Colocado em 9. Dezembro 2018 In José Kentenich

Três atitudes filiais para com o Padre Kentenich

Ignacio Serrano del Pozo vía http://www.schvivo.com/ •

Todos os que fazemos parte da Família de Schoenstatt, fomos testemunhas da irrupção, em tempos de celebração, de Lemas que funcionam como roteiro. Mal tinha partido o Fundador para a Casa do Pai em 1968, o Movimento ouviu do Bispo Tenhumberg o convite a tornar-se na “Carta de apresentação do Pai”, fazendo, deste modo, alusão à passagem de S. Paulo que insta os Coríntios a transformarem-se numa Carta de Cristo, “escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus Vivo… ” (2Cor 3,3 a). No ano de 1985, para o centenário do nascimento do Padre Kentenich, a Família disse: “A tua Aliança, nossa vida”. E, S. João Paulo II desafiou-nos a “sermos nós a canonizar o nosso Fundador”. Em 2014, no quadro do Jubileu Fundacional, ouviu-se “A tua Aliança, nossa missão” e, nesse mesmo ano o Papa Francisco advertiu-nos que “o carisma não é uma peça de museu mas, é preciso mantê-lo vivo e saber transmiti-lo, de tal modo que, continue a inspirar e a sustentar as vossas, vida e missão”.—

 

Contudo, 50 anos depois, em tempo de balanço, muitos de nós temos a sensação que a missão a que nos comprometemos não se manifestou com suficiente força e extensão. È certo que foram concebidas iniciativas apostólicas fortes, durante estes anos. Pensemos, por exemplo, nas escolas kentenichianas e nos centros de estudos pedagógicos no âmbito da formação, ou nas corporações de beneficência como Maria Ajuda no Chile, ou os centros de reabilitação presidiária no Paraguai. É verdade, também, que uma rede de mais de 200 Santuários marianos instalados como polos de graça ao longo do mundo e que a Campanha de massas da Mãe Peregrina em certos países, são um imenso presente para a Igreja que, qualquer espiritualidade gostaria de chamar seu. E, por último, é impossível não nos alegrarmos com a contribuição espiritual de dezenas de filhos do Padre Kentenich que, do Céu mostram a existência de um Schoenstatt triunfante: José Engling, Karl Leisner, Ir. Emilie Engel, Mario Hiriart, Hernán Alessandri…

Ainda não soubemos desenvolver uma filialidade adulta

A ausência de grandes correntes de vida post mortem fundatoris, um certo ensimesmamento da nossa Família de Schoenstatt que vive das “glórias do passado” celebrando aniversários atrás de aniversários e, mais importante ainda, a mesma incapacidade de nós, os schoenstatteanos, em moldarmos a ordem social ou em contribuirmos para a configuração da cultura a partir do nosso carisma, são esse aguilhão que nos leva a perguntarmo-nos porque não pudemos ser mais ousados e criativos nas nossas propostas evangelizadoras.
Contudo e, não obstante, tudo isto e, muito mais, a sensação de insatisfação (voz da alma) pelo realizado continuam cravados como uma espinha. A ausência de grandes correntes de vida post mortem fundatoris, um certo ensimesmamento da nossa Família de Schoenstatt que vive das “glórias do passado” celebrando aniversários atrás de aniversários e, mais importante ainda, a mesma incapacidade de nós, os schoenstatteanos, em moldarmos a ordem social ou em contribuirmos para a configuração da cultura a partir do nosso carisma, são esse aguilhão que nos leva a perguntarmo-nos porque não pudemos ser mais ousados e criativos nas nossas propostas evangelizadoras.

