Colocado em 2016-05-26 In Francisco - Mensagem

Aqueles que se julgam justos, têm necessidade de misericórdia

FRANCISCO EM ROMA – ANO SANTO DA MISERICÓRDIA

“Lembro-me duma ocasião em que pudemos constatar que, na realidade, muitas vezes nos faz falta abrirmo-nos à graça e ao sentido divino do perdão e da misericórdia”, contaram Stella e Victor Domínguez há pouco tempo numa exposição que fizeram para os agentes da Pastoral da Arquidiocese de Asunción. “Uma pessoa aproximou-se de nós quando dávamos início à Pastoral da Esperança e disse-nos que lhe parecia muito injusto o que estávamos a propôr: Uma Pastoral para os divorciados em nova união. Porquê dar um espaço a esta gente que rompeu a sua união sacramental? Quando o que devemos trabalhar e propôr na Igreja é a “defesa do casamento” e que se deve lutar para conservar a união. Dedicar o nosso tempo aos divorciados “era um desperdício”. Esta Pastoral, disse-nos, traz uma mensagem contraditória: “é como que um convite aos jovens para que se não se sentirem bem com o seu casamento se podem separar e procurar outra pessoa que os faça mais felizes e, depois dizemos-lhes venham para aqui onde terão um espaço para todos”.

A nossa mentalidade humana é igual ao que aconteceu, na Parábola do Filho Pródigo. É a mesma queixa racionalista que sai do coração do filho mais velho: quando chega a casa, ouve música e, toma conhecimento de que há festa pelo regresso do seu irmão mais novo e, por isso, indigna-se e queixa-se. “Há muitos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma… E agora que voltou este teu filho» (vv. 29-30). Vemos o desprezo: nunca diz «pai», nunca diz «irmão», só pensa em si mesmo, gaba-se de ter permanecido sempre ao lado do pai e de o ter servido; e no entanto nunca viveu esta proximidade com alegria. E agora acusa o pai porque nunca lhe deu um cabrito para fazer festa”. É a mesma indignação da pessoa que nos invetivava, porquê dedicarmo-nos aos DVC?!

Na catequese da Audiência Geral da quarta-feira, 11 de Maio, o Papa Francisco falou sobre o “filho mais velho” da parábola do Pai Misericordioso para mostrar que, todos precisamos de misericórdia e, que, por vezes, custa mais aos que se sentem sem pecado e sem culpa, melhores que “essa gente”…

Texto completo da catequese do Santo Padre, 11 de Maio de 2016

Bom dia, amados irmãos e irmãs!

Hoje esta audiência realiza-se em dois lugares: dado que havia previsão de chuva, os doentes estão na sala Paulo vi, em contacto connosco através de uma grande tela; dois lugares mas uma só audiência. Saudemos os doentes que se encontram na sala Paulo vi! Hoje queremos meditar sobre a parábola do Pai misericordioso. Ela fala de um pai e dos seus dois filhos, e leva-nos a conhecer a misericórdia infinita de Deus.

Comecemos pelo fim, ou seja, pela alegria do coração do Pai, que diz: «Façamos uma festa. Este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado» (vv. 23-24). Com estas palavras o pai interrompeu o filho mais jovem no momento em que confessa a sua culpa: «Já não sou digno de ser chamado teu filho…» (v. 19). Mas esta expressão é insuportável para o coração do pai, que ao contrário se apressa a devolver ao filho os sinais da sua dignidade: a roupa bonita, o anel, o calçado. Jesus não descreve um pai ofendido e ressentido, um pai que por exemplo diz ao filho: «Vais pagar»: não, o pai abraça-o, espera por ele com amor. Ao contrário, a única coisa que o pai quer é que o filho esteja diante dele, são e salvo, é o que o torna feliz, e por isso faz festa. A receção do filho que volta é descrita de modo comovedor: «Ainda estava longe, quando o seu pai o viu e, movido de compaixão, correu ao seu encontro, lançou-se ao seu pescoço e beijou-o» (v. 20). Quanta ternura; viu-o de longe: o que significa isto? Que o pai subia continuamente ao terraço para perscrutar a estrada a ver se o filho voltava; aquele filho que tinha feito de tudo, mas o pai esperava-o. Como é bonita a ternura do Pai! A misericórdia do pai é transbordante, incondicional e manifesta-se ainda antes que o filho fale. Sem dúvida, o filho sabe que errou e reconhece-o: «Pequei… Trata-me como a um dos teus servos» (v. 19). Mas estas palavras dissolvem-se diante do perdão do pai. O abraço e o beijo do seu pai levam-no a entender que foi sempre considerado filho, não obstante tudo. Este ensinamento de Jesus é importante: a nossa condição de filhos de Deus é fruto do amor do coração do Pai; não depende dos nossos méritos, nem dos nossos gestos, e portanto ninguém no-la pode tirar, nem sequer o diabo! Ninguém nos pode privar desta dignidade.

