Colocado em 2015-06-16 In Francisco - Mensagem

São coisas heroicas, são a heroicidade das famílias!

ROMA-VATICANO, Maria Fischer •

Recordo o diálogo do domingo passado que tive com um sacerdote amigo do Secretariado de Estado do Vaticano. Recordo como ele, com admiração sincera, comentou acerca de um tema da conferência de imprensa de Francisco no avião, quando regressava da sua visita a Sarajevo. “¡Está tão próximo da vida real!”, disse-me. “Tão próximo da vida real das famílias. Deve ter um contacto muito próximo com pais e mães de família… Conhece os desafios reais das famílias”. Recordo isto na Praça de São Pedro, hoje, quarta-feira 10 de junho, enquanto o Santo Padre fala sobre a família e a vida real, mencionando “um aspeto muito comum na vida das nossas famílias, a doença”. E recordo o Padre José Kentenich que tantas vezes disse a sacerdotes e Irmãs de Maria que não falassem tanto de heroísmo quando algum barulho durante a noite lhes tirava o sono, lembrando as mães e os pais de família que se revezam, noite após noite, para cuidar de um filho doente como a coisa mais natural do mundo. Recordo isto quando escuto Francisco dizer: “Quantas vezes nós vemos chegar ao trabalho um homem, uma mulher com o rosto cansado, com uma atitude fatigada, e quando lhe perguntamos- o que acontece? Responde “eu dormi só duas horas, porque em casa nos revezamos para estar próximos do filho, da filha, do doente, do avô, da avó!”. E o dia continua com o trabalho. São coisas heroicas, são a heroicidade das famílias! Estas formas de heroicidade escondida verificam-se com ternura e com coragem, quando em casa alguém está doente”.

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Desde as quatro da manhã para ver Francisco

Horas antes da audiência já há peregrinos na Praça de São Pedro, esperando sob o sol inclemente do verão de Roma. Alguns estão desde as quatro da manhã, para encontrar um bom lugar onde haja alguma possibilidade de ver de perto Francisco, para saudá-lo, mostrar-lhe os seus cartazes e bandeiras e primeiro de tudo, os seus filhos. Expectativas, alegria, curiosidade. Alguns rezam enquanto passam as horas de espera. Todos suam abundantemente, também os noivos com os seus fatos de casamento e os cardeais e bispos no “sacrato”!

¡Vem aí o Papa! Toda a praça se une num só movimento, levantam-se bandeiras, crianças, as imprescindíveis máquinas fotográficas. Uma menina de apenas três anos, nos braços dos seus pais, agita as mãos e grita: ¡upa, querido Papa!… e quando o Papa Francisco passa olhando as pessoas do outro lado, a pequena chora e chora… Um dos homens da segurança que que acompanham Francisco diz-lhe algo. Ao voltar, 20 minutos mais tarde e depois de centenas de encontros, Francisco olha a menina – que ainda chora inconsolável – e os seus pais, e também a todos os que estamos à sua volta com uma ternura tão grande, que não é só a menina que chora… O que acontece depois, quando a pequena está ao colo de Francisco, é uma súbita transformação do pranto à pura felicidade e um brilho incrível nos olhos inchados de tanto chorar. “É assim que me imagino a voltar ao Pai no céu”, disse um sacerdote. “Ele vai secar todas as lágrimas…”

E enquanto o Papa Francisco benze o meu lenço de Dequení (sim, amigos de Dequení, missão cumprida), peço a bênção para todas as crianças de Dequení, para todas as crianças nas nossas cem casas, na prisão de menores e para todos os nossos projetos que incluem a infância… Que sejamos, com o nosso compromisso com eles, um pouco como o Papa Francisco para esta menina: que consigamos transformar, pelo menos um pouco, o choro de tantas crianças em sorrisos…

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A família e a vida real: doença

Texto completo da catequese do Santo Padre

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Continuemos com as catequeses sobre a família, e nesta audiência gostaria de me referir a um aspecto muito comum na vida das nossas famílias, a doença. Trata-se de uma experiência da nossa fragilidade, que vivemos principalmente em família, desde a infância e depois sobretudo na velhice, quando chegam os achaques. No âmbito dos vínculos familiares, a enfermidade das pessoas que amamos é padecida com um «suplemento» de dor e de angústia. É o amor que nos faz sentir este «suplemento». Muitas vezes para um pai e uma mãe é mais difícil suportar o mal de um filho, de uma filha, do que uma dor pessoal. Podemos dizer que a família foi desde sempre o «hospital» mais próximo. Ainda hoje, em muitas regiões do mundo, o hospital é um privilégio para poucos, e muitas vezes fica distante. São a mãe, o pai, os irmãos, as irmãs, as avós que garantem os cuidados e ajudam a curar.

