Colocado em 29. Dezembro 2019 In Francisco - iniciativos e gestos, Francisco - Mensagem

Olhando para este colete salva-vidas e olhando para a Cruz

PAPA FRANCISCO COM OS MIGRANTES, redacção •

No final das audiências, no dia 19 de Dezembro, poucos dias antes do Natal, o Santo Padre Francisco encontrou-se com os refugiados que tinham chegado recentemente de Lesbos graças aos corredores humanitários e mandou colocar uma cruz na entrada do Palácio Apostólico no Pátio del Belvedere, em memória dos migrantes e refugiados. —

Francisco quis encontrar-se com os 33 refugiados recebidos pelo Vaticano graças à mediação da Esmolaria papal e da Comunidade de Sant’Egidio.

O lugar é emblemático: por aqui entram os chefes de Estado para as suas audiências com o Papa.

Francisco escreveu no seu Instagram e no Twitter que tinha decidido “expor este colete salva-vidas, ‘crucificado’, para lembrar a todos o compromisso ineludível de salvar todas as vidas humanas”, porque a vida de cada pessoa “é preciosa aos olhos de Deus”. “O Senhor nos chamará à responsabilidade no momento do julgamento”, disse ele.

 

A seguir, publicamos o discurso que o Papa dirigiu aos presentes durante o encontro:

Discurso do Santo Padre

Este é o segundo colete salva-vidas que recebo de presente. O primeiro foi-me dado há alguns anos por um grupo de socorristas. Pertencia a uma menina que se afogou no Mediterrâneo. Dei-o aos dois Sub-Secretários da Secção de Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral. Disse-lhes: “Esta é a vossa missão!” Com isto quis sublinhar o compromisso ineludível da Igreja de salvar a vida dos migrantes, para que possam ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados.

Este segundo colete, entregue por outro grupo de socorristas há poucos dias, pertenceu a um migrante que desapareceu no mar em Julho passado. Ninguém sabe quem ele era ou de onde vinha. Sabe-se apenas que o seu colete foi encontrado à deriva no Mediterrâneo central a 3 de Julho de 2019, em certas coordenadas geográficas. Estamos diante de outra morte causada pela injustiça. Sim, porque é a injustiça que obriga muitos migrantes a deixar as suas terras e os faz morrer no mar.

O colete “veste” uma cruz de resina colorida, que se destina a expressar a experiência espiritual que captei nas palavras dos socorristas. Em Jesus Cristo a cruz é a fonte da salvação, “loucura para aqueles que se perdem”, diz São Paulo, “mas para aqueles que se  salvam, é o poder de Deus” (1 Cor 1, 18). Na tradição cristã, a cruz é um símbolo de sofrimento e sacrifício e, ao mesmo tempo, de redenção e salvação.

Decidi mostrar aqui este colete salva-vidas, “crucificado” nesta cruz, para nos lembrar que devemos ter os olhos abertos, os corações abertos, para lembrar a todos o compromisso imperativo de salvar cada vida humana, um dever moral que une crentes e não-crentes.

Esta cruz é transparente: representa um desafio para olhar mais de perto e procurar sempre a verdade. A cruz é fluorescente: quer encorajar a nossa fé na Ressurreição, o triunfo de Cristo sobre a morte. Até o imigrante desconhecido, que morreu na esperança de uma nova vida, partilha desta vitória. Os trabalhadores da assistência disseram-me como estão a aprender a humanidade com as pessoas que conseguem salvar. Revelaram-me como, em cada missão, redescobrem a beleza de sermos uma grande família humana, unida na fraternidade universal.

Decidi mostrar aqui este colete salva-vidas, “crucificado” nesta cruz, para nos lembrar que devemos ter os olhos abertos, os corações abertos, para lembrar a todos o compromisso imperativo de salvar cada vida humana, um dever moral que une crentes e não-crentes.

Como podemos deixar de ouvir o grito desesperado de tantos irmãos e irmãs que preferem enfrentar um mar tempestuoso, do que morrer lentamente em campos de detenção líbios, lugares de tortura e de escravatura ignóbil? Como podemos ficar indiferentes aos abusos e violências de que são vítimas os inocentes, deixando-os à mercê de traficantes sem escrúpulos? Como podemos “dar a volta”, como o sacerdote e o levita na parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 31-32), tornando-nos responsáveis pelas suas mortes? A nossa preguiça é um pecado!

Agradeço ao Senhor por todos aqueles que decidiram não ficar indiferentes e que se esforçam ao máximo para ajudar o infeliz, sem se fazerem muitas perguntas sobre como ou porquê de se terem deparado com aquele pobre homem meio-morto no seu caminho. Não se resolve o problema bloqueando os barcos. Devemos  comprometer-nos seriamente em esvaziar os campos de detenção na Líbia, avaliando e implementando todas as soluções possíveis.

Devemos denunciar e perseguir os traficantes que exploram e maltratam os migrantes, sem medo de se revelar conivência e cumplicidade com as instituições. Os interesses económicos devem ser postos de lado para que a pessoa, cada pessoa, cuja vida e dignidade são preciosas aos olhos de Deus, esteja no centro. Devemos ajudar e salvar, porque todos somos responsáveis pela vida do nosso próximo, e o Senhor nos pedirá que prestemos contas disso no dia do julgamento. Obrigado.

Agora, olhando para este colete e olhando para a cruz, deixemos que cada um reze em silêncio.

O Senhor vos abençoe a todos.

Fotos e vídeo: Gentileza  Vatican Media

Original: espanhol (22/12/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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