mujer

Colocado em 2020-11-15 In Artigos de Opinião, José Kentenich

A imagem da mulher

Por María Rosario Zamora, Chile •

Quando novamente leio sobre acusações de maus-tratos contra mulheres religiosas, surge em mim o conflito sobre o modelo de mulher sob o qual foram criadas nossas instituições, em contraposição ao modelo igualitário que hoje se almeja construir. Estas formas de maus-tratos, que hoje as mulheres denunciam no mundo todo, são resultado de uma imagem que se tem da mulher, uma imagem que não é estranha à Igreja Católica. Graças aos movimentos feministas, hoje podemos questioná-la e refletir sobre os fatos do passado e a atualidade. — 

A mulher no transcurso do tempo

“Retrocedamos na história da humanidade buscando a silhueta da mulher, nas diferentes idades da Terra. Nós a encontraremos mais humilhada e mais insignificante quanto mais nos adentremos na antiguidade. Seu engrandecimento vai no mesmo sentido da civilização; enquanto a luz do progresso se faz mais poderosa sobre nosso globo terrestre, ela, dominada, vai erguendo-se mais e mais. 

E, na medida em que a luz  chega às inteligências, sua missão e valor são entendidos e hoje já não é mais a escrava de ontem, mas sim a companheira igualitária. Por sua humilhação primitiva, ela já conquistou o suficiente, mas ainda tem muito a explorar para entoar um canto de vitória”. Gabriela Mistral, 1906, La voz de Elqui.

Paradoxalmente, o modelo de mulher que queremos mudar nos provocou o sentimento de sentirmo-nos discriminadas como um grupo minoritário, apesar de que, na verdade, sejamos metade da humanidade. É neste contexto no qual entendo a palavra “patriarcado” que é gritada em todos os cantos do planeta para conseguirmos que seja eliminado em todas as suas expressões de nossa sociedade.

Devemos refletir com urgência se, por acaso, os cimentos de nossas instituições estão equivocados, devido à imagem errada da mulher sob a qual foram fundados. Isto nos leva a analisar o tratamento das mulheres ao longo dos séculos na Igreja. Infelizmente, comprovamos através dos fatos que fomos relegadas a uma segunda categoria. Na antiguidade, as mulheres eram dadas como dízimos à Igreja por sua própria família (Santa Hildegard von Bingen, 1098-1179), casadas à força e subordinadas ao homem, e finalmente consideradas úteis sobretudo – ou apenas – para a procriação e o trabalho doméstico.

Já diz Santa Teresa de Ávila:

“Não basta, Senhor, que o mundo nos tenha encurraladas… que não façamos nada que valha a pena para Ti em público, nem ousemos falar algumas verdades que gritamos em segredo, mas Tu não ouvirias um pedido tão justo da nossa parte. Não creio, Senhor, de tua bondade e justiça, que sejas um juiz justo e não como os juízes do mundo, que – como são filhos de Adão e, em suma, todos homens – não há virtude de uma mulher que eles não tenham como suspeita”. (Caminho de Perfeição, cap. 3).

A desconfiança em relação à Eva

Esta desconfiança e suspeita sempre responde ao medo da riqueza da mulher, de sua capacidade de pensar e refletir, que muitas vezes é oposta à dos homens e também de sua sexualidade, pois a maioria das formas de dominação sobre a mulher se manifesta em ataques contra ela nesta área específica (abuso sexual, estupro, etc.), e se não, pelo menos para escondê-la, pois é considerada má ou perversa, o que é demonstrado pelas roupas ou pelo lugar que a mulher ocupa diante do sagrado. Isto põe em evidência uma experiência primitiva da sacralidade relacionada à energia sexual; coisas ou pessoas com tal energia devem ser colocadas em seu lugar, controladas, limitadas. A explicação deste medo estaria na percepção da mulher como a que tem o poder de dar vida (María Teresa Porcile Santiso, La mujer, espacio de Salvación. Misión de la mujer en la Iglesia, una perspectiva antropológica, 1991).

