Fratelli tutti

Colocado em 2020-10-08 In Coluna - Ignacio Serrano del Pozo, Francisco - Mensagem

A cor da Fratelli Tutti

Ignacio Serrano del Pozo •

No dia 3 de outubro o Santo Padre assinou, sobre o túmulo de São Francisco, sua última encíclica Fratelli Tutti (Irmãos todos). Desde a Laudato Si’ (Louvado seja), a carta encíclica de 2015 sobre o cuidado da casa em comum, não tínhamos um documento de tamanha importância. Ambos os textos coincidem, além disso, em que é il poverello d’Assisi quem proporciona a inspiração inicial que dá o título ao documento. Isto não é senão confirmar o apreço que o atual pontífice tem por este santo do qual tomou, além disso, o nome. —

Nestas duas mensagens Jorge Bergoglio revela-se como uma espécie de “Papa bicho grilo” global: uma voz da consciência que nos coloca em alerta sobre os males da sociedade contemporânea. Agora bem, enquanto Laudato Si’ representa uma encíclica verde sobre o problema ecológico, Fratelli Tutti parecerá uma encíclica “vermelha” sobre a fraternidade universal.

Cultura do encontro ao invés de cultura dos muros

Sob a sombra dos nacionalismos xenofóbicos e o predomínio do economicismo individualista, Francisco quer mostrar que a humanidade começa a dar as costas à ideia de integração e encontro que nos anos anteriores inspirou o mundo. “Reaparece a tentação de fazer uma cultura dos muros, de erguer os muros, muros no coração, muros na terra, para impedir este encontro com outras culturas, com outras pessoas. […] No mundo atual, esmorecem os sentimentos de pertença à mesma humanidade; e o sonho de construirmos juntos a justiça e a paz parece uma utopia doutros tempos. Vemos como reina uma indiferença acomodada, fria e globalizada” (27, 30). Neste contexto, como sinaliza o Bispo de Roma, quando estava redigindo esta carta chegou a pandemia da Covid-19, a qual serviu para despertar  “a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos (32).

Sinalizada esta introdução, caberia perguntar-se se uma encíclica que se sustenta em uma ideia de justiça social, integração dos povos e contrária aos nacionalismos e à liberdade do mercado, poderia ser considerada como uma encíclica populista com tons de esquerda.

Antes de responder esta pergunta, pode ser ilustrativo apresentar alguns dados formais. Esta encíclica contém 288 notas de rodapé com referências. O interessante é que destas notas, quase a metade representam auto-citações a textos do próprio pontífice: exortações apostólicas, discursos, mensagens, homilias e entrevistas. Inclusive há referências chamativas como as alusões à vídeo conferência que o Santo Padre fez para a palestra TED de Vancouver no ano de 2017 e as frases extraídas do filme de Wim Wenders de 2018 chamado Papa Francisco: Um homem de palavra. É verdade que na Fratelli Tutti não faltam citações ao Concílio Vaticano II e às encíclicas sociais de João XXIII, Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. No entanto, parece que com esta carta Francisco pretendia consolidar toda uma linha de pensamento que foi insinuando em seus escritos anteriores. De que se trata esta reflexão?

O centro da Fratelli Tutti é um chamado a uma cultura do encontro e do diálogo que vai percorrendo diferentes âmbitos. Há reflexões sobre espaços pessoais, nas quais o Papa medita sobre a agressividade e o confinamento das redes sociais e dispositivos tecnológicos; mas também há discussões mais gerais na quais o sucessor de Pedro volta a relembrar os ensinamentos tradicionais da Igreja: a função social da propriedade como um direito prioritário, ou o perigo de uma espiral de violência destrutiva e de guerras que voltam a surgir. Para explicar esta atenção, tanto ao pequeno quanto ao macro, Francisco se utiliza mais a frente de uma analogia que nos parece de riqueza imensa: “Existe uma «arquitetura» da paz, na qual intervêm as várias instituições da sociedade, cada uma dentro de sua competência, mas há também um «artesanato» da paz que nos envolve a todos” (231).

“Um coração aberto ao mundo inteiro”

Dito isto, parece-me que os capítulos quatro e cinco são os mais polêmicos e nos quais não poucas pessoas notarão o selo político ideológico do pontífice. Nestes capítulos trata-se de aterrissar e colocar em prática os desafios dos capítulos anteriores, obrigando-nos a assumir – como a mesma carta diz – novas perspectivas e a desenvolver novas reações. O capítulo quatro chama-se “Um coração aberto ao mundo inteiro”. Nele são abordados os esforços que devem ser realizados frente ao fenômeno global da migração. Neste momento, Francisco faz um chamado a adotarmos o conceito de plena cidadania para com os migrantes e inclusive a exercer uma série de práticas, que vão desde aumentar e simplificar a concessão de vistos até oferecer um alojamento adequado e decente, passando por abrir corredores humanitários aos refugiados mais vulneráveis (130).

