Colocado em 31. Maio 2016 In Francisco - Mensagem

A oração não é uma varinha mágica

FRANCISCO EM ROMA – ANO SANTO DA MISERICÓRDIA •

Milhares de fiéis e de peregrinos de numerosos países voltaram a encontrar-se na Praça de S. Pedro, em 25 de Maio, para participarem na Audiência Geral do Papa Francisco que, continuou com a sua série de catequeses sobre a Misericórdia no Novo Testamento. A oração como fonte de Misericórdia foi o tema que o Santo Padre desenvolveu nesta ocasião, partindo da Leitura duma passagem tirada do Evangelho segundo S. Lucas (18, 1-8).

“A oração não é uma varinha mágica! Ela ajuda a conservar a fé em Deus, a confiar em Deus até quando não compreendemos a sua vontade”, disse o Papa Francisco, na Audiência Geral desta quarta-feira, 25 de Maio, continuando o seu ciclo de catequeses sobre a Misericórdia na Sagrada Escritura.

Francisco refletiu sobre a necessidade de rezar sempre, sem desfalecer, porque a oração conserva a fé e a relação com Deus. Para explicar recorreu à Parábola da viúva e do juiz que o Evangelho de S. Lucas narra.

“Todos nós sentimos momentos de cansaço e de desânimo, sobretudo quando a nossa oração parece ineficaz. Mas Jesus tranquiliza-nos: diversamente do juiz desonesto, Deus atende os seus filhos de modo imediato, embora isto não signifique que o faça segundo os tempos e modos que nós gostaríamos. A oração não é uma varinha mágica! Ela ajuda a conservar a fé em Deus, a confiar em Deus até quando não compreendemos a sua vontade”.

Texto completo da catequese do Santo Padre, 25. 05. 2016

Bom dia, caros irmãos e irmãs!

A parábola evangélica que há pouco ouvimos (cf. Lc 18, 1-8) contém um ensinamento importante: «A necessidade de orar sempre, sem nunca se cansar» (v. 1). Portanto, não se trata de rezar às vezes, quando tenho vontade. Não! Jesus diz que é preciso «orar sempre, sem se cansar». E cita o exemplo da viúva e do juiz.

O juiz é uma personalidade poderosa, chamada a emitir sentenças com base na Lei de Moisés. Por isso, a tradição bíblica recomendava que os juízes fossem pessoas tementes a Deus, dignas de fé, imparciais e incorruptíveis (cf. Êx 18, 21). Ao contrário, este juiz «não temia a Deus, nem respeitava pessoa alguma» (v. 2). Era um juiz iníquo, sem escrúpulos, que não tinha em consideração a Lei mas fazia o que queria, segundo o próprio interesse. Uma viúva vai ter com ele para obter justiça. As viúvas, juntamente com os órfãos e com os estrangeiros, eram as categorias mais frágeis da sociedade. Os direitos que lhes eram assegurados pela Lei podiam ser espezinhados com facilidade porque, dado que eram pessoas sós e indefesas, dificilmente podiam fazer-se valer: uma pobre viúva, ali sozinha, ninguém a defendia, podiam ignorá-la, sem lhe fazer justiça. Do mesmo modo também o órfão, o estrangeiro, o migrante: naquela época esta problemática era muito acentuada. Diante da indiferença do juiz, a viúva recorre à sua única arma: continuar insistentemente a importuná-lo, apresentando-lhe o seu pedido de justiça. E é precisamente com esta perseverança que ela alcança a sua finalidade. Com efeito, numa certa altura o juiz atende-a, mas não porque é impelido pela misericórdia, nem porque a consciência lho impõe; ele simplesmente admite: «Dado que esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, senão ela não cessará de me molestar» (v. 5).

Desta parábola Jesus haure uma dupla conclusão: se a viúva conseguiu convencer o juiz desonesto com os seus pedidos insistentes, tanto mais Deus, que é Pai bom e justo, «fará justiça aos seus escolhidos, que clamam por Ele dia e noite»; e além disso, não os «fará esperar muito tempo», mas agirá «imediatamente» (vv. 7-8).

Por isso Jesus exorta a rezar «sem se cansar». Todos nós sentimos momentos de cansaço e de desânimo, sobretudo quando a nossa oração parece ineficaz. Mas Jesus tranquiliza-nos: diversamente do juiz desonesto, Deus atende os seus filhos de modo imediato, embora isto não signifique que o faça segundo os tempos e modos que nós gostaríamos. A oração não é uma varinha mágica! Ela ajuda a conservar a fé em Deus, a confiar em Deus até quando não compreendemos a sua vontade. Nisto, o próprio Jesus — que rezava muito! — serve-nos de exemplo. A Carta aos Hebreus recorda que «nos dias da sua vida mortal, [Ele] dirigiu preces e súplicas, entre clamores e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, e foi atendido pela sua piedade» (5, 7). À primeira vista esta afirmação parece improvável, porque Jesus morreu na cruz. E no entanto a Carta aos Hebreus não se engana: Deus salvou verdadeiramente Jesus da morte, vencendo-a com uma vitória completa, mas o caminho que teve de percorrer para a alcançar passou através da própria morte! A referência à súplica que Deus atendeu remete para a oração de Jesus no Getsémani. Tomado pela angústia incumbente, Jesus reza ao Pai para que o livre do cálice amargo da paixão, mas a sua prece está permeada de confiança no Pai e Ele entrega-se incondicionalmente à sua vontade: «Contudo — diz Jesus — não se faça o que Eu quero, mas sim o que Tu queres» (Mt 26, 39). O objeto da oração passa para segundo plano; o que importa antes de tudo é a relação com o Pai. Eis o que faz a oração: transforma o desejo, modelando-o segundo a vontade de Deus, qualquer que ela seja, porque quem ora aspira em primeiro lugar à união com Deus, que é Amor misericordioso.

A parábola conclui-se com uma pergunta: «Mas quando vier o Filho do Homem, acaso encontrará fé sobre a terra?» (v. 8). E com esta interrogação estamos todos alertados: não devemos desistir da oração, mesmo que não seja correspondida. É a prece que preserva a fé, pois sem ela a fé vacila! Peçamos ao Senhor uma fé que se faz oração incessante, perseverante, como a da viúva da parábola, uma fé que se alimenta do desejo da sua vinda. E na prece experimentamos a compaixão de Deus que, como um Pai, vem ao encontro dos seus filhos cheio de amor misericordioso.

Coordenação da Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal. Tradução das palavras do Santo Padre: vatican.va

 

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