Nos Evangelhos, muitas páginas narram os encontros de Jesus com os doentes e o seu compromisso por cuidar deles. Ele apresenta-se publicamente como alguém que luta contra a enfermidade e que veio para curar o homem de todos os males: o mal do espírito e o mal do corpo. É verdadeiramente comovedora a cena evangélica recém-narrada pelo Evangelho de Marcos. Reza assim: «À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e endemoninhados» (1, 32). Se penso nas grandes cidades contemporâneas, pergunto-me onde estão as portas ao limiar das quais levar os enfermos, na esperança de que sejam curados! Jesus nunca se subtraiu aos seus cuidados. Jamais passou além, nunca virou o rosto para o outro lado. E quando um pai ou uma mãe, ou então até simplesmente pessoas amigas traziam um doente à sua presença para que o tocasse e curasse, não perdia tempo; a cura vinha antes da lei, até daquela tão sagrada como o descanso do sábado (cf. Mc 3, 1-6). Os doutores da lei repreendiam Jesus porque Ele curava no dia de sábado, fazia o bem no dia de sábado. Mas o amor de Jesus consistia em dar a saúde, em fazer o bem: e isto vem sempre em primeiro lugar!

Jesus manda os discípulos realizar a obra que Ele mesmo faz, conferindo-lhes o poder de curar, ou seja, de se aproximar dos enfermos e de cuidar deles até ao fim (cf. Mt 10, 1). Devemos ter presente aquilo que Ele disse aos discípulos no episódio do cego de nascença (cf. Jo 9, 1-5). Os discípulos — com o cego ali em frente! — debatiam sobre quem tivesse pecado por ter nascido cego, ele ou os seus pais, para provocar a sua cegueira. O Senhor disse claramente: nem ele, nem os seus pais; é assim para que nele se manifestem as obras de Deus. E curou-o. Eis a glória de Deus! Eis a tarefa da Igreja! Ajudar os doentes, sem se perder em bisbilhotices, assistir sempre, consolar, aliviar, estar próximo dos doentes; esta é a sua tarefa.

A Igreja convida à oração incessante pelos nossos entes queridos, atingidos pelo mal. A prece pelos doentes nunca deve faltar. Aliás, temos que rezar ainda mais, tanto pessoalmente como em comunidade. Pensemos no episódio evangélico da mulher cananeia (cf. Mt 15, 21-28). Trata-se de uma mulher pagã, não pertence ao povo de Israel, mas é uma pagã que suplica a Jesus a cura da própria filha. Para pôr à prova a sua fé, Jesus primeiro responde duramente: «Não posso, devo pensar primeiro nas ovelhas de Israel!». A mulher não desiste — quando pede ajuda para a sua criatura, uma mãe nunca cede; todos nós sabemos que as mães lutam pelos seus filhos — e responde: «Até os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos!», como se dissesse: «Trata-me pelo menos como uma cachorrinha!». Então, Jesus diz-lhe: «Ó mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu desejas» (v. 28).

Diante da doença, até em família surgem dificuldades, por causa da debilidade humana. Mas em geral o tempo da enfermidade faz aumentar a força dos vínculos familiares. E penso como é importante educar desde crianças os filhos para a solidariedade na hora da doença. Uma educação que mantenha à distância a sensibilidade pela enfermidade humana torna árido o coração. E leva os jovens a ser «anestesiados» em relação ao sofrimento do próximo, incapazes de se confrontar com o sofrimento e de viver a experiência do limite. Quantas vezes nós vemos chegar ao trabalho um homem, uma mulher com o rosto cansado, com uma atitude fatigada, e quando lhe perguntamos: «O que acontece?», responde: «Eu dormi só duas horas, porque em casa nos revezamos para estar próximos do filho, da filha, do doente, do avô, da avó». E o dia continua com o trabalho. São coisas heróicas, é a heroicidade das famílias! Estas formas de heroicidade escondida verificam-se com ternura e com coragem, quando em casa alguém está doente.

A debilidade e o sofrimento dos nossos afectos mais queridos e mais sagrados podem ser, para os nossos filhos e os nossos netos, uma escola de vida — é importante educar os filhos, os netos, para que compreendam esta proximidade na doença em família — e tornam-se tal quando os momentos de enfermidade são acompanhados pela oração e pela proximidade carinhosa e cheia de esmero dos familiares. A comunidade cristã sabe bem que, na prova da doença, a família não deve ser deixada sozinha. E temos que dar graças ao Senhor pelas lindas experiências de fraternidade eclesial que ajudam as famílias a atravessar o árduo momento da dor e do sofrimento. Esta proximidade cristã, de uma família em relação à outra, é um verdadeiro tesouro para a paróquia; um tesouro de sabedoria, que assiste as famílias nas fases difíceis, levando-as a compreender o Reino de Deus melhor do que muitos discursos! São carícias de Deus!

IMG_8452 Fotos: M. Fischer, schoenstatt.org

Original: espanhol – Tradução introdução: Maria de Lurdes Dias, Lisboa, Portugal

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