Este pensamento está relacionado com a imagem de Eva, a primeira mulher na Bíblia. Em uma das acusações que conhecemos hoje graças às investigações de Alexandra von Teuffenbach, a irmã Mariosa aponta: “Quando percebeu como era difícil para mim [cumprir o que me pedia] e enquanto eu ainda estava debaixo da mesa, destruiu-me moralmente: insultou-me dizendo o quão suja e depravada eu era, que eu merecia ser espancada, que era uma Eva horrível, que deveria me trancar e muitas outras coisas que agora, trinta anos depois, não me lembro exatamente” [1].

Desprezando profundamente esta atitude que desumaniza e provoca raiva, surge-me novamente uma pergunta: Por que a primeira Eva está relacionada a características negativas? Por que ela não é um modelo de mulher? Lembro-me de uma anedota da juventude, quando fomos com outras jovens a um acampamento do movimento e numa atividade foram recortadas imagens de mulheres de algumas revistas (todas modelos ou atrizes) e tínhamos que jogá-las no fogo com o slogan: “Matem sua Eva!”.

Com estas palavras negativas “você é uma Eva” queria simbolizar uma contradição com a mulher ideal, e dar a entender de que suas características só tendem ao pecado, reduzindo assim a mulher “comum” a um ser mau e desprezível.

Acredito que devemos repensar essa ideia, valorizando aquela suposta primeira mulher que viveu plenamente as alegrias e dificuldades da vida, que cometeu erros e sofreu, mas que enfrentou a tribulação e teve que viver plenamente na terra, com tudo o que isso significa. Reconhecer esta mulher diminui nossas expectativas de perfeição e nos confronta com nossa realidade que se move entre o sucesso e o fracasso.

Admiro estas mulheres reais, estas mulheres que, apesar de todos os preconceitos e dores, e tendo sofrido uma experiência de maus-tratos e abusos desprezíveis, conseguiram ser fiéis à sua consciência e vocação, apontando claramente o erro daquele que se fazia chamar “Pai”. Valorizo então essa galhardia e espírito de luta daquelas que, sendo fiéis às suas convicções, fundaram uma comunidade religiosa e nela serviram até o final de seus dias.

Que surja uma nova imagem da mulher

Volto a perguntar-me: Sobre qual modelo de mulher se baseia este movimento? É triste rever os casos que temos conhecido ultimamente. É por isso que não podemos permanecer no pensamento do século XX. Pelo contrário, devemos seguir em frente. É preciso nos perguntar como vamos tratar as mulheres diante do que sabemos hoje, pois quando há uma submissão habitualmente aceita como “destino da mulher” ou como “vontade de Deus”, isto acaba se manifestando na aceitação do abuso sexual e de poder, e na obediência cega.

Com este olhar que naturalizamos ao longo de nossas vidas, nos julgamos inferiores ao homem, sem reconhecer nossas possibilidades ou valores e, portanto, sem assumir nossa responsabilidade na construção de nossa sociedade e de nossa Igreja. Adotamos assim, inconscientemente, atitudes infantis como “pedir permissão”; sofremos o medo de sermos abandonadas, espancadas, de ficarmos desprotegidas, sem apoio. Sentimo-nos inferiores, mais fracas, e aceitamos, com fatalismo, castigos físicos e psicológicos.

Hoje as mulheres estão levantando sua voz e pensamento no mundo, recusando toda forma de abuso. Como mulheres cristãs, não podemos permanecer em silêncio diante desta realidade. Temos que pensar e rever nosso interior e nos perguntar se podemos apresentar novas formas de ser mulher ou se vamos simplesmente permanecer na crítica.

Creio que, neste momento, devemos buscar um modelo mariano atual, passando do modelo de Maria do silêncio para o de Maria da palavra, pois o modelo mariano pode ser um veículo tanto para uma visão subordinada da mulher quanto para uma visão liberada e libertadora, de acordo com a canonização de certas atitudes femininas. (Virginia Azcuy, Reencontrar a María como modelo. Interpelación feminista a la mariología actual, pág. 166).

