Colocado em 18. Fevereiro 2019 In Francisco - Mensagem, JMJ Panama 19

A Via Sacra do Teu Filho prolonga-se hoje…

MENSAGENS DO PAPA FRANCISCO DA JMJ2019, Maria Fischer •

Já passou algum tempo desde que o Papa Francisco se despediu do Panamá. Em muitas conversas ainda ecoam frases pronunciadas nas suas Homilias, discursos e orações. Há publicações com as dez frases que nos ficaram do Papa Francisco na JMJ. Quais são as tuas, as suas? Aqui, partilharei “a minha” frase que, guardo de cada mensagem do Papa Francisco, desde o meu ponto de vista pessoal – schoenstatt.org convida todos a identificarem “a sua” frase que fica, que marca, que transforma, que interpela e que nos incita à acção.

O caminho de Jesus para o Calvário é um caminho de sofrimento e solidão que continua nos nossos dias. Ele caminha e sofre em tantos rostos que padecem a indiferença satisfeita e anestesiante da nossa sociedade, sociedade que consome e que se consome, que ignora e se ignora na dor dos seus irmãos. Que se prolonga hoje…

 
Vía Crucis con los Jóvenes -Campo Santa Maria La Antigua

A seguir à Celebração Penitencial, ocorrida durante a manhã com os jovens presos, o Papa juntou-se, à tarde, aos milhares e milhares de jovens para a Via Sacra. Já na cerimónia de boas-vindas, a coreografia religiosa e artística falava por si própria. A cruz foi levada por grupos de jovens dos países das Américas. Alguns desses países, tal como o expressaram os jovens nas suas orações, são a Via-Sacra de hoje; são esta Via-Sacra do Filho de Deus que, se prolonga hoje, como mais tarde diria o Santo Padre: Cuba, Honduras, Colômbia, El Salvador, Nicarágua; um grito de liberdade, um grito vindo da pobreza, da violência, da injustiça, um grito pela solidariedade, a oração e a paz.

Os jovens desfraldaram uma bandeira gigante da Venezuela, um país onde o povo morre de fome e por falta de liberdade. Entretanto, os jovens da Venezuela rezam pelos milhares e milhares de pessoas obrigadas a deixarem os seus países, forçados pela fome e pela perseguição política. É nesse momento que, o Papa Francisco se junta aos milhares de jovens da Faixa Costeira do Panamá e, muitos mais se unem em oração pelo povo da Venezuela em frente dos ecrãs da televisão. Sabemos que há várias Peregrinas na Venezuela. Sabemos que uma imagem Peregrina está muito centrada na tentativa de libertar a Venezuela. Todos nós, unidos neste momento que, parece não ter fim e que nos tira o fôlego pela sua intensidade, quebramos a indiferença da nossa sociedade “que ignora e se ignora na dor dos seus irmãos”. Nestes momentos estamos em e com a Venezuela, em e com a dor deste povo. Uma mensagem mais forte que milhares de notas de imprensa.

A Via – Sacra do Teu Filho prolonga-se hoje na Venezuela e em tantos lugares mais. Não ignoremos a dor dos nossos irmãos neste mundo e ao nosso redor, não nos desculpemos com a falta de tempo ou a falta de informação.

Faz-me rezar, de novo, a Consagração da Manhã do Rumo ao Céu: “…o que me causa sofrimento e alegria…te ofereço como dom de amor para a fonte santa de graças que do Santuário brota cristalina…” (R ao C, 16)

 

Vía Crucis con los Jóvenes -Campo Santa Maria La Antigua

Fotos: Fernando Santos, Miguel Villarreal, Miguel Sinclair, Juan Pablo Zurita, Miguel Sinclair, Andres Espinoza/Panama2019

Texto da mensagem e oração do Papa Francisco a seguir à Via-Sacra de 25 de Janeiro de 2019

 

Queridos jovens
de todo o mundo!

Caminhar com Jesus será sempre uma graça e um risco.

Uma graça, porque nos compromete a viver na fé e a conhecê-Lo, penetrando nas profundezas do seu coração, compreendendo a força da sua palavra.

Um risco, porque, em Jesus, as suas palavras, os seus gestos, as suas ações contrastam com o espírito do mundo, a ambição humana, as propostas duma cultura do descarte e da falta de amor.

