Colocado em 2020-11-18 In José Kentenich

Agente de Deus

Do Pe. Elmar Busse, Dernbach, Alemanha •

Em 24 de Abril de 1974, Günter Guillaume, secretário pessoal do chanceler Willy Brandt, foi detido em Bona sob a acusação de suspeita de espionagem. Na altura da sua prisão, disse: “Sou um oficial do Exército Popular Nacional da RDA e um funcionário do Ministério da Segurança Nacional. Peço que a minha honra como oficial seja respeitada”. Esta sentença foi uma prova essencial para a sua condenação em julgamento, uma vez que, até essa altura, as provas contra ele eram bastante escassas. —

O desmascaramento marcou o início do chamado “caso Guillaume”, que conduziu a uma grave crise política na República Federal da Alemanha que, terminou com a demissão do Chanceler Federal a 7 de Maio de 1974.

Agentes, espiões, agentes do Serviço Secreto

Não são apenas as novelas de ficção e as adaptações cinematográficas sobre o mestre espião do serviço secreto inglês MI6, James Bond, que fascinam milhões de leitores e telespectadores.

O destino de agentes reais, como o envenenamento, com Novithsok, do agente duplo Sergej Skripal e da sua filha em Salisbury, Grã-Bretanha, também despertou grande interesse nos meios de comunicação social. O agente duplo foi libertado, após seis anos de prisão na Rússia, na sequência de uma troca de espiões, e foi autorizado a regressar a Inglaterra.

Desde que a História começou a ser registada e existem Estados, existe o fenómeno dos espiões.

Já José, no Egipto, acusava os seus irmãos, que não o reconheciam, de serem espiões. (Cf. Gen. 42:9)

Os agentes são leais ao seu país de origem, mas devem também conhecer muito bem o país onde trabalham, para poderem colocar-se num local de confiança a partir do qual, possam obter informações para enviar de volta para a sua terra natal.

Richard Sorge, um espião alemão a trabalhar no Japão ao serviço da União Soviética, conseguiu informar o governo de Moscovo, antes da sua exposição que, o Japão não tinha qualquer intenção de atacar a União Soviética, após a declaração de guerra aos Estados Unidos. Isto tornou possível às forças soviéticas deslocarem-se para a sua frente ocidental.

Será que Deus tem agentes na terra?

Pode parecer um pouco invulgar, mas será que nós, cristãos, também nos podemos ver, a nós próprios, como agentes de Deus num mundo que abandonou Deus ou que é mesmo anti-Deus? No Evangelho de João é realçado o dualismo entre Deus e o mundo (cf. Jo 14,17-27 e acima de tudo: 15,18-16,4). Mas, os outros Evangelhos não falam, necessariamente, da harmonia entre o mundo e o Reino de Deus: “Não pensem que eu vim para trazer a paz à terra. Não vim para trazer a paz, mas sim a espada. (Mt 10,34 e paralelo em Lc 12,51-53)

E, ao mesmo tempo, a oração do Pai Nosso “Venha a nós o Vosso reino” é o grande desejo e a oração sincera de Jesus para que o reino de Deus ganhe espaço neste mundo. E, embora tenha feito tanto bem, não só, não foi recebido de braços abertos, como encontrou uma resistência maciça, especialmente entre a elite da liderança política e religiosa do seu país, da qual acabou por se tornar vítima.

Pertence a um dos Mistérios da História da Salvação, que o Deus Todo-Poderoso e Omnisciente nem sempre lida com os seus oponentes tão directamente como lidava com Saulo antes de Damasco. E aí mesmo, lemos que Deus – depois de ter conseguido o impossível – pede ajuda a Ananias para introduzir, mais profundamente, o recém convertido Saul no cristianismo. Ananias tem medo, contudo, porque sabe o que este fariseu fanático estava a planear fazer. Ele não conseguia imaginar que Deus lhe tivesse dado a volta.

