Colocado em 20. Junho 2018 In Francisco - Mensagem

Não estão em jogo apenas “números” mas “pessoas”

Por Maria Fischer •

 “Têm cara de migrantes ilegais”, parece dizer o funcionário na fronteira, uma destas fronteiras inundadas por centenas de migrantes e refugiados que, segundo a opinião pública e, mais ainda, a dos partidos emergentes que reclamam “o nosso país primeiro”, ameaçam cultura, bem-estar e segurança dos países grandes. Como aquele que está do outro lado desta fronteira à qual se aproximam, um homem pobremente vestido, uma mulher jovem demais para já ter um filho e que, agora, mostra o seu bebé com apenas algumas semanas, como querendo dizer: “Deixem-nos passar por amor de Deus e por este bebé que tem medo e fome”.

Por último, gostaria, de dizer que na questão da migração não estão em jogo apenas “números” mas, “pessoas”, com a sua história, a sua cultura, os seus sentimentos, os seus anseios…

Os funcionários recebem ordens. Afastar refugiados na fronteira, separar pais dos filhos, mandá-los de volta para onde se registaram em primeiro lugar, mandá-los para qualquer outro lugar, salvo o nosso país. Pelo menos, estes não vêm de barco, como tantos outros, pois embora, tendo-o vivido durante anos, faz-nos horror ver esta gente afogar-se e, há ainda a fotografia do bebé afogado na praia… As 600 pessoas do barco Aquarius, ao menos, não se afogaram, só sofreram durante dias sem saberem se alguém iria receber estes migrantes que ninguém queria.

Não, realmente não se pode. Já temos a quota de migrantes, acordada e, além disso, porque é que saem do seu país e querem viver no nosso? De onde vêm, há lá guerra de verdade? Há perseguições? Ou apenas fome?

Cenário diário, possível, seja na fronteira do México com os Estados Unidos, ou nas fronteiras da Hungria, Áustria, agora da Itália, quem sabe se, em breve da Alemanha…ou na fronteira do Egípto, há 2.000 anos. Vêm como refugiados ou imigrantes, fugindo da guerra, perseguição, fome, pobreza. Cada um deles é uma história e um mistério. Tal como, naquela altura Maria, José e Jesus.

Quando chega a ordem de Trump ou de Seehofer ou de Kurz de proibir nos “presépios” aquelas figuras de Maria, José e o Menino Jesus no seu burrinho fugindo para o Egípto?

É necessária uma mudança de mentalidade

“É necessária uma mudança de mentalidade: deixar de considerar o outro como uma ameaça à nossa comodidade mas, a valorizá-lo como alguém que, com a sua experiência de vida e os seus valores pode trazer muito e contribuir para a riqueza da nossa sociedade. Por isso, a atitude fundamental é a de “sair ao encontro do outro, para o acolher, conhecer e reconhecer”, diz o Papa Francisco, que se fez advogado dos migrantes desde a sua visita a Lampedusa, desde o seu grande discurso no Parlamento Europeu, em Estrasburgo até à sua recente mensagem por ocasião do “segundo colóquio Santa Sé – México sobre a migração internacional”, no passado dia 14 de Junho.

Por último, gostaria, de dizer que, na questão da migração não estão em jogo apenas “números” mas, “pessoas”, com a sua história, a sua cultura, os seus sentimentos, os seus anseios… Estas pessoas que são irmãs e irmãos nossos, precisam de uma “protecção contínua”, independentemente, do status migratório que tiverem. Os seus direitos fundamentais e a sua dignidade devem ser protegidos e defendidos. Uma atenção especial deve ser reservada às crianças migrantes, às suas famílias, aos que são vítimas das redes de tráfico de seres humanos e àqueles que são deslocados por causa de conflitos, desastres naturais e de perseguições. Todos eles esperam que tenhamos a coragem de destruir o muro dessa “cumplicidade confortável e muda” que agrava a sua situação de desamparo e que ponhamos neles a nossa atenção, a nossa compaixão e dedicação”.

Obrigado a este país, o Egípto, que há 2.000 anos não agia como tantos países cristãos agem hoje em dia.

Obrigado, Papa Francisco, por nos mostrar, mais uma vez, que “os migrantes” não são números nem, em primeiro lugar, uma ameaça mas, seres humanos que exigem a nossa opção pela vida.

Mensaje del Papa Francisco (Es)

Original: espanhol (17/6/2018). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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