Há uma certeza que enche de esperança esta via-sacra: Jesus percorreu-a com amor; e viveu-a também a Virgem Gloriosa, Ela que, desde o início da Igreja, quis sustentar com a sua ternura o caminho da evangelização.

Senhor, Pai de misericórdia, nesta Faixa Costeira, juntamente com tantos jovens vindos de todo o mundo, acabamos de acompanhar o vosso Filho no caminho da cruz; caminho esse, que Ele quis percorrer por nós, para nos mostrar quanto Vós nos amais e como estais envolvido na nossa vida.

O caminho de Jesus para o Calvário é um caminho de sofrimento e solidão que continua nos nossos dias. Ele caminha e sofre em tantos rostos que padecem a indiferença satisfeita e anestesiante da nossa sociedade, sociedade que consome e que se consome, que ignora e se ignora na dor dos seus irmãos.

Também nós, vossos amigos, Senhor, nos deixamos levar pela apatia e o imobilismo. Tantas vezes nos derrotou e paralisou o conformismo. Foi difícil reconhecer-Vos no irmão sofredor: desviamos o olhar, para não ver; refugiamo-nos no barulho, para não ouvir; tapamos a boca, para não gritar.

Sempre a mesma tentação. É mais fácil e «remunerador» ser amigo nas vitórias e na glória, no sucesso e no aplauso; é mais fácil estar próximo a quem é considerado popular e vencedor.

Como é fácil cair na cultura do bullying, do assédio, da intimidação, do encarniçamento sobre quem é fraco!

Para Vós, Senhor, não é assim! Na cruz, identificastes-Vos com todo o sofrimento, com quem se sente esquecido.

Para Vós, Senhor, não é assim, porque quisestes abraçar todos aqueles que muitas vezes consideramos não dignos de um abraço, uma carícia, uma bênção; ou, pior ainda, nem nos damos conta de que precisam disso, ignoramo-los.

Para Vós, Senhor, não é assim! Na cruz, unistes-Vos à via-sacra de cada jovem, de cada situação para a transformar numa via de ressurreição.

Pai, hoje a via-sacra do vosso Filho…

Prolonga-se no grito sufocado das crianças impedidas de nascer e de tantas outras a quem se nega o direito de ter uma infância, uma família, uma instrução; nas crianças que não podem jogar, cantar, sonhar;

Prolonga-se nas mulheres maltratadas, exploradas e abandonadas, despojadas e ignoradas na sua dignidade;

E nos olhos tristes dos jovens que veem ser arrebatadas as suas esperanças de futuro por falta de instrução e trabalho digno;

Prolonga-se na angústia de rostos jovens, nossos amigos, que caem nas redes de pessoas sem escrúpulos – entre elas, encontram-se também pessoas que dizem servir-Vos, Senhor –, redes de exploração, criminalidade e abuso, que se alimentam das suas vidas.

A via-sacra do vosso Filho prolonga-se em tantos jovens e famílias que, absorvidos numa espiral de morte por causa da droga, do álcool, da prostituição e do tráfico humano, ficam privados não só do futuro, mas também do presente. E, assim como repartiram as vossas vestes, Senhor, acaba repartida, maltratada a sua dignidade.

A via-sacra do vosso Filho prolonga-se nos jovens com rostos franzidos que perderam a capacidade de sonhar, criar e inventar o amanhã e «passam à aposentação» com o dissabor da resignação e do conformismo, uma das drogas mais consumidas no nosso tempo.

Prolonga-se na dor escondida e indignada de quantos, em vez de solidariedade por parte duma sociedade repleta de abundância, encontram rejeição, sofrimento e miséria, e além disso acabam assinalados e tratados como portadores e responsáveis de todo o mal social.

A paixão do vosso Filho prolonga-se na solidão resignada dos idosos, que deixamos abandonados e descartados.

Prolonga-se nos povos nativos, despojados das suas terras, das suas raízes e da sua cultura, silenciando e apagando toda a sabedoria que têm e nos podem oferecer.