Portanto, a História da Salvação não é o encadeamento de actos imediatos da salvação de Deus, como por exemplo, no Mar Vermelho durante a fuga do Egipto. Deus é um professor em delegação. Ele não nos proíbe, a nós humanos, de irmos à tribuna da História, no decurso da qual Ele mostra o quão grande Ele é. Não, Ele atrai-nos para a arena, onde devemos construir o Seu Reino colaborando na Sua missão contra a injustiça e a violência estrutural – por vezes abertamente, por vezes como “agentes”.

A religiosa cristã e médica Ruth Pfau construiu uma rede sanitária para derrotar a lepra, mesmo contra toda a desconfiança e suspeita, no país maioritariamente muçulmano do Paquistão. Até os cépticos tiveram de perceber que, ela se preocupava com as pessoas e não com a influência cristã. No final da sua vida foi condecorada com a mais alta Ordem paquistanesa e recebeu um funeral de Estado.

Para os cristãos a lealdade não é suficiente

Para os agentes, a lealdade não é suficiente. Para os cristãos, a lealdade a Deus não é suficiente.

Claro que, também há casos de ignorância e fuga do mundo. Nalguns casos poderia ter sido amadurecido e querido por Deus. Por exemplo, Nicolas de Flue tornou-se eremita, deixando a sua família e os seus compromissos políticos, mas Deus Providente já sabia, que alguns anos mais tarde, iria precisar de uma autoridade moral que, pudesse mediar entre os Cantões inimigos, a fim de evitar uma guerra civil. Esta autoridade moral iria ser desenvolvida durante os seus anos como eremita, quando foi conselheiro e apoio para muitos. A 22 de Dezembro de 1481, os Cantões em conflito pediram a ajuda do Irmão Nicolas nas negociações de paz. A paz foi assegurada.

E Kentenich muda um estilo

No seu tempo de formação como religioso e sacerdote, o Pe. Kentenich viveu um estilo muito racionalista e voluntarista; todo o mundo emocional era um terreno baldio, a gestão das vivências, um falso alarme. Era mais domar do que educar. Ele sofreu muito sob esta formação.

Quando mais tarde, assumiu a responsabilidade de formador dos futuros candidatos à Sociedade Palotina, colocaria outros acentos. Contra a resistência e desconfiança dos seus irmãos de comunidade, ele permitiu aos seus alunos espaço livre, criou as condições para belas vivências e desenvolveu a troca de experiências entre os rapazes. Tinham de ser educados na linguagem do coração.

Enquanto os rapazes estavam entusiasmados com o estilo invulgar de Kentenich, a desconfiança por parte de alguns confrades permaneceu. O conflito intensificou-se quando o Bispo de Trier solicitou uma Visitação papal. O Visitador papal era, de facto, um teólogo sólido, mas não tinha qualquer ideia sobre psicologia. Desde as críticas de Siegmund Freud à religião em 1927, “O Futuro de uma Ilusão”, em Roma, a psicologia, foi considerada perigosa: “Kentenich traz o cavalo de Tróia para a Igreja com a sua psicologia e vai destruí-lo a partir de dentro.

Os reformadores nunca tiveram caminho fácil na Igreja. Apenas o Concílio Vaticano II, que teve lugar de 1958 a 1965, provocou uma mudança de mentalidade na Igreja, de modo que, muitos líderes da Igreja já não viam em Kentenich um perigo, mas uma oportunidade. Conseguiu regressar a Schoenstatt a partir do seu exílio em 1965.

Contudo, nós como Movimento de Schoenstatt, ainda estamos no início da realização da visão de Kentenich de uma Igreja renovada. Mas, a nossa própria experiência de que a alegria da fé e uma atitude moderna e consciente da liberdade em relação à vida não é uma quimera, dá-nos segurança para o futuro.

A letra da canção de Frank Sinatra “I did it my way” (Fi-lo à minha maneira) também pode ser colocada na boca de José Kentenich. Completamente leal a Deus, completamente ele próprio, competente em “assuntos mundanos”. Foi um agente ideal de Deus e convida-nos e encoraja-nos a que o sejamos hoje.

Nascido em Gymnich, 16/11/1985

Original: Espanhol  (17/11/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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