A resposta rápida a esta pergunta poderia ser que faltou profundidade na “Aliança de Amor” nas suas múltiplas dimensões: intensidade em relação à “Carta-branca” e à Inscriptio: em amplitude, em relação à Santíssima Trindade. Contudo gostaria de tentar outra resposta. Parece-me que a chave para explicar uma resultante criadora de limitado alcance ou de escasso poder explosivo, deve-se – em grande parte – a que 50 anos depois da partida do Pai-Fundador nós ainda não soubemos desenvolver uma filialidade adulta, capaz de assumir o seu legado e de o multiplicar. O que o Papa Francisco nos disse a nós, católicos do Chile – “tirar a carta de adulto como cristãos, espiritualmente maiores de idade” – bem poderia ser um conselho dirigido aos schoenstatteanos. De facto, mais do que uma filialidade adulta, o que primou foi, antes, uma filialidade infantil ou uma filialidade adolescente. O que pode querer dizer isto? Ainda com o risco de abusar da caricatura para ilustrar o cerne da questão, poder-se-ia fazer uma breve descrição destas atitudes:

A filialidade infantil dos que enterram o talento

È certo que por detrás desta atitude infantil, late uma boa dose de amor, mas também, esta mesma atitude pode terminar fazendo de Kentenich um santo de devocionário ou uma peça de museu intocável.[/su_pullquote]O que é uma filialidade infantil? Uma filialidade infantil caracteriza-se por um certo deslumbramento ou encandeamento face à imponente figura do Pai-Fundador. Como uma criança que, ingenuamente, vê o seu pai como um super-herói que tem todas as respostas e que tudo pode, parece que é assim que alguns contemplam o Padre Kentenich. Sob esta perspectiva, pareceria não haver melhor teste de schoenstatteanidade do que medir o nosso grau de admiração e carinho pelo Fundador. O problema é que há muito de romantismo neste olhar, por vezes, de uma unilateralidade fantasista que só faz sobressair a altura de vida de quem sempre se manteve fiel aos planos de Deus, até nos piores momentos do Campo de Concentração ou do exílio; às vezes ingenuidade e até ignorância, pois quando se desconhecem outros diagnósticos e outras propostas, Kentenich aparece com uma originalidade e novidade desmerecidas. È certo que, por detrás desta atitude infantil, late uma boa dose de amor, mas também, esta mesma atitude pode terminar fazendo de Kentenich um santo de devocionário ou uma peça de museu intocável. E neste cenário, pareceria que a nossa melhor e maior contribuição para a missão consistiria na repetição das mesmas categorias e atitudes do Pai, mas sem contexto nem crítica.

Por detrás desta atitude infantil pode esconder-se, muitas vezes, a atitude do servo assustado da parábola dos talentos que, preferiu enterrar a herança para conservar todo o seu valor e evitar qualquer perda.

A filialidade adolescente dos que vendem o talento original

Estas pessoas costumam sentir que a Schoenstatt lhe faltou a radicalidade de outros carismas e Movimentos e que haveria que fazer as coisas de maneira diferente, pois muitas coisas que, escreveu ou disse o Padre Kentenich, perderam a vigência por efeito dos anos.
A segunda atitude que pode explicar a pobreza da resultante, está dada pela frequência com que nos vinculamos ao Pai-Fundador a partir de uma filialidade adolescente. Esta caracteriza-se por uma certa insatisfação e distância face à figura de Kentenich. Esta atitude podemo-la observar naqueles que, depois de um tempo no Movimento, de terem participado com entusiasmo na vida de alguma comunidade e de terem lido algumas coisas da literatura schoenstatteana ou de terem feito oficinas ad hoc, começam a sentir-se um bocado desconfortáveis ou francamente defraudados. Estas pessoas costumam sentir que a Schoenstatt lhe faltou a radicalidade de outros carismas e Movimentos e que haveria que fazer as coisas de maneira diferente, pois muitas coisas que, escreveu ou disse o Padre Kentenich, perderam a vigência por efeito dos anos.

Nesta situação, a falta de sentido é substituída por um activismo apostólico frenético, e a ausência de conteúdo, por frases incendiárias de combustão instantânea. Até, em não poucos casos, estes “schoenstatteanos adolescentes” tentam remediar a situação assumindo outras experiências espirituais ou pastorais mais eficientes e recorrendo a diagnósticos de outros profetas mais certeiros. Para continuar com a imagem bíblica utilizada, esta atitude duplica os talentos mas, em troca, vendeu a moeda de ouro original. Pois se a atitude infantil produzia um certo congelamento, esta, não poucas vezes, levou à dispersão e à superficialidade.

