Colocado em 2016-04-27 In Francisco - iniciativos e gestos, Francisco - Mensagem

Os refugiados não são números, mas pessoas com rostos, nomes e histórias…

Por María Fischer •

O Papa Francisco regressou no sábado, 16 de Abril, da sua 13ª viagem apostólica, desta vez à ilha de Lesbos, na Grécia. Como é habitual, ao terminar cada uma destas viagens e, antes de regressar ao Vaticano, o Santo Padre dirigiu-se à Basílica de Santa Maria Maior para agradecer a Nossa Senhora, a Salus Populi Romani, a Sua proteção durante a viagem. Antes de partir para Lesbos, na sexta-feira, também foi à Basílica para pedir por esta curta e tão importante viagem. O Papa “enquadra” cada uma das suas viagens apostólicas, com estas visitas a Maria, mas desta vez, com esta visita aos refugiados em Lesbos, este acento mariano é uma mensagem: a Igreja é Mãe, como Maria, Mãe dos mais vulneráveis e mais abandonados.

“O Papa vai a Lesbos, e então? Não há muito tempo, esta decisão teria impressionado dentro e fora da Igreja, os media ter-se-iam virado sagazes sobre ela e, as pessoas comentá-la-iam no mercado como um imprevisto da vida”, diz o Pe. J. Ignacio Calleja, sacerdote espanhol e membro da Justiça e Paz. Francisco é capaz disto e muito mais, mas a nossa cultura da comunicação instantânea digere as surpresas com a mesma facilidade com que passam as imagens dum vídeo… Francisco vai à ilha de Lesbos visitar os refugiados para lembrar à Europa que essa gente são pessoas, que a esmagadora maioria estão lá por razões de extrema necessidade deles e dos seus filhos e, que a Europa reconhece um Direito Internacional que há que cumprir e uma obrigação de solidariedade com a qual interpretar esse Direito e as políticas consequentes. Para compreender Francisco, é necessário reconhecer que, por mais falhas que a Igreja tenha, e tem muitas, este homem e esta Instituição exigem que seja trazido ao âmago da Europa, ao coração das suas políticas e dos seus cidadãos, a comoção visceral pelo sofrimento das vítimas da qual parte uma convivência moral justa”.

Nem todos somos capazes de acolher refugiados, mudar o rumo político, dar de comer e de beber aos que estão presos atrás de muros e de arame farpado. Mas podemos rezar por eles e sim, chorar. Ecoa a pergunta do Papa Francisco em Lampedusa: Quem de nós chorou pelas crianças, pelos jovens, pelos homens e mulheres afogados?

Quem sou eu, para que venha a mim a Mãe do meu Senhor?”

“Os refugiados não são números, mas pessoas com rostos, nomes e histórias e, devem ser tratados como tal”, disse aos seus seguidores no Twitter, nesse mesmo 16 de Abril e, disse-o com a sua viagem e com as suas palavras e, mais ainda com os seus gestos desse dia, pois não foi a Lesbos para fazer sermões ou para dar conferências, mas para consolar os refugiados com a sua presença, para os honrar como seres humanos dignos da visita dum Papa, dum Bom Pastor. “Os políticos não vão a um evento se não se lhes dá a possibilidade de pronunciarem um discurso”, é uma lição básica para todos os que começam a sua carreira em Relações Públicas. Em geral, isto também é válido para as autoridades eclesiásticas e, até para os Assessores do Movimento de Schoenstatt. Um facto que, possivelmente, toca algo do mais profundo da “magia” das missões e da Campanha da Mãe Peregrina: estas visitas desinteressadas, sem querer brilhar, sair nos media ou conquistar seguidores, estas visitas que repetem aquela visita de Maria à sua prima Isabel e que, pelos séculos dos séculos provocam a sua pergunta cheia de assombro: “Quem sou eu para que venha a mim a Mãe do meu Senhor?”

Uma obra de misericórdia

O que foi a visita de Francisco a Lesbos? Um acto político, um acto profético, um acto de justiça, de solidariedade, um apelo às Instituições políticas da Europa, um grito para acordar os Homens de boa vontade que estão adormecendo e anestesiando-se com o seu muito trabalho e os seus múltiplos interesses que, não se comovem com o acontece à porta das suas casas?

Antes de mais, foi uma obra de misericórdia.

“Predicar com o exemplo. Isso fez o Papa, no dia 16 de Abril, com a sua viagem relâmpago à ilha de Lesbos, no mar Egeu que, desde, o encerramento da fronteira entre a Grécia e a Macedónia e um questionável acordo entre a União Europeia (EU) e a Turquia se converteu num limbo virtual para milhares de refugiados”, comenta a correspondente de La Nación no Vaticano, Elisabetta Piqué. “Numa decisão que surpreendeu o mundo e numa jogada política audaciosa, Francisco levou com ele para Roma, no voo papal, três famílias sírias. Doze refugiados ao todo, seis adultos e seis menores, aos quais o Vaticano ajudará a reerguerem as suas vidas longe das bombas que destruíram as suas casas. A acção do Papa significou uma chamada de atenção à classe política dirigente europeia, incapaz de enfrentar a pior catástrofe humanitária desde a Segunda Guerra Mundial2.

Foi uma obra de misericórdia, foi um apelo, resumido num artigo dum jornal. “Escutar a sua voz, seguir os seus passos”.

Com a obra de misericórdia cumprida, com estes refugiados, com os milhares que há em Lesbos e os doze que levou para o Vaticano, realiza-se um acto profético, político e solidário, com uma mensagem tão simples como desafiadora: sim, pode-se! Se não podemos salvar milhares, salvemos doze. E, mais: se não podemos regatar os refugiados, salvemos os que pudermos: as crianças das ruas, os idosos abandonados, as famílias sem casa ou os jovens sem trabalho…

Uma oração para rezarmos com o Papa Francisco

Deus de misericórdia,
pedimo-Vos por todos os homens, mulheres e crianças,
que morreram depois de ter deixado as suas terras
à procura duma vida melhor.

Embora muitos dos seus túmulos não tenham nome,
cada um é conhecido, amado e querido por Vós.
Que nunca sejam esquecidos por nós, mas possamos honrar
o seu sacrifício mais com as obras do que com as palavras.

Confiamo-Vos todos aqueles que realizaram esta viagem,
suportando medos, incertezas e humilhações,
para chegar a um lugar seguro e esperançoso.

Como Vós não abandonastes o vosso Filho
quando foi levado para um lugar seguro por Maria e José,
assim agora mantende-Vos perto destes vossos filhos e filhas
através da nossa ternura e proteção.

Fazei que, cuidando deles, possamos promover um mundo
onde ninguém seja forçado a deixar a sua casa
e onde todos possam viver em liberdade, dignidade e paz.

Deus de misericórdia e Pai de todos,
acordai-nos do sono da indiferença,
abri os nossos olhos às suas tribulações
e libertai-nos da insensibilidade,
fruto do bem-estar mundano e do confinamento em nós mesmos.

Dai inspiração a todos nós, nações, comunidades e indivíduos,
para reconhecer que, quantos atingem as nossas costas,
são nossos irmãos e irmãs.

Ajudai-nos a partilhar com eles as bênçãos
que recebemos das vossas mãos
e a reconhecer que juntos, como uma única família humana,
somos todos migrantes, viajantes de esperança rumo a Vós,
que sois a nossa verdadeira casa,
onde todas as lágrimas serão enxugadas,
onde estaremos na paz, seguros no vosso abraço.

Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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