Colocado em 2020-04-14 In A Aliança de Amor Solidaria em tempos de coronavírus, Francisco - iniciativos e gestos

Sexta-feira Santa em liberdade?

Claudio Ardissone, Asunción, Paraguai•

Esta Sexta-feira Santa foi diferente, especial e muito forte. Nunca tinha passado uma Semana Santa fechado na minha casa, em quarentena, sem poder sair e participar nas celebrações d a Paróquia. —

Como muitos, se não todos, tivemos de nos contentar em viver as celebrações através das redes sociais, dos canais digitais e da televisão, recebendo virtualmente os sacramentos, apelando às nossas consciências mais íntimas para nos sentirmos perdoados nas celebrações penitenciais e para estarmos em graça.

Neste tempo, temos medo do contágio, desta pandemia que ceifa centenas de milhares de vidas, de causar desastres nas nossas comunidades, de perder os nossos entes queridos. O medo de que a economia nos atinja duramente, que nos deixe sem trabalho, sem rendimentos, que não nos permita produzir, que desequilibre os nossos fluxos de caixa, que nos obrigue a reduzir o tamanho das nossas organizações. Um medo que paralisa quase completamente o mundo inteiro. E de onde vem este medo?

Fiquei a pensar que pode vir das nossas origens íntimas, onde temos os nossos pudores, onde a nossa moral e ética estão vivas, onde as nossas consciências nos desafiam com a realidade e o nosso propósito na vida, o nosso Ideal Pessoal.

 

Um beco de espelhos

A Via-Sacra para a qual o Papa Francisco nos convidou era como um corredor cheio de espelhos. À direita vi todas as minhas liberdades, desfrutei da democracia, do mercado livre, do trabalho, do entretenimento, dos prazeres da vida, da família, da religião, e muito mais. À esquerda, vi aqueles que me estavam a contar as suas histórias: As vítimas de crimes que tiveram os seus sorrisos arrancados do rosto, arrancados dos seus entes queridos, marcaram as suas vidas com feridas que nunca sararam completamente; e as pessoas que cometeram esses crimes, que admitiram ter descido às profundezas insondáveis da escuridão, que arrastaram as suas famílias, que perderam os seus nomes, que fizeram muito mais mal do que receberam e que acabaram na prisão, cumprindo as suas penas e, em alguns casos, cumprindo uma pena que não era a sua.

Esse beco dos espelhos fez-me bater com o rosto contra a realidade: vivemos em liberdade, mas neste momento não podemos vivê-la completamente. Somos prisioneiros nas nossas casas porque temos medo do mais pequeno representante dos seres vivos do planeta, um vírus.

Entre os testemunhos, havia também Cireneus e Verónicas, que ajudam a carregar as cruzes dos outros e a enxugar as lágrimas do sofrimento daqueles que são privados da sua liberdade e da das vítimas. Perguntei-me: sou eu também, em algum momento, aquele Simão de Cirene ou aquela Verónica que ajuda os outros e que dedica tempo e recursos a enxugar as lágrimas dos que sofrem? Que dureza! Acho que não faço o suficiente.

 

Tomar o caminho do “Schoenstatt em Saída”

É mais fácil “preparar-se e formar-se” para ser um bom schoenstatteano, que conhece e compreende bem a essência kentenichiana do Movimento, para seguir um itinerário de formação, para dar belas palestras, do que para seguir o caminho de “Schoenstatt em Saída” do qual tanto temos falado ultimamente. O Padre Kentenich tinha uma ideia clara de que deveríamos ser apostólicos, deveríamos estar ao serviço dos mais necessitados, deveríamos estar em “movimento” e isto, a mim, desafia-me profundamente.

O Papa Francisco levou-nos hoje (Sexta-feira Santa) a um breve passeio pela periferia humana, mostrou-nos as misérias que se vivem lá fora, penso que, com o objectivo claro de compreendermos que o nosso propósito na vida deve ser o de ajudar os outros, misturando-nos, como os sacerdotes, com o rebanho, porque fazemos parte do rebanho, não somos especiais nem de outra espécie, somos abençoados por Deus para nos tornarmos cireneus e verónicas.

O Papa Francisco, com mais uma das suas “franciscanadas”, mostra-nos o caminho da “violência suave” de que falou o Pe. José Kentenich, para que nos apressemos a sair ao caminho e decidamos imediatamente tomar o caminho de saída, que possamos entrar em acção e pôr-nos em movimento.

Claudio Ardissone , 10/4/2020

Texto integral da Via-Sacra 2020

 

Original: espanhol (11/4/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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