Colocado em 28. Fevereiro 2020 In leigos e família

Para não nos resignarmos a uma Igreja de poucos

Entrevista a Lucía Abril e Javi Nieves, Instituto de Famílias de Schoenstatt, Espanha •

É a hora de vocês, de homens e mulheres comprometidos no mundo da cultura, da política, da indústria… que com o seu modo de viver sejam capazes de levar a novidade e a alegria do Evangelho onde quer que estejam” lê-se na mensagem enviada através do Cardeal Ricardo Blázquez Pérez, Presidente da Conferência Episcopal Espanhola, ao Congresso Nacional dos Leigos, que se realizou em Madrid (Espanha) de 14 a 16 de Fevereiro, com o tema: “Povo de Deus em saída”. A sua mensagem ao Congresso, no qual participam cerca de 16 schoenstatteanos de Espanha, vai no mesmo sentido do discurso do dia 25 de Janeiro, à Rota Romana, que há algum tempo nos move e desperta intercâmbios enriquecedores. —

Um dos oradores do Congresso de Leigos em Madrid (ES) foi Javi Nieves, jornalista da rede COPE, que nos aconselhou sobre o relançamento de schoenstatt.org em 2015; juntamente com a sua esposa, Lúcia Abril, membros do Instituto das Famílias de Schoenstatt. Estamos muito gratos por poder entrevistar ambos sobre alguns dos temas do discurso do Papa Francisco, o papel dos leigos e o papel dos casais na Pastoral de hoje e o que o Espírito Santo desperta no Povo de Deus durante estes dias.

 

Javi Nieves (à direita) no Congresso Nacional de Leigos em Madrid, Espanha, 16/2/2020

 

O Papa Francisco uma vez mais (no seu discurso à Rota Romana) enfatiza a importância do “trabalho pastoral do catecumenado pré e pós-matrimonial”. Além disso, salienta que faz falta que os casais se encarreguem desta Pastoral. Qual é a vossa experiência? A responsabilidade dos casais pela Pastoral de Noivos é algo habitual no vosso ambiente, ou mesmo uma coisa única ou rara?

Concordamos plenamente que é necessário que haja casais que se encarreguem deste trabalho pastoral. Em Schoenstatt, graças a Deus, os casais têm uma grande presença e é muito comum que trabalhem, tanto na pastoral de noivos como na dos jovens casais. Na nossa paróquia também encontramos muitos casais que trabalham nestas duas áreas

Quais são as reacções dos noivos ou dos jovens casais ao estarem com um casal ou casais na Pastoral pré-matrimonial?

O facto de os casais poderem encarregar-se dos grupos para noivos ou jovens casais é algo que é muito enriquecedor. A nossa experiência foi maravilhosa nesse sentido, pois se oferece uma visão muito real do casamento, ajudando-os a sentir que podem realmente ser felizes no seu casamento. É uma realidade que, hoje em dia, o casamento está muito desvirtuado, e poder encontrar casais felizes, unidos e que souberam superar as dificuldades através do amor, é muito estimulante.

No seu discurso à Rota Romana, o Santo Padre, a partir do exemplo do casamento de Priscilla e Áquila, diz que “os casais, que o Espírito certamente continua a encorajar, devem estar prontos “a sair de si mesmos e a abrir-se aos outros, a viver a proximidade, o estilo de viver juntos, que transforma toda relação inter-pessoal numa experiência de fraternidade”. Como é vivida essa atitude no trabalho apostólico que vocês fazem como casais?

Pensamos que o nosso apostolado começa na nossa família. E daí saímos para o mundo para dar testemunho, para oferecer aquela experiência de família que Deus nos deu. Às vezes é difícil “sair de nós mesmos e abrirmos-nos aos outros”, mas a verdade é que não podemos guardar este tesouro que Deus nos deu! Não somos muito “faladores”, é difícil para nós expressar, em palavras, a grandeza do amor de Deus. Mas acreditamos que a melhor maneira de convencer o mundo é através do apostolado do ser, tentando estar perto dos outros, entregando-nos aos outros onde quer que estejamos, seja no trabalho, na paróquia, no Movimento… onde quer que Deus nos queira levar.

Às vezes é um trabalho muito exigente, porque envolve “dividir-se” (trabalho, família, paróquia, grupo…) e estar em movimento e trabalhar constantemente. É nestes momentos que a nossa união com Deus, a nossa vida espiritual, deve ser mais intensa, para não cairmos num activismo sem sentido, para enchermos de vida o trabalho e para colocarmos nas Suas mãos tudo o que Ele nos confiou (grandes tarefas sobre ombros fracos).

“A Igreja é enviada para levar o Evangelho para as ruas e para alcançar as periferias humanas e existenciais. Faz-nos lembrar o casamento de Aquila e Priscilla”, diz Francisco aos Bispos e pastores. Pela vossa experiência: Porquê e como é que os casais levam melhor do que outros, o Evangelho para as ruas?

Porquê e como é que eles alcançam melhor as periferias humanas?

¡É um desafio que temos de aceitar! Temos de chegar a todos! Às vezes estamos muito confortáveis com nosso grupo ou “o nosso povo”, mas não podemos simplesmente ficar ali parados. Temos de apostar na vida para além do nosso mundo imediato. Quanto a como podemos fazer isto, acreditamos que devemos colocar-nos ao serviço das Paróquias, que devemos ter sempre um olhar limpo e misericordioso para com o outro, que ele ou ela se sinta amado e acolhido na sua realidade. Nós, casais temos mais facilidade porque com o nosso parceiro já temos aquela experiência de amor incondicional. A família é uma escola de amor neste sentido, em acolher o outro na sua originalidade e amá-lo com tudo o que é…

Casais em movimento “é o que as nossas paróquias precisariam, especialmente em áreas urbanas, onde o pároco e seus colaboradores clericais nunca terão tempo ou força para chegar aos fiéis que, embora se declarem cristãos, não frequentam os sacramentos e estão privados, ou quase privados, do conhecimento de Cristo”, diz Francisco. Quais são as experiências que vocês têm nesta área?

A nossa experiência é que os párocos estão de facto muito sós no seu trabalho nas paróquias. Eles precisam de nós para poderem chegar a tudo e a todos. Na nossa antiga paróquia, o pároco era o responsável por várias paróquias. O pobre homem fazia o que podia, mas a realidade era que precisava dos leigos para o ajudarem na catequese, nos grupos de preparação para o matrimónio, como ministros da comunhão… e para os outros leigos, o ver que havia pessoas que davam o seu tempo e o seu amor livremente, movia-os e chamava-os a dar algo mais. Na nossa actual paróquia, sentimos também a necessidade de estar presentes para o que for necessário.

Que outro aspecto do discurso vos faz pensar no vosso trabalho, em modo de confirmação ou exigência?

Para nós, a seguinte afirmação move-nos a colocar-nos nas mãos de Deus e a sermos dóceis à acção do Espírito Santo:

“Por conseguinte, permiti que o Espírito nos renove, para não nos resignarmos com uma Igreja de poucos, como se ele quisesse permanecer apenas um fermento isolado, privado daquela capacidade dos esposos do Novo Testamento de se multiplicarem em humildade e obediência ao Espírito. O Espírito que ilumina e é capaz de tornar salvífica a nossa actividade humana e a nossa pobreza; é capaz de tornar salvífica qualquer actividade nossa; convictos de que a Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração — o testemunho destas pessoas atrai — e assegurando sempre e contudo a marca do testemunho”.

 Original: espanhol (17/2/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

 

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