Por sua vez, no capítulo cinco, chamado “A política melhor”, aparece uma proposta de reabilitação do conceito de «povo» como uma forma de romper com o predomínio da tecnocracia e o submetimento da política à economia. Mas se o capítulo anterior poderia parecer controverso por suas medidas excessivamente concretas de política contingente, este também o será porque o Papa Bergoglio parece adotar uma defesa explícita do “governo do povo”. Existe uma citação que reflete o que estamos apontando: “É necessário pensar a participação social, política e econômica segundo modalidades tais «que incluam os movimentos populares e animem as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com aquela torrente de energia moral que nasce da integração dos excluídos na construção do destino comum» e, por sua vez, se incentive a que «estes movimentos, estas experiências de solidariedade que crescem de baixo, do subsolo do planeta, confluam, sejam mais coordenados, se encontrem» […] porque são «semeadores de mudanças, promotores de um processo para o qual convergem milhões de pequenas e grandes ações interligadas de modo criativo, como numa poesia». Neste sentido, são «poetas sociais» que à sua maneira trabalham, propõem, promovem e libertam” (169).

Uma oferta recíproca

Parece-me que para entender estes capítulos provocativos é conveniente aprofundar-se em algumas considerações importantes que podem ajudar a situar os julgamos prévios. A primeira é notar que para Francisco o processo migratório não pode se estruturar a partir de uma politica assistencialista de ajuda humanitária, na qual não se considerem as inquietudes cidadãs ou não se atenda ao bem-estar do país receptor. É verdade que trata-se de acolher, proteger, promover e integrar como o mesmo Papa diz quando usa estes quatro verbos, mas isso sempre se realiza a partir de um processo bidirecional, no qual se beneficia o imigrante e a sociedade que os acolhe. Fratelli Tutti utiliza sobre esse assunto a metáfora de uma “oferta recíproca” na qual “a chegada de pessoas diferentes, que provêm dum contexto vital e cultural distinto, transforma-se num dom, porque as histórias dos migrantes são histórias também de encontro entre pessoas e entre culturas: para as comunidades e as sociedades de chegada são uma oportunidade de enriquecimento e desenvolvimento humano integral para todos” (133). Em termos mais concretos, o Santo Padre recorda a contribuição da cultura latina aos Estados Unidos ou mesmo a contribuição da imigração italiana para a Argentina, da qual ele mesmo faz parte.

Sobre a ideia de povo, é importante perceber que Francisco não ignora o perigo de fazer dela uma categoria angelical ou mítica, como se estivesse isenta de males ou tudo o que fizesse fosse bom. Mas reconhece – e me parece que aqui ele tem razão – que esta noção é especialmente apta para reabilitar o valor da comunidade em seus laços sociais e identidade cultural, algo que é particularmente necessário diante do individualismo dos interesses pessoais. Além disso, diante de qualquer perigo de uma visão antagônica que concebe o povo como sujeito passível de injustiças, parece-nos muito interessante a ênfase que proporciona o pontífice romano na ideia de emancipar o povo através do trabalho. Isto aparece inclusive como o melhor serviço de caridade que um político pode fazer ao seu povo: “A grande questão é o trabalho. Ser verdadeiramente popular – porque promove o bem do povo – é garantir a todos a possibilidade de fazer germinar as sementes que Deus colocou em cada um, as suas capacidades, a sua iniciativa, as suas forças. Esta é a melhor ajuda para um pobre, o melhor caminho para uma existência digna. Por isso, insisto que «ajudar os pobres com o dinheiro deve sempre ser um remédio provisório para enfrentar emergências. O verdadeiro objetivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho»” (162).

Construtor de pontes

Fratelli Tutti constitui-se, assim, como uma carta encíclica incisiva e desafiadora, que certamente não deixará indiferente ninguém que se decida a lê-la, meditá-la e colocá-la em prática. Isso significa então que não há nada para corrigir ou criticar? Na minha opinião, não é o aspecto político ou sua orientação social que poderiam ser controversos nesta encíclica. Parece-me que os católicos poderíamos reivindicar neste documento uma “dimensão” que só aparece no final: “Como crentes, pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não podem haver razões sólidas e estáveis para o apelo à fraternidade” (272), ou como diz lindamente nos últimos parágrafos: “Para muitos cristãos, este caminho de fraternidade tem também uma Mãe, chamada Maria” (278). Quer dizer, se há algum problema de cor nesta encíclica, é a presença tênue do azul do céu, que aparece timidamente no último capítulo… Pois temos a segurança não só de que “ninguém se salva sozinho, que unicamente é possível salvar-se juntos” (30), mas sim de que, além disso, – isso só é possível com a ajuda da graça e da força e luz do Espírito Santo, porque os bens mais altos são muito altos para que fiquem somente condicionados às forças humanas.

Mas não resta dúvida de que com Fratelli Tutti o Papa Francisco assumiu muito seriamente a sua tarefa de pontífice: “construtor de pontes”, pois este documento configura-se como uma carta dirigida às pessoas de todo o espectro de cores, com as quais quer se encontrar e estabelecer diálogo.

Texto completo da Fratelli tutti (pdf)

Original: Espanhol (6/10/2020). Tradução: Luciana Rosas, Curitiba, Brasil

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