En torno a la mesa

Posted On 2023-10-17 In Igreja sinodal

O Sínodo das mesas redondas

SÍNODO SOBRE SINODALIDADE, Maria Fischer •

Nesta assembleia, a sala sinodal tem uma disposição diferente da dos sínodos anteriores. O formato de anfiteatro utilizado nas assembleias anteriores foi abandonado em favor de mesas redondas, onde 12 pessoas em cada mesa se sentam lado a lado, cara a cara, olhos nos olhos, e são compostas por bispos, padres, religiosos, religiosas e leigos. —

Estão unidos pelas línguas comuns em que podem comunicar, para poderem dialogar e discernir em conjunto. O Relevo de Cristo Ressuscitado de Nervi e o ícone da Salus Populi Romani foram utilizados para decorar a “nova” Sala do Sínodo, onde se realizam os Grupos de Trabalho e as Congregações Gerais.

Na cerimónia de abertura da Assembleia Sinodal, na Sala Paulo VI, a 4 de Outubro de 2023, o Papa Francisco deu as boas-vindas aos mais de 400 participantes, peritos e facilitadores e recordou-lhes que o Sínodo é uma expressão da Igreja. De acordo com o Santo Padre, caminhar juntos é a natureza e a missão da Igreja. Por isso, um sínodo é uma oportunidade para a Igreja mostrar ao mundo a sua relação com o Espírito Santo, uma oportunidade para se tornar numa Igreja que escuta, numa Igreja de proximidade e compaixão. É também um momento para nós, como Povo de Deus, não deixando ninguém para trás, deixarmos os nossos problemas virem à luz do dia em diálogo, sem medo, sem tentarmos esconder-nos ou justificar-nos.

En torno a la mesa

Ele parece gostar…

À volta da mesa… A visão da Igreja do Padre Kentenich tornada realidade

Ver estas fotos das mesas redondas povoadas por todos os tipos de representantes do Santo Povo de Deus e não se entusiasmar é impossível para todos aqueles que ardem pela Igreja imaginada e desejada pelo Concílio Vaticano II; e igualmente impossível para todos os schoenstatteanos que ardem pela imagem da Igreja concebida pelo Pe. Kentenich nas Conferências de Roma em 1965 (embora pareça que estes últimos somos uma espécie em vias de extinção, dada a resposta nula ao convite para escrever uma série de colunas sobre a Igreja sinodal e a imagem do Pe. Kentenich da Igreja pós-conciliar).

Uma caraterística desta Igreja pós-conciliar, tal como a nossa e com a qual o Pe. Kentenich se compromete, é a de “todos sentados à volta da mesa partilharem as suas experiências e vivências pessoais para se inspirarem e motivarem mutuamente para o seu compromisso evangelizador no mundo real”. Esta não é uma citação literal, mas um resumo, fruto de uma intensa investigação científica, não das conferências de Roma, mas do modelo de comunicação que, segundo o Professor Westerbarkey da Universidade de Münster, antecipou esse modelo de comunicação que a Igreja pós-conciliar expressa e realiza.

A expressão “sentar-se à volta da mesa” é, de facto, uma expressão literal do Pe. Kentenich de 1938. Nesse ano, ele assumiu a redação de uma revista para as Irmãs de Maria no estrangeiro. Elas tinham-se queixado do que se publicava nessa revista, com contribuições escritas da longínqua Alemanha, de forma teórica, sobre como viviam e deviam viver, sem sentir, como diz o Pe. Kentenich nesse discurso, o calor, o suor, a dificuldade da linguagem… Ele também não o conhecia. Mas pediu-lhes que contassem as suas histórias sem filtro. E depois escreveu as edições da revista a partir dessas histórias reais. Parece uma revista da MTA? Sim, parece.

En torno a la mesa

O Sínodo à volta da mesa

Agora vemos os 400 participantes do Sínodo sobre a sinodalidade da Igreja à volta de mesas. Em cada mesa, 12 pessoas, com e sem barrete vermelho ou roxo (= solidéu, piole, barrete com crista) sentam-se e escutam-se mutuamente. Mulheres, homens, padres, leigos, bispos, cardeais, religiosos e religiosas, e o Papa no meio. Não falam primeiro de divorciados recasados, de abusos ou da ordenação de mulheres – temas quentes, sem dúvida – mas da maior fratura na Igreja: a que existe entre ouvir e falar. É verdade que ainda faltam membros do Povo de Deus com as suas experiências únicas e histórias reais: donas de casa, médicos, mendigos, paramédicos, bombeiros, idosos, vítimas de abusos, políticos… Mas é um começo.

En torno a la mesa

Uma história “sinodal” real

Quando ainda estamos à espera de encontrar autores para colunas sobre os outros aspectos da Igreja pós-conciliar no âmbito do Sínodo, pedimos uma coluna de testemunhos.

A minha “mesa redonda” foi num lar de idosos, e éramos quatro mulheres, todas vinculadas a uma pessoa que ficou gravemente incapacitada desde que sofreu uma grave hemorragia cerebral há quatro anos. Como fazia anos há alguns dias, a jovem cabeleireira que a penteia uma vez por mês e que ela conheceu como educadora no lar de crianças onde viveu durante anos, preparou-lhe um bolo. Ficámos a conversar. Na verdade, nenhuma de nós tinha tempo. Mas ficámos. Esta jovem, com toda a naturalidade, entre o bolo e o café, falou dos seus três afilhados, de como cuida deles, e que criou uma caderneta de poupança para cada criança, com as suas gorgetas; que também cuida da sua tia-avó com demência, e que nunca deixará de a visitar e de pentear o cabelo da sua antiga educadora… Lutei contra as lágrimas. Foi um momento de tirar os sapatos, de descalçar os pés porque estávamos em “terra santa”… Deus estava presente.

Como está presente no murmúrio que enche a sala do Sínodo durante estas semanas. E também quando nos sentamos à mesa, contamos e escutamos.

En torno a la mesa

Original: castelhano (15/10/2023). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

Tags : , , , , , , , ,

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *