Catedral de La Plata

Colocado em 21. Julho 2019 In Dilexit ecclesiam

Santuarizar a Catedral de La Plata

ARGENTINA, Pe. Jorge González / Maria Fischer •

Estamos sentados num canto muito iluminado, em frente à sala do novo Pároco da Catedral de La Plata, Pe. Jorge González, da União dos Sacerdotes da Argentina. Ele assumiu a sua nova posição há algumas semanas e já está em processo de “santuarização da catedral”, como diz, em referência à famosa expressão do Cardeal Bergoglio, hoje Papa Francisco. Sem o ter planeado, Maria Teresa, Daniel Martino e eu testemunhámos hoje um dos primeiros momentos da conversão da Catedral em Santuário. Depois da Missa no camarim da Catedral, ao meio-dia, o Santíssimo Sacramento foi solenemente exposto para Adoração durante a tarde. É a presença de Jesus que “santuariza”, diz o Pe. Jorge, e queremos saber mais sobre os seus planos para santuarizar este lugar santo e emblemático que lhe foi confiado.

 

Catedral de La Plata

“Quando cheguei aqui, a minha atitude, a nível pessoal, foi dar graças a Deus pelo que significou a vida na comunidade anterior em que estive, em City Bell, mas também cortá-la interiormente. Foi uma graça da Mãe Santíssima. Desde o dia em que soube que vinha para cá, assim que me disseram, custou-me muito. Foi como uma rejeição interior, porque já estava instalado ali, eu tinha feito muito no lugar, nas pessoas, na escola de Schoenstatt. Tudo estava montado, digamos, tínhamos uma Paróquia linda e eu sabia que vir para aqui era chegar a um lugar mais difícil. Agora tudo parece bonito mas, a primeira semana foi caótica e não havia ninguém aqui. Bem, foi difícil.

Vim com duas ou três ideias, que são as que estou a trabalhar actualmente, como a do trabalho pastoral”.

Resgatar a dimensão pastoral da Catedral

“Uma iniciativa foi a de santificar algum espaço na Catedral. Na realidade, a primeira ideia que tive foi resgatar a dimensão pastoral da Beata Maria Ludovica.

A Beata Irmã Maria Ludovica de Angelis nasceu em San Gregorio, uma pequena cidade nos Montes Abruzzo, não muito longe da cidade de L’Aquila, Itália, em 1880. Entrou nas Filhas da Misericórdia em 14 de Novembro de 1904 e foi enviada para a Argentina nesse mesmo dia. Iniciou a sua vida missionária no Hospital Infantil de La Plata, que hoje tem o seu nome e do qual foi directora até à sua morte. Morreu em La Plata em 1962, aos 82 anos. Os seus restos mortais encontram-se na Catedral de La Plata. Maria Ludovica de Angelis foi beatificada pelo Papa João Paulo II no dia 3 de Outubro de 2004.

“Temos aqui uma capela com as relíquias de Ludovica, mas não havia nada desenvolvido em torno da sua pessoa. Já temos uma equipa pastoral e reunimo-nos duas vezes com cerca de 30 pessoas, ligadas ao Hospital Pediátrico, ao Colégio da Misericórdia e a outros voluntários da cidade, e começámos a trabalhar. A capela já tem uma arca onde as pessoas podem deixar os seus pedidos, por exemplo. Coloquei umas poltronas de madeira, porque não havia lugar para se sentarem e rezarem. Também começámos a trabalhar com as crianças e agora temos uma Missa mensal todos os dias 25, e quando a Missa termina vamos à capela, abençoamos as crianças e ungimos os doentes, as crianças doentes, porque Ludovica está ligada à figura das crianças doentes. Começámos a fazer algumas publicações maciças de novenas e de estampas. A ideia é que isto cresça, pois o contacto com este lugar é importante”.

 

Sair da cripta

“Outra coisa agora é dar uma dimensão mais espiritual à Catedral. Hoje, por exemplo, começámos com a Adoração dentro da Catedral. Tentámos utilizar mais a parte superior da Catedral, uma vez que existe outra igreja em baixo que é utilizada com mais frequência. Por causa do movimento das pessoas que vinham ao culto, fazia-se lá em baixo, mas ninguém sabia o que estava a acontecer. Agora celebramos a Missa do meio-dia lá em cima, numa capela de Nossa Senhora das Dores. Depois da Páscoa começámos a melhorar o lugar, tanto esteticamente como com som. Hoje, a ideia é que na primeira quinta-feira do mês tenhamos, do meio-dia até a tarde, Adoração ao Santíssimo Sacramento e terminemos com as Vésperas em frente ao Santíssimo Sacramento com oração comunitária. Temos que ir conquistando, porque não temos o hábito de o fazer, e às quatro horas da tarde, uma meditação, uma reflexão, uma espécie de pequeno retiro mensal para todos. A ideia é que o sacerdote nem sempre o faça, pode ser feito por um casal ou por pessoas diferentes que podem oferecer-nos uma palestra às 4 h ou 4h 45m, de 4 a 5 minutos, e depois ficamos em silêncio e  aproximamo-nos do Sacramento da Reconciliação. Temos também outro espaço de espiritualidade que queremos animar com os jovens à noite. É um interesse meu que ainda não pude começar, é a experiência de Taizé, que não está desenvolvida na Argentina e que eu quero trazer. Parece-me que a Catedral é um lugar muito apropriado para o fazer, porque normalmente as grandes catedrais não têm um momento de oração, de Taizé.

Nisto já estou a começar a trabalhar com um grupo de rapazes que fazem música, para que possam começar a familiarizar-se com os temas de Taizé e a minha intenção este ano é que tenhamos lá em cima, na Catedral, quatro encontros nocturnos nos tempos fortes, antes de Pentecostes, Advento e Natal. Esse seria o espaço da juventude. Na verdade, a Catedral é muito utilizada para actividades, porque a infra-estrutura dos salões é boa. Agora estou a mexer-me um pouco mais, já que começam os cursos de Educação Sexual Integral Normativa (ESI)”.

Semana Santa na Catedral

“Também temos reuniões da Cáritas Diocesana aqui. Começámos pouco a pouco, como base estratégica para várias coisas que lhe dão vida. Este ano já me coube a Páscoa aqui e tradicionalmente a Semana Santa na Catedral era celebrada pelo Bispo mas, o Mons. Fernández tomou a peito a iniciativa do Papa de ir às periferias com a sua experiência pastoral como Bispo, por isso, não quis celebrar a Semana Santa na Catedral, mas celebrou apenas  a Missa da Vigília no sábado e o resto do tempo foi às Paróquias e capelas, então coube-me celebrar o Tríduo de Missas e ter a oportunidade de entrar em contacto com muitas pessoas. Isto foi bom.

Também tivemos a Sexta-feira Santa. Há muitos anos que não se faziam coisas na rua, mas desta vez fizemos uma Via Sacra musical artística de São Ponciano e acabámos aqui na esplanada da Catedral, com um show de luzes e som para a crucificação. Foi tudo muito bonito.”

Identidade a partir da Pastoral

“Quando quis enviar fotos da Catedral para a web, percebi que a Catedral não tinha sequer uma página própria, a que existe é a da Fundação Catedral, uma organização que sustenta a catedral.

É nisso que estamos a trabalhar agora. A novidade é que recentemente saiu a marca Catedral de La Plata. Já temos a imagem da Catedral como uma unidade e um logotipo. Está tudo a ir a um ritmo lento, mas está a ir.

A Catedral precisa de uma identidade digital, é nisso que temos de trabalhar. Estou a começar com isso de uma perspectiva pastoral.

 

Tornar acolhedor o que é normalmente solene

“As pessoas vão-se entusiasmando, vão-se aproximando cada vez mais. Quando as Missas acabam, fico para cumprimentar. Para mim foi um desafio o espaço de celebração, pois estou acostumado a uma pequena Paróquia, e é mais difícil conseguir que haja contacto ou experiência de vinculação num espaço tão grande que está pensado para celebrações faustosas, porque é a imagem da Catedral, toda esta coisa do trono. A nossa liturgia é mais austera, e poder fazê-lo não é simples. A minha tarefa agora é o meu critério, um grande esforço, como posso tornar acolhedor o que é naturalmente solene? Também não se trata de quebrar a solenidade, porque é um lugar assim, mas tem a ver com a saudação, alguma palavra no início, com o tipo de pregação. Percebo que no início isso me custou muito, porque a pessoa se sente muito só no Altar, falta-lhe alguma coisa, não há ninguém. Além disso, não tens ninguém que te traga um copo de água, está tudo muito longe. Lá pegava numa coisa e toda a gente olhava, toda a gente sabia, trazia. Aqui a pessoa está sozinha, tudo está muito longe, eles não me vêem, não me entendem, é difícil. Mas pouco a pouco, percebo que há uma evolução que me anima agradavelmente.”

Pastoral de Noivos

“Agora estamos também a começar o trabalho pastoral com um grupo de noivos. Neste sentido, a Família de Schoenstatt local também me acompanha um pouco. Há também a Paróquia de São Ponciano, onde há dois Padres da União. Vamos juntar-nos, concentrando-nos aqui, mas com várias Paróquias, para que outros agentes pastorais sejam também incorporados. Isto “encoraja muitos.

