politica buena

Colocado em 2021-10-07 In Fratelli Tutti

Fratelli tutti, uma abordagem do ponto de vista político

Carlos E. Ferré, Argentina, Geração Francisco •

Um ano após a apresentação da Encíclica Fratelli tutti, tentarei abordar este documento do Papa Francisco de um ponto de vista político. —

Laudato Si’: um plano estratégico

Ao lançar a sua Encíclica Laudato Si’, Francisco pretendia dar uma contribuição que, constituísse uma alternativa à gravíssima crise ecológica e socio-económica em que o sistema de uma economia globalizada mergulhou o planeta. Laudato Si’ é um plano estratégico para a Humanidade. Propõe como objectivo fundamental desenvolver uma volta copérnica no rumo a que as potências mundiais estão a conduzir os povos e qualifica-a como a necessidade de produzir uma revolução cultural (Laudato Si’, 114). Tal processo revolucionário deve começar com uma resistência ao paradigma tecnocrático, ao antropocentrismo desviante e ao relativismo prático. Além disso, sugere que, para o conseguir, é necessária uma verdadeira mudança de opinião.

Tendo feito a proposta, ele estabelece as condições necessárias para que a transformação que, faz falta seja bem sucedida. Francisco sugere que, para tal, é necessária uma perspectiva diferente, uma forma diferente de pensar, uma política diferente, um paradigma educacional diferente e um modo de vida diferente. Em documentos subsequentes, elaborou sobre a forma como estes objectivos podem ser alcançados.

Fratelli Tutti: uma proposta para uma “política melhor”

Em Fratelli Tutti, Francisco desenvolve uma doutrina sobre o significado de uma política diferente. Isto está presente em todo o documento e especificamente no quinto capítulo, a que ele chama “A política melhor”.

Além disso, e para que não possa haver dúvidas sobre a natureza transcendente da sua abordagem, ele usa um verbo que dá uma orientação do processo que propõe: “recomeçar”. Isto aprofunda o sentido da mudança a fim de evitar uma possível recuperação do sistema prevalecente, nas suas diferentes manifestações. Por um lado, os que enfatizam o Estado; por outro, os que enfatizam o mercado, ambos excluindo o papel protagonista que corresponde ao povo.

Construção da comunidade a partir da solidariedade

No documento pontifício, podemos encontrar objectivos operacionais concretos e definições teóricas precisas. Entre as primeiras, destacamos as seguintes:

Colocar no centro da acção política a construção da comunidade. Sobre o tema da centralidade deste objectivo, ele afirma: “A política melhor procura caminhos de construção de comunidade nos diferentes níveis da vida social, a fim de reequilibrar e reordenar a globalização para evitar os seus efeitos desagregadores”. (Fratelli tutti, 182)

Para atingir este objectivo, descreve um método de construção do poder popular, que expresse a sua soberania.

Enfatiza a solidariedade como o principal instrumento. Propõe um método de construção de poder ao serviço do povo. Encoraja todos a envolverem-se na construção de uma nova forma de institucionalidade democrática que, vá além dos limites actuais da democracia formal:”Cada dia é-nos oferecida uma nova oportunidade, uma etapa nova. Não devemos esperar tudo daqueles que nos governam; seria infantil. Gozamos dum espaço de corresponsabilidade capaz de iniciar e gerar novos processos e transformações… é preciso apenas o desejo gratuito, puro e simples de ser povo, de ser constantes e incansáveis no compromisso de incluir, integrar, levantar quem está caído…” (FT, 77)

O popular e o populismo

No que diz respeito às definições conceptuais, a diferença substancial entre popular e populismo deve ser realçada. Esta diferença é desenvolvida nos parágrafos 157 e 158, salientando que” Mas a pretensão de introduzir o populismo como chave de leitura da realidade social contém outro ponto fraco: ignora a legitimidade da noção de povo”. E acrescenta “ Contudo, para afirmar que a sociedade é mais do que a mera soma de indivíduos, necessita-se do termo «povo». “A verdade é que há fenómenos sociais que estruturam as maiorias, existem megatendências e aspirações comunitárias; além disso, pode-se pensar em objetivos comuns, independentemente das diferenças, para implementar juntos um projeto compartilhado; enfim, é muito difícil projetar algo de grande a longo prazo, se não se consegue torná-lo um sonho coletivo. Tudo isto está expresso no substantivo «povo» e no adjetivo «popular».

De acordo com o anteriormente exposto, o Papa define o populismo como a acção” …quando se transforma na habilidade de alguém atrair consensos a fim de instrumentalizar politicamente a cultura do povo, sob qualquer sinal ideológico, ao serviço do seu projeto pessoal e da sua permanência no poder. Outras vezes, procura aumentar a popularidade fomentando as inclinações mais baixas e egoístas dalguns setores da população”. (FT; 159)

O que é o povo?

Também redefine, com crescente precisão, o conceito do povo como sujeito de transformação e como pessoa cuja humanização está cada vez mais de acordo com o conceito de comunidade organizada.

No que respeita ao conceito de povo insiste em que: “«Povo não é uma categoria lógica, nem uma categoria mística, no sentido de que tudo o que faz o povo é bom, ou no sentido de que o povo seja uma entidade angelical. É uma categoria mítica. (…) Quando explicas o que é um povo, recorres a categorias lógicas porque precisas de o descrever: é verdade, elas são necessárias. Mas, deste modo, não consegues explicar o sentido de pertença a um povo; a palavra povo tem algo mais que não se pode explicar logicamente. Pertencer a um povo é fazer parte duma identidade comum, formada por vínculos sociais e culturais. E isto não é algo de automático; muito pelo contrário: é um processo lento e difícil… rumo a um projeto comum». (FT, 158,132) E, acrescenta “De facto, a categoria «povo» é aberta. Um povo vivo, dinâmico e com futuro é aquele que permanece constantemente aberto a novas sínteses assumindo em si o que é diverso. E fá-lo, não se negando a si mesmo, mas com a disposição de se deixar mover, interpelar, crescer, enriquecer por outros; e, assim, pode evoluir”. (FT, 160)

A relação com o adágio de que “ninguém se realiza numa comunidade que não se realiza” é óbvia: “Cada pessoa é plenamente uma pessoa quando pertence a um povo, e ao mesmo tempo não há pessoas verdadeiras sem respeito pelo rosto de cada pessoa. Povo e pessoas são termos correlativos”.

E para que não haja dúvidas de que ele se está a diferenciar da “política que se usa”, acrescenta: “Que outros continuem a pensar na política ou na economia para os seus jogos de poder. Vamos alimentar o bem e pôr-nos ao serviço do bem”.

Como construir a “boa política”

Para conseguir tudo isto, Francisco estabelece um itinerário que eu tentarei resumir em dez pontos:

  1. Sonhar juntos. Uma proposta que recupera o sentido épico da missão. Fala da necessidade de fazer da nossa vida uma bela aventura e da necessidade de conceber em conjunto novos modelos de democracia e organização social, a fim de construir um “nós” que habita a casa comum.
  2. Diz que se trata de uma tarefa artesanal, um a um, corpo a corpo.
  3. Começar pelos “últimos”. Trazer a periferia para o centro. Cuidar a fragilidade dos povos e dos indivíduos.
  4. Ser portadores de esperança. Sublinhar que os instrumentos a utilizar são a solidariedade, o amor político, a ternura, o diálogo e um sentido de comunidade.
  5. Para ter em conta o local e o global.
  6. Favorecer a fecundidade sobre o sucesso. Os grandes objectivos são sempre parcialmente atingidos.
  7. Confiar no povo. Manter esta confiança acima de qualquer outro artifício político.
  8. Ter sempre em mente que a política é uma acção concreta inspirada pelo ditado que diz que “o facto é superior à ideia”.
  9. Ter sempre em mente que o objectivo do trabalho é alcançar um bem para todos. E isto tem a ver directamente com a dignidade da pessoa. A economia também deve ser conduzida da mesma forma, rejeitando abusos de poder e de corrupção.
  10. Procurar o consenso. Isto deve ser feito através do diálogo inter-disciplinar, procurando sempre a verdade e recuperando a memória.

Discernimento pessoal dos que procuram exercer uma “política melhor”

Finalmente, ele sugere uma espécie de guia de discernimento pessoal para activistas políticos. Sugere o questionamento frequente dos fins e dos meios utilizados.

Alguns devem perguntar-se de vez em quando: “Para quê? O que é que eu realmente pretendo? “Porquê? Após alguns anos, reflectindo sobre o próprio passado, a questão será: “Quantos me aprovaram, quantos votaram em mim, quantos tiveram uma imagem positiva de mim?

As questões mais dolorosas serão, talvez: Quanto amor pus no meu trabalho? Quanto fiz avançar o povo? Que marca deixei na vida da sociedade? Que laços reais construí? Que forças positivas libertei? Quanta paz social semeei? O que trouxe ao lugar que me foi confiado?

Síntese: a pessoa é o centro da “política melhor”

Para concluir e a título de síntese, o Papa Francisco resume a procura da realização de “políticas melhores” através da proposta de objectivos e acções concretas com uma declaração: ” há que fazer o que for preciso para salvaguardar o estatuto e a dignidade da pessoa humana” (FT, 186).


Carlos Eduardo Ferré, advogado, argentino, director editorial do Círculo de Legisladores, antigo deputado em dois mandatos e coordenador da Rede de Leigos “Geração Francisco” da Argentina, membro do Movimento de Schoenstatt, colunista de schoenstatt.org.

Fonte: Kairos News (www.kairosnews.info), com autorização do autor e dos editores

Original: espanhol (6/10/2021). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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