A filialidade madura dos que multiplicam os talentos

Uma atitude madura implica, em primeiro lugar, pôr-se a si próprio, concretamente, a questão: que parte da herança estou disposto a assumir, que carga tributária estou disposto a pagar e o que não vou conservar ou do que me vou desfazer, com toda a dor que isso implique.
Chegado a este ponto, permito-me propôr uma terceira atitude que, precisamente, poderia contribuir para “multiplicar os talentos recebidos”. Trata-se de viver, adultamente, a nossa filialidade para com o Pai-Fundador. As duas primeiras atitudes são naturais e compreensíveis para a primeira etapa fundacional mas, uma filialidade madura espera surgir neste novo tempo. Esta atitude implicaria, por sua vez, três características que resumirei da seguinte maneira: assumir, assumir custos e riscos e assumir estes custos e estes riscos com outros.

Com efeito, a primeira tarefa do filho que chegou à idade adulta é a de assumir: assumir que o pai está atrás e nós à frente. Isto significa que, agora nos corresponde a nós encarregarmo-nos das limitações de quem nos deu a vida, como também da administração das suas tarefas e dos seus bens. No caso de Kentenich trata-se de assumir a sua vida e a sua obra com todas as suas luzes e sombras; muitas acções que levou a cabo são questionáveis e muitas coisas que expressou são pobres, mas nada disso, diminui o presente da sua figura e da sua experiência paternal como caminho, expressão e seguro para Deus. Esta é a maior riqueza e a essência de um carisma que devemos fazer nosso.

Nesta mesma linha de análise, deve reconhecer-se que esta assunção hereditária não está livre de custos e riscos. Este realismo faz parte da maturidade. Em termos schoenstatteanos, os custos sempre parecem ser medidos em Capital de Graças. Os riscos são saltos na Fé Prática na Divina Providência. Uma atitude madura implica, em primeiro lugar, pôr-se a si próprio, concretamente, a questão: que parte da herança estou disposto a assumir, que carga tributária estou disposto a pagar e o que não vou conservar ou do que me vou desfazer, com toda a dor que isso implique. Aqui não tem lugar um “schoenstatteanismo” de expressões afectivas ou de discursos teóricos mas, uma adesão à vontade de Deus. O Pai poderá pedir-nos que cuidemos da nossa esposa doente para manifestarmos o amor humano trespassado pela cruz ou fundar Schoenstatt no Sudoeste Asiático para se iniciar uma nova corrente de circulação. Em ambas as situações, como em todas, uma atitude adulta implica perguntar-se como me vou preparar para assumir estas tarefas que possibilitarão prolongar a herança paterna.

Uma última característica que proponho para ir configurando uma atitude madura como filho, é a de assumir os custos e os riscos com outros, dentro da Família. Não somos os únicos herdeiros. É certo que, isto pode trazer conflitos ou até que, alguns irmãos queiram desentender-se da sua responsabilidade; contudo, filialidade adulta é também uma fraternidade adulta. Compreender que a partilha patrimonial não é só divisão, também é diversificação do recebido com vista a uma maior riqueza e dinamismo. Neste ponto, também cabe uma boa quota de generosidade, pois muitas vezes as melhores iniciativas não serão as nossas mas, também não o é toda a responsabilidade.

Como vamos responder face ao recebido?

Em 15 de Setembro de 1968, muitos ouviram “O Pai morreu”. A pergunta que surge 50 anos depois é sobre o significado prático desta expressão em nós, os seus legítimos herdeiros. Como vamos responder face ao recebido? Poder-se-á dizer de nós, que temos sido filhos fieis para alegria do nosso Pai e a fecunda transmissão do legado?

 Publicado com autorização do autor.

Original: espanhol (1/12/2018). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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