Colocado em 2020-11-15 In José Kentenich

A historiadora pode fazê-lo!? Observações sobre a nova publicação de A. Von Teuffenbach

Wilfried Röhrig, Alemanha •

Em 26/10/2020, a documentação de arquivo “O Pai pode fazê-lo” de A. von Teuffenbach sobre “A Irmã M. Georgina Wagner e outras Irmãs de Maria abusadas” apareceu em Bautz Verlag, Nordhausen. Estas “observações” não se referem a diversas apresentações deste trabalho, entre outras em katholisch.de, e a algumas respostas, mas a questões de equilíbrio e seriedade histórica desta documentação.—

+Em primeiro lugar, é preciso assinalar, como nota positiva, que a autenticidade dos documentos citados, principalmente dos Arquivos Provinciais dos Pallotinos de Limburgo, é inquestionável. Estes podem ser aí consultados.

 

+Outro aspecto positivo é a tentativa de dar voz às vítimas de alegados abusos, especialmente à Ir. M. Georgina Wagner. O que é que elas experimentaram? Como é que foi? Que história é que viveram?

 

+Outro aspecto positivo é o processo a que obriga a publicação: uma renovação ainda mais profunda da própria história dentro do Movimento de Schoenstatt mundial, especialmente dos possíveis “lados obscuros” em relação ao fundador, Padre José Kentenich, que têm sido negligenciados até agora.

Contexto: Classificação das fontes nas circunstâncias temporais

A própria autora se refere, na sua introdução (p.17), ao historiador da igreja Hubert Jedin, que nomeia três passos importantes na obra histórica: a revisão das fontes, a classificação destas fontes nas circunstâncias da época, e a interpretação das fontes.

Quando ela própria escreve que pretende fornecer apenas documentação de arquivo e, se limita a algumas referências ao contexto histórico de documentos individuais, então aqui reside o erro fundamental da sua publicação: os contextos devem ser esclarecidos o mais completamente possível e, não apenas em fragmentos. As suas interpretações e avaliações, coisa que faz, constantemente, não seriam tão unilaterais e tendenciosas.

Exemplo 1: Não há dúvida de que, em princípio, em todos os casos de abuso de qualquer tipo, existe o risco de as vítimas serem tratadas como “patológicas”. Isto não pode ser excluído no caso da Irmã M. Georgina e de outras Irmãs de Maria mencionadas no livro. Mas concluir, pelo contrário, que nenhuma das Irmãs, mesmo aquelas com pensamentos suicidas, poderiam ter tido “disposições psicológicas questionáveis” é inapropriado. Especialmente, no que diz respeito à afectada Irmã M. Georgina , isto não é uma questão menor. Deveria o Padre Kentenich ter, simplesmente, ignorado estas “dificuldades” que a Irmã M.Georgina tinha em aceitar o seu próprio corpo (feminino)? Nessa altura, nem sequer se pensava que a ajuda psicoterapêutica pudesse ser dada a partir da esfera secular (o Santo Ofício acusou o Padre Kentenich durante a Visitação Apostólica de uma suposta proximidade a Sigmund Freud e ele rejeitou-a liminarmente)!

Para além do facto de, a autora esconder este lado “problemático” da Irmã M. Georgina, entre outras coisas, seria importante perguntar, no sentido de iluminar o contexto histórico, quais são as “medidas de ajuda” contidas nos manuais pastorais da época a este respeito. Havia um tratamento? Infelizmente, não há qualquer menção a isto na publicação. Também se deve considerar a avaliação da sexualidade nessa altura, especialmente pela Igreja Católica (como é evidente, por exemplo, na Encíclica “Casti connubii” do Papa Pio XI de 1930).

Exemplo 2: A autora cita exemplos de “posturas” e “rituais” que considera inadequados: o Exame Filial, a postura de Madalena, a postura do Monte das Oliveiras. Do ponto de vista actual, a “adequação” de tais actos está aberta à discussão, especialmente porque trazem certamente consigo o potencial de abuso espiritual.

Mas, para uma melhor compreensão (não como desculpa!), seria necessário dar, pelo menos, uma ideia aproximada de como eram as práticas penitenciais nas ordens religiosas e comunidades monásticas da época. O leitor teria, então, a oportunidade de classificar melhor as formas praticadas nas Irmãs de Maria a este respeito.

Exemplo 3: As críticas a Kentenich mencionadas na colecção do arquivo (e também os críticos de Kentenich), “marginalizados” (pelo Padre Kentenich e pela comunidade das Irmãs), “traidores” do ponto de vista deles, “corajosos” do ponto de vista da autora, acusam o Padre Kentenich, visto da perspectiva de hoje, de um comportamento dominante, ditatorial e autocrático.

Para compreender, classificar e avaliar estes processos, na minha opinião, é indispensável uma consideração sócio-psicológica:

  • O “culto à pessoa”: Como pode ser descrito? Que formas devem ser distinguidas? Como surge? O que é apropriado, tolerável, onde estão os limites do “saudável”? Este fenómeno não existe apenas na Igreja (pense-se, por exemplo, na veneração ao Papa João Paulo II já em vida), mas sobretudo na esfera mundana, por exemplo, na música pop e no desporto.
  • Depois, o fenómeno da “pressão dos pares”, a questão sócio-psicológica da conformidade e não-conformidade, a questão da identidade de um grupo social também teria de ser discutida, se não exaustivamente, pelo menos ser insinuada. Então os acontecimentos de exclusão e “possível vingança da minoria” dentro das Irmãs de Maria (e também dentro da comunidade pallotina) poderiam ser melhor classificados (o que não significa: aprovados ou desculpados).

Querer criar uma consternação (unilateral) entre os leitores (o que em si não é condenável) é uma coisa, mas fazer um trabalho histórico completo e sério apenas até certo ponto, é outra. Com um tema tão explosivo, é, na minha opinião, repreensível negligenciar o rigor em relação aos contextos e dar prioridade ao desejo de atenção.

Aguardo, com expectativa, a segunda parte da documentação do arquivo e, especialmente, a forma como a autora apresentará os “métodos de trabalho” do Santo Ofício em geral e, em particular, do Visitador Sebastian Tromp SJ. Em qualquer caso, eu (e todos os interessados) desejo rigor e objectividade crítica. Que este desejo é justificado e está demonstrado num artigo do historiador Michael Hesemann em kath.net a partir de 17/9/2020.

Original: Espanhol (14/11/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa

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