Vamos olhar para o evangelho. Nas Bodas de Caná (Jo 2,1-12) é Maria quem apresenta o Salvador, é ela quem vê a necessidade e a angústia que deve ter sido sentida por aqueles que organizaram a festa e é capaz de empatizar com as dificuldades da vida cotidiana. Ela diz ao seu filho “eles não têm vinho” e, apesar de sua recusa inicial, ela chama os criados com fé e lhe dá a ordem “Façam o que ele lhes disser”, acontecendo finalmente o milagre que inicia a vida pública de Jesus. Este é o modelo de mulher que nos identifica e nos encoraja a seguir em frente.

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María Rosario Zamora, chilena, advogada, professora na Faculdade de Direito, membro da União de Famílias de Schoenstatt.

 

 

 

[1] http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2020/11/02/%e2%80%9cme-decia-que-apoyara-mi-rostro-en-su-regazo%e2%80%9d-el-fundador-de-schonstatt-educaba-asi-a-sus-religiosas/ (em espanhol)

 

Original: Espanhol (14/11/2020). Tradução: Luciana Rosas, Curitiba, Brasil

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2 Responses

  1. Querida María Rosario,
    Gostaria de te agradecer muitíssimo por este texto, por esta chamada para a reflexão. Absolutamente necessário.
    Obrigada pelo convite para a reflexão sobre o ser mulher. Sem novelas e adornos. Nós, mulheres, que buscamos reconhecimento e igualdade de direito neste mundo te agradecemos de todo coração.
    Obrigada pela tomada de posição. Obrigada por transmitir em palavras o que eu mesma – muitas vezes – senti e que talvez não soube expressar.
    Obrigada por colocar a primeira mulher – a do instinto, da curiosidade (como diz uma amiga) – no lugar onde deve estar.
    Obrigada pelo privilégio de poder ter traduzido o teu texto. A oportunidade de ter contato com formas de pensar assim me dão esperança e força de continuar lutando por um Schoenstatt real.
    Um abraço com muito carinho do Brasil.

  2. A ONU já promoveu quatro conferências mundiais sobre a situação da mulher e sobre os seus direitos inalienáveis. A última em Pequim 1995 cujas conclusões podem ser consultadas neste link https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/HTML/?uri=LEGISSUM:c11903&from=ES
    Já desenham toda uma declaração de intenções que, infelizmente, em grande parte não passaram do papel. Pensemos que o planeta não são só os continentes: europeu e americano. Embora também aí haja ainda hoje tremendas desigualdades. O modelo Maria foi desvirtuado . Nessa conferência as mulheres Protestantes põem na boca de Maria as seguintes palavras: Vejam no que me transformaram. Esta imagem de Maria passada pela religião católica foi responsável pela minha demora em me vincular a Ela.
    O papa João Paulo II em 29 de Junho de 95 escreve uma carta às mulheres do mundo inteiro onde explana todos os males que têm sido infligidos às mulheres ao longo da história.
    A minha pergunta é, se a nível das altas instâncias mundiais tudo isto é reconhecido onde estamos a errar para que a evolução dos direitos das mulheres ainda esteja, na sua maioria, só no papel? Será que, a nós mulheres também nos cabe alguma culpa?
    Ou como diz o papa:”Somos herdeiros de uma história com imensos condicionalismos que, em todos os tempos e latitudes tornaram difícil o caminho da mulher…” Estes conceitos e práticas estão tão enraízados na cultura que, para serem ultrapassados , não em séculos, terão que ser tomadas medidas a todos os níveis. A maior parte deste trabalho cabe-nos a nós mulheres.
    Mas, nunca deixemos de ver os homens como seres complementares sem o contributo dos quais será difícil criar uma sociedade justa e igualitária.

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