uma medida injusta que teria de ser reparada, e ao mesmo tempo, vemos declarado o objectivo dessa medida. A carta diz isso:

  • “As medidas tomadas nessa altura pelo Sanctum Officium contra o fundador da Obra de Schoenstatt tinham o único objectivo de proteger as boas ideias religiosas do Padre Kentenich, de as colocar ao cuidado espiritual da Igreja e de proteger a Obra como um todo, bem como os membros individuais, de possíveis perigos.
  • “A Congregação reconhece, plenamente, o trabalho abençoado que muitos membros da Obra tinham realizado nos últimos anos, tanto espiritual como pastoralmente, e vê nisto uma confirmação das intenções que a orientaram naquela época“.

Por outras palavras, em 1983 não há nenhuma retratação da medida “administrativa” adoptada em 1951, mas sim confirmação de que se tratava de uma medida adequada e bem sucedida. Isto não pode ser interpretado de ânimo leve, nem pode ser negligenciado. Se havia algo no pensamento e na pedagogia do Pe. Kentenich que conduzia a uma direcção errada, é ainda necessário distingui-lo das suas “boas ideias religiosas”, e assim ser-se capaz de compreender, correctamente, a extensão da reabilitação, implícita nos acontecimentos que se seguiram ao seu regresso de Milwaukee e no início do processo de beatificação e canonização em 1975.

Foto: Von Jim McIntosh – https://www.flickr.com/photos/jmcdesign/albums

 

Original: Espanhol (8/11/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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