Colocado em 2015-05-06 In Francisco - Mensagem

Uma aliança entre homem e mulher

Nas suas Audiências Gerais celebradas na terceira e na quarta quarta-feira de Abril, numa primaveril Praça de S.Pedro e, perante vários milhares de fieis e peregrinos provenientes de vários países, o Papa Francisco dedicou a sua Catequese à diferença e à complementaridade entre o homem e a mulher, na qual se baseia a união matrimonial e familiar sustentada pela graça de Deus.

A família: homem e mulher (1)

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

A catequese de hoje é dedicada a um aspecto central do tema da família: o grande dom que Deus ofereceu à humanidade com a criação do homem e da mulher, e com o sacramento do matrimónio. Esta catequese e a próxima serão dedicadas à diferença e à complementaridade entre o homem e a mulher, que estão no ápice da criação divina; depois, nas duas que se seguirão, serão abordados outros temas do Matrimónio.

Comecemos com um breve comentário à primeira narração da criação, contida no Livro do Génesis. Ali lemos que Deus, depois de ter criado o universo e todos os seres vivos, criou a obra-prima, isto é o ser humano, e fê-lo à sua própria imagem: «Criou-o à imagem de Deus; criou-os varão e mulher» (Gn 1, 27), assim reza o Livro do Génesis.

E como todos nós sabemos, a diferença sexual está presente em muitas formas de vida, na longa escala dos seres vivos. Mas unicamente no homem e na mulher ela tem em si a imagem e a semelhança de Deus: o texto bíblico repete-o três vezes, em dois versículos (26-27): homem e mulher são imagem e semelhança de Deus. Isto diz-nos que não apenas o homem em si mesmo é imagem de Deus, não só a mulher em si mesma é imagem de Deus, mas também o homem e a mulher, como casal, são imagem de Deus. A diferença entre homem e mulher não é para a contraposição, nem para a subordinação, mas para a comunhão e a geração, sempre à imagem e semelhança de Deus.

É a experiência que no-lo ensina: para se conhecer bem e crescer harmoniosamente, o ser humano tem necessidade da reciprocidade entre homem e mulher. Quando isto não se verifica, as consequências são evidentes. Somos feitos para nos ouvir e ajudar reciprocamente. Podemos dizer que sem o enriquecimento mútuo neste relacionamento — no pensamento e na acção, nos afectos e no trabalho, mas também na fé — os dois não conseguem nem sequer entender até ao fundo o que significa ser homem e mulher.

A cultura moderna e contemporânea abriu novos espaços, outras liberdades e renovadas profundidades para o enriquecimento da compreensão desta diferença. Mas introduziu inclusive muitas dúvidas e um grande cepticismo. Por exemplo, pergunto-me se a chamada teoria do gender não é também expressão de uma frustração e resignação, que visa cancelar a diferença sexual porque já não sabe confrontar-se com ela. Sim, corremos o risco de dar um passo atrás. Com efeito, a remoção da diferença é o problema, não a solução. Ao contrário, para resolver as suas problemáticas de relação, o homem e a mulher devem falar mais entre si, ouvir-se e conhecer-se mais, amar-se mais. Devem tratar-se com respeito e cooperar com amizade. Só com estas bases humanas, sustentadas pela graça de Deus, é possível programar a união matrimonial e familiar para a vida inteira. O vínculo matrimonial e familiar é algo sério, e para todos, não apenas para os crentes. Gostaria de exortar os intelectuais a não desertar este tema, como se fosse secundário para o compromisso a favor de uma sociedade mais livre e mais justa.

Deus confiou a terra à aliança do homem e da mulher: a sua falência torna árido o mundo dos afectos e ofusca o céu da esperança. Os sinais já são preocupantes, como podemos ver. Gostaria de indicar, entre muitos, dois pontos que na minha opinião devem comprometer-nos com maior urgência.

Primeiro. É indubitável que devemos fazer muito mais a favor da mulher, se quisermos dar nova força à reciprocidade entre homens e mulheres. Com efeito, é necessário que a mulher não seja só mais ouvida, mas que a sua voz tenha um peso real, uma autoridade reconhecida tanto na sociedade como na Igreja. O próprio modo como Jesus considerava a mulher num contexto menos favorável que o nosso, porque naquela época a mulher ocupava realmente o segundo lugar, e Jesus considerou-a de uma maneira que lança uma luz poderosa, que ilumina um caminho que vai longe, do qual percorrermos apenas um breve trecho. Ainda não entendemos em profundidade aquilo que nos pode proporcionar o génio feminino, o que a mulher pode oferecer à sociedade e também a nós: a mulher sabe ver tudo com outros olhos, que completam o pensamento dos homens. Trata-se de uma senda que devemos percorrer com mais criatividade e audácia.

Uma segunda reflexão diz respeito ao tema do homem e da mulher criados à imagem de Deus. Pergunto-me se a crise de confiança colectiva em Deus, que nos causa tantos males, nos faz adoecer de resignação à incredulidade e ao cinismo, não esteja também relacionada com a crise da aliança entre homem e mulher. Com efeito, a narração bíblica, com o grande afresco simbólico no paraíso terrestre e o pecado original, diz-nos precisamente que a comunhão com Deus se reflecte na comunhão do casal humano e a perda da confiança no Pai celeste gera divisão e conflito entre homem e mulher.

Eis a grande responsabilidade da Igreja, de todos os crentes, e antes de tudo das famílias crentes, para redescobrir a beleza do desígnio criador que inscreve a imagem de Deus também na aliança entre o homem e a mulher. A terra enche-se de harmonia e de confiança quando a aliança entre homem e mulher é vivida no bem. E se o homem e a mulher a procuram juntos entre si e com Deus, sem dúvida encontram-na. Jesus encoraja-nos explicitamente ao testemunho desta beleza que é a imagem de Deus.