Esta palavra de Jesus anima-nos a nunca desesperar. Penso nas mães e nos pais em apreensão quando veem os filhos afastar-se seguindo por caminhos perigosos. Penso nos párocos e catequistas que às vezes se interrogam se o seu trabalho foi em vão. Mas penso também em quantos estão na prisão e têm a impressão de que a sua vida acabou; naqueles que fizeram escolhas erradas e não conseguem olhar para o futuro; em todos os que têm fome de misericórdia e perdão, e julgam que não o merecem… Em qualquer situação da vida, não devo esquecer que nunca deixarei de ser filho de Deus, filho de um Pai que me ama e espera a minha volta. Até na pior situação da vida, Deus espera-me, Deus quer abraçar-me, Deus aguarda-me.

Na parábola há outro filho, o mais velho; também ele tem necessidade de descobrir a misericórdia do pai. Ele permaneceu sempre em casa, mas é muito diverso do pai! As suas palavras carecem de ternura: «Há muitos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma… E agora que voltou este teu filho» (vv. 29-30). Vemos o desprezo: nunca diz «pai», nunca diz «irmão», só pensa em si mesmo, gaba-se de ter permanecido sempre ao lado do pai e de o ter servido; e no entanto nunca viveu esta proximidade com alegria. E agora acusa o pai porque nunca lhe deu um cabrito para fazer festa. Coitado do pai! Um filho foi embora e o outro nunca permaneceu realmente próximo dele! O sofrimento do pai é como o do Deus, o de Jesus quando nos afastamos ou porque vamos embora ou porque estamos perto mas sem o estar deveras.

Também o filho mais velho precisa de misericórdia. Inclusive os justos, aqueles que se julgam justos, têm necessidade de misericórdia. Este filho representa cada um de nós, quando nos perguntamos se vale a pena labutar tanto, se depois nada recebemos em troca. Jesus recorda-nos que não permanecemos na casa do Pai para receber uma recompensa, mas porque temos a dignidade de filhos corresponsáveis. Não se trata de «negociar» com Deus, mas de seguir Jesus que se entregou incondicionalmente na cruz.

«Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Convinha, porém, fazer festa…» (vv. 31-32). Assim diz o Pai ao filho mais velho. A sua lógica é a da misericórdia! O filho mais jovem pensava que merecia um castigo por causa dos seus pecados, e o filho mais velho esperava uma recompensa pelos seus serviços. Os dois irmãos não falam entre si, vivem histórias diferentes, mas ambos raciocinam segundo uma lógica alheia a Jesus: se fizeres o bem, receberás uma recompensa, se fizerem o mal serás punido; esta não é a lógica de Jesus, não! Esta lógica é invertida pelas palavras do pai: «Convinha, porém, fazer festa, pois este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado» (v. 31). O pai recuperou o filho perdido e agora pode inclusive restituí-lo ao seu irmão! Sem o filho mais jovem, também o filho mais velho deixa de ser um «irmão». A maior alegria para o pai é ver que os seus filhos se reconheçam irmãos.

Os filhos podem decidir se querem unir-se à alegria do pai ou rejeitá-la. Devem interrogar-se sobre os próprios desejos e sobre a sua visão da vida. A parábola termina deixando o final suspenso: não sabemos o que o filho mais velho decidiu fazer. E isto é um estímulo para nós. Este Evangelho ensina-nos que todos temos necessidade de entrar na casa do Pai e participar da sua alegria, na festa da misericórdia e da fraternidade. Irmãos e irmãs, abramos o nosso coração para sermos «misericordiosos como o Pai»!

Tradução das palavras do Santo Padre: vatican.va

Coordenação da Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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