Pai, a via-sacra do vosso Filho prolonga-se no grito da nossa mãe Terra, que é ferida nas suas entranhas pela contaminação da atmosfera, a esterilidade dos seus campos, o lixo das suas águas, e se vê espezinhada pelo desprezo e o consumo enlouquecido que ignora razões.

Prolonga-se numa sociedade que perdeu a capacidade de chorar e comover-se à vista do sofrimento.

Sim, Pai! Jesus continua a caminhar, carregar e padecer em todos estes rostos enquanto o mundo, indiferente e num cómodo cinismo, consuma o drama da sua própria frivolidade.

E nós, Senhor, que fazemos?

Como reagimos à vista de Jesus que sofre, caminha, emigra no rosto de tantos amigos nossos, de tantos desconhecidos que aprendemos a tornar invisíveis?

E nós, Pai de misericórdia…

Consolamos e acompanhamos o Senhor, inerme e sofredor, nos mais pequenos e abandonados?

Ajudamo-Lo a carregar o peso da cruz, como o Cireneu, fazendo-nos operadores de paz, criadores de alianças, fermento de fraternidade?

Temos a coragem de permanecer ao pé da cruz, como Maria?

Contemplemos Maria, mulher forte. D’Ela, queremos aprender a ficar de pé junto da cruz. Com a sua mesma decisão e coragem, sem evasões nem miragens. Ela soube acompanhar o sofrimento de seu Filho, vosso Filho, ó Pai, apoiá-Lo com o olhar e protegê-Lo com o coração. Que dor sofreu! Mas não A abateu. Foi a mulher forte do «sim», que apoia e acompanha, protege e abraça. É a grande guardiã da esperança.

Pai, também nós queremos ser uma Igreja que apoia e acompanha, que sabe dizer: estou aqui, na vida e nas cruzes de tantos cristos que caminham ao nosso lado.

De Maria, aprendemos a dizer «sim» à resistência forte e constante de tantas mães, tantos pais, avós que não cessam de apoiar e acompanhar os seus filhos e netos quando estão com problemas.

D’Ela, aprendemos a dizer «sim» à paciência obstinada e à criatividade daqueles que não desanimam e recomeçam do princípio nas situações em que tudo parece estar perdido, procurando criar espaços, ambientes familiares, centros de atenção que sejam uma mão estendida nas dificuldades.

Em Maria, aprendemos a força para dizer «sim» àqueles que não se calaram nem calam perante uma cultura dos maus-tratos e abuso, do descrédito e agressão, e trabalham para proporcionar oportunidades e condições de segurança e proteção.

Em Maria, aprendemos a acolher e hospedar todos aqueles que foram abandonados, que tiveram de sair ou perder a sua terra, as raízes, a família, o emprego.

Pai, como Maria, queremos ser Igreja, a Igreja que favoreça uma cultura que saiba acolher, proteger, promover e integrar; que não estigmatize e, menos ainda, generalize com a condenação mais absurda e irresponsável que é ver todo o migrante como portador do mal social.

D’Ela, queremos aprender a estar de pé junto da cruz, não com um coração blindado e fechado, mas com um coração que saiba acompanhar, que conheça a ternura e o devotamento; que se entenda de compaixão para tratar com respeito, delicadeza e compreensão. Queremos ser uma Igreja da memória, que respeite e valorize os idosos e reclame para eles o lugar que lhes é devido, como guardiões das nossas raízes.

Pai, como Maria, nós queremos aprender a «estar».

Ensinai-nos, Senhor, a estar ao pé da cruz, ao pé das cruzes; despertai nesta noite os nossos olhos, o nosso coração; resgatai-nos da paralisia e da confusão, do medo e do desespero. Pai, ensinai-nos a dizer: estou aqui juntamente com o vosso Filho, juntamente com Maria e juntamente com tantos discípulos amados que desejam acolher o vosso Reino no coração. Ámen.

E, depois de termos vivido a Paixão do Senhor, juntamente com Maria ao pé da cruz, partimos com o coração silencioso e em paz, feliz e com uma vontade imensa de seguir Jesus. Que Jesus vos acompanhe e a Virgem vos proteja. Até à próxima!

 

Fotos
Vía Crucis con los Jóvenes - Campo Santa María La Antigua

Original: espanhol (7/2/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

Etiquetas: , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *