Colocado em 2015-05-30 In Francisco - Mensagem

A capacidade de ver e ouvir o sofrimento do seu povo

por redação•

 

O cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, presidiu no sábado 23 de maio, perante milhares de pessoas, à cerimónia de beatificação do arcebispo de San Salvador, D. Óscar Arnulfo Romero. O Papa Francisco, ao proclamá-lo beato, determinou que a sua festa será celebrada em 24 de março de cada ano, dia “em que nasceu para o céu”.

O Papa Francisco enviou uma carta ao arcebispo de San Salvador e presidente da Conferência Episcopal, monsenhor José Luis Escobar Alas, por ocasião da beatificação de D. Óscar Arnulfo Romero, de El Salvador. O Santo Padre partilha a “grande alegria” que vivem “os salvadorenhos” e acrescentou que monsenhor Romero, que construiu a paz com a força do amor, deu testemunho da fé com a sua vida dedicada ao extremo. Portanto, disse Francisco na sua carta, a sua beatificação é “motivo de grande alegria para os salvadorenhos e para nós, que beneficiamos com o exemplo dos melhores filhos da Igreja”.

Na sua carta, o Papa Francisco mencionou a particular atenção de Romero pelos “mais pobres e marginalizados”, para além das circunstâncias do seu martírio, assassinado enquanto celebrava missa na capela do hospital da Divina Providência. “E no momento da sua morte,enquanto celebrava o santo sacrifício do amor e da reconciliação, recebeu a graça de se identificar plenamente com Aquele que entregou a vida pelas suas ovelhas”.

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CARTA DO PAPA FRANCISCO
AO ARCEBISPO DE SAN SALVADOR
POR OCASIÃO DA BEATIFICAÇÃO
DE D.
 ÓSCAR ARNULFO ROMERO GALDÁMEZ

 

Excelentíssimo D. José Luís Escobar Alas
Arcebispo de São Salvador
Presidente da Conferência Episcopal de El Salvador

Prezado Irmão

A beatificação de D. Óscar Arnulfo Romero Galdámez, que foi Pastor da sua amada Arquidiocese, é motivo de grande alegria para os salvadorenhos e para nós, que beneficiamos do exemplo dos melhores filhos da Igreja. D. Romero, que construiu a paz com a força do amor, deu testemunho da fé com a sua vida dedicada até ao extremo.

O Senhor nunca abandona o seu povo nas dificuldades, mostrando-se sempre solícito para com as suas necessidades. Ele vê a opressão, ouve os clamores de dor dos seus filhos e vai ao seu encontro para os libertar da angústia e para os conduzir rumo a uma terra nova, fértil e espaçosa, que «mana leite e mel» (cf. Êx 3, 7-8). Como um dia escolheu Moisés a fim de que, em seu nome, guiasse o seu povo, assim continua a suscitar Pastores segundo o seu coração, a fim de que apascentem a sua grei com sabedoria e prudência (cf. Jr 3, 15).

Neste bonito país centro-americano, banhado pelo Oceano Pacífiico, o Senhor concedeu à sua Igreja um Bispo zeloso que, amando Deus e servindo os irmãos, se tornou a imagem de Cristo Bom Pastor. Em tempos de convivência difícil, D. Romero soube guiar, defender e proteger o seu rebanho, permanecendo fiel ao Evangelho e em comunhão com a Igreja inteira. O seu ministério distinguiu-se por uma atenção especial aos mais pobres e aos marginalizados. E no momento da sua morte, enquanto celebrava o Santo Sacrifício do amor e da reconciliação, recebeu a graça de se identificar plenamente com Aquele que entregou a vida pelas suas ovelhas.

Neste dia de festa para a Nação salvadorenha, e também para os países irmãos latino-americanos, damos graças a Deus porque concedeu ao Bispo mártir a capacidade de ver e de ouvir o sofrimento do seu povo e plasmou o seu coração a fim de que, em seu nome, o orientasse e iluminasse, a ponto de fazer do seu agir uma prática repleta de caridade cristã.

A voz do novo Beato continua a ressoar hoje para nos recordar que a Igreja, convocação de irmãos ao redor do seu Senhor, é a família de Deus, onde não pode haver divisão alguma. A fé em Jesus Cristo, rectamente entendida e vivida até às suas derradeiras consequências, gera comunidades artífices de paz e de solidariedade. A isto é chamada hoje a Igreja em El Salvador, na América e no mundo inteiro: a ser rica de misericórdia e a tornar-se fermento de reconciliação para a sociedade.

Romero convida-nos ao bom senso e à reflexão, ao respeito pela vida e à concórdia. É necessário renunciar à «violência da espada, do ódio», e viver «a violência do amor, que nos deixou Cristo pregado numa cruz, aquela que cada um deve fazer a si mesmo para vencer os próprios egoísmos e a fim de que não haja desigualdades tão cruéis entre nós». Ele soube ver e experimentou na sua própria carne «o egoísmo que se insinua em quantos não querem ceder o que é seu para alcançar os outros». E, com um coração de pai, preocupou-se com as «maiorias pobres», pedindo aos poderosos que transformassem «as armas em foices para o trabalho».

Quem considera D. Romero um amigo na fé, aqueles que o invocam como protector e intercessor, quantos admiram a sua figura possam encontrar nele a força e a coragem para edificar o Reino de Deus e para se comprometer a favor de uma ordem social mais equitativa e mais digna.

É o momento favorável para uma verdadeira reconciliação nacional diante dos desafios que se enfrentam hoje. O Papa participa nas suas esperanças e une-se às suas orações, a fim de que germine a semente do martírio e se fortaleçam nos caminhos autênticos os filhos e as filhas desta Nação, que se gloria de ter o nome do divino Salvador do mundo.

Estimado Irmão, peço-te por favor que rezes e faças rezar por mim, enquanto concedo a Bênção apostólica a todos aqueles que se unem de vários modos à celebração do novo Beato.

Fraternalmente,

Francisco

Vaticano, 23 de Maio de 2015

 

Original: Espanhol – Tradução introdução: Maria de Lurdes Dias, Lisboa, Portugal

 

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