A família: homem e mulher (2)

Queridos irmãos e irmãs

Na anterior catequese sobre a família, detive-me na primeira descrição sobre a Criação do ser humano, no primeiro Cap. Do Genesis, onde está escrito:”E Deus criou o homem à Sua Imagem; criou-o à Imagem de Deus, criou-os, homem e mulher” (1,27)

Hoje gostaria de completar a reflexão com a segunda descrição que, encontramos no segundo Cap . Aqui, lemos que o Senhor, depois de ter criado o Céu e a Terra “moldou o homem com barro do chão e, soprou no seu nariz o sopro de vida. Assim, o homem converteu-se num ser vivo” (2,7). É o cúmulo da criação. Mas, falta alguma coisa. A seguir, Deus põe o homem num jardim lindíssimo, “para que o cultivasse e o cuidasse” (cfr. 2,15).

O Espírito Santo que, inspirou toda a Bíblia, sugere, por um momento, a imagem do homem só – falta-lhe alguma coisa – sem mulher. E, sugere o pensamento de Deus, quase o sentimento de Deus que, o olha, que observa Adão sozinho no jardim: é livre, é senhor mas, está só. E, Deus vê que isto “não está bem”: é como uma falta de comunhão, falta-lhe uma comunhão, uma falta de plenitude. “Não está bem” – disse Deus – e, acrescenta: “Vou fazer-lhe uma ajuda adequada” (2,18)

Então, Deus apresenta ao homem todos os animais; o homem dá a cada um, um nome – e, esta é outra imagem da senhoria do homem sobre a criação – mas, não encontra em nenhum animal o outro similar a si. O homem continua só. Quando, finalmente, Deus apresenta a mulher, o homem reconhece exultante que, aquela criatura e, somente aquela, é parte de si próprio: “Esta sim que, é osso dos meus ossos e carne da minha carne!” (2,23). Finalmente, há um reflexo, uma reciprocidade. E, quando uma pessoa– é um exemplo para entendermos bem isto – quer dar a mão a outra, deve ter outro na sua frente: se um dá a mão e não tem nada, a mão está ali, falta-lhe a reciprocidade. Assim, era o homem, faltava-lhe alguma coisa para chegar à sua plenitude, faltava-lhe reciprocidade. A mulher não é uma “cópia” do homem; vem, directamente, do gesto criador de Deus. A imagem da “costela” não expressa, de modo algum, inferioridade ou subordinação mas, pelo contrário, que o homem e a mulher são da mesma substância e são complementares. Também têm esta reciprocidade. E, o facto que – sempre na parábola – Deus crie a mulher enquanto o homem dorme, sublinha, precisamente, que, ela não é, de modo algum, criatura do homem mas, de Deus. E, também, sugere outra coisa: para encontrar a mulher, o homem, primeiro, deve sonhá-la e, a seguir, encontra-a.

A confiança de Deus no homem e na mulher, aos quais confia a Terra, é generosa, directa e total. Mas, é aqui que, o maligno introduz na sua mente a suspeita, a incredulidade, a desconfiança. E, finalmente, chega a desobediência ao Mandamento que, os protegia. Caiem naquele delírio de omnipotência que contamina tudo e destrói a harmonia. Também, nós o sentimos dentre de nós, tantas vezes, todos.

O pecado gera desconfiança e divisão entre o homem e a mulher. A sua relação será espreitada por mil formas de prevaricação e de submissão, de sedução enganadora e de prepotência humilhante, até àquelas mais dramáticas e violentas. A história traz consigo as marcas. Pensemos, por exemplo, nos excessos negativos das culturas patriarcais. Pensemos nas múltiplas formas de machismo onde a mulher era considerada de segunda classe.

Pensemos na instrumentalização e mercantilização do corpo feminino na actual cultura mediática. Mas, pensemos, também, na recente epidemia de desconfiança, de cepticismo e, inclusivamente, de hostilidade que se difunde na nossa cultura – em particular a partir de uma compreensível desconfiança das mulheres – com respeito a uma aliança entre homem e mulher que, seja capaz, ao mesmo tempo, de afinar a intimidade da comunhão e de proteger a dignidade da diferença.

Se, não encontramos um sobressalto de simpatia por esta aliança, capaz de pôr as novas gerações ao abrigo da desconfiança e da indiferença, os filhos virão ao mundo, cada vez mais, afastados dela, desde o seio materno. A desvalorização social pela aliança estável e, geradora do homem e da mulher é, certamente, um prejuízo para todos.

Devemos revalorizar o casamento e a família! E, a Bíblia diz uma coisa muito bela: o homem encontra a mulher, eles encontram-se e, o homem deve deixar alguma coisa para a encontrar em plenitude. E, por isto, o homem deixará o seu pai e a sua mãe para ir com ela. É belo! Isto significa começar um caminho. O homem é todo para a mulher e a mulher é toda para o homem.

Portanto, a custódia desta aliança do homem e da mulher, ainda pecadores e feridos, confundidos e humilhados, desalentados e inseguros, para nós crentes é uma vocação árdua e apaixonante, na condição actual. A mesma descrição da criação e do pecado, no seu final, entrega-nos um ícono lindíssimo: “O Senhor Deus fez para o homem e para a sua mulher umas túnicas de peles e vestiu-os” (Gen 3, 21). É uma imagem de ternura para com aquele casal pecador que nos deixa de boca aberta: a ternura de Deus pelo homem e pela mulher. É uma imagem de protecção paternal do casal humano. O próprio Deus cuida e protege a sua obra-prima.

Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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