 

iStock Getty Images Rudimencial

Os pobres que vão em busca de Deus e do Pastor

“Também tenho a opção de trabalhar mais no grande Templo. Anteriormente, os padres trabalhavam e na Paróquia, porque tudo está aqui em baixo: as salas de aula, o Secretariado Paroquial. Agora começámos a trabalhar no andar de cima, onde se tem contacto real com as pessoas, que é o que eu descobri como uma novidade. Desde que comecei a celebrar a Missa no andar de cima, encontramo-nos com pessoas em duas situações novas e muito bonitas: por um lado, com pessoas simples, porque vêm à Catedral, mesmo que não seja a ideia que se tem, e a “nata” das pessoas da cidade.

Quando era Pároco em City Bell, tinha a impressão de que na assembleia litúrgica da Paróquia não havia presença visível de pessoas humildes e pobres, porque a composição social de City Bell na Paróquia não é pobre. Os Baptismos eram os únicos momentos em que se encontrava um pouco os pobres. Eu costumava dizer Missa em San Cayetano e, aí,  há muita gente pobre. Era uma capela para os pobres e lá vão os pobres. Por outro lado, aqui encontro uma assembleia muito mais variada e para mim foi uma surpresa. No Domingo encontro pessoas pobres, toda a família, as crianças, pessoas muito pobres, e elas estão aqui porque gostam, vê-se que se sentem atraídas pelo espaço sagrado, pela psicologia.

O que nos parece ser uma imensidão, os pobres sentem-na como a imensidão de Deus. Há nisto algo antropológico que deve ser estudado. Os Baptismos especialmente, todos os Baptismos  , são de pessoas humildes, de um extracto social de países limítrofes, muitos bolivianos, muitos. Todos baptizam aqui, eu diria que fiz muitos baptizados, pessoas de trabalho, é uma conformação totalmente diferente, o tipo de celebração, no contacto e depois muitas pessoas que vêm, ao ver-te a caminhar aproximam-se imediatamente. Muitos são turistas, outros vêm e dizem: “Padre, tenho o meu filho hospitalizado”, fazem trâmites, voltam a chorar do banco. Muitas pessoas que não estão a olhar turisticamente, mas que vêm para rezar, para chorar, em alguns lugares especiais, diante das imagens. Eles vêm à hora do seu almoço. Depois começámos a criar espaços para o Sacramento da Reconciliação. Para muitos é diálogo. É realmente uma questão por resolver, porque a Catedral não tem em cima, como algumas catedrais europeias, catedrais francesas, espaços, alguns lugares mais protegidos que permanecem como um pequeno escritório, mas porque tinham os mais pequenos altares laterais e os puderam fechar. Eu estive a tentar pensar em algum canto, mas não consigo encontrá-lo, por isso não tenho mais nada a não ser estar no confessionário, nada mais. No Inverno acho que está frio, mas bem, não tenho outro lugar.”

Viver um momento de beleza

“É perceptível que os pobres procuram um momento de beleza para baptizados, casamentos. No início eu vinha com um preconceito sobre isso e agora estou a mudar um pouco o modo do tratamento pastoral. No início eu disse “não, não vamos fazer tantas coisas”, eu procurava simplicidade em City Bell, por exemplo, porque o lugar era austero. Por outro lado, aqui é necessário acompanhar a experiência deles na expressão, passando também pela pompa, não pela forma, parece-nos pompa, mas para eles é a delicadeza, a fotografia, é uma oportunidade única. Para estas pessoas é o único dia com beleza que têm, por isso investem em tudo, nas velas, nas roupas, gastam tudo para o casamento ou o baptismo dos seus filhos, há mais pompa nos casamentos, especialmente se vêm depois de muitos anos de convivência, mas é algo que marca este grande passo que dão.

 

Confissões

“Agora também temos confessores lá em cima à tarde, durante toda a tarde das 4 às 7 e de manhã. Já tenho padres mais velhos que estavam sozinhos, meio reformados. A ideia é mostrar todas as coisas diferentes, para todos os gostos, que haja como expressão de encontros com todos de uma forma integral, a ideia é integrar. Agora também tenho que trabalhar em cultura, é outra ideia também, queremos desenvolver o tema da música. Havia algo, mas muito pouco, e aqui pode-se fazer muito mais porque a cidade tem muito movimento cultural, mas não tem muitos espaços porque o teatro está fechado há um ano e meio. Várias ideias surgiram e temos que coordená-las um pouco agora, repetir a iniciativa que correu bem como o coral infantil, eu também comecei a trabalhar há pouco tempo .

Pastoral dos colaboradores

O meu projeto fundamental é santuarizar a Catedral, criar um lugar de espiritualidade e contentamento pessoal com aquele vem, contentamento, união, criação de vínculos. Um pouco também de estética, porque gosto de mudar um pouco o olhar, de ordenar a tipografia, de começar a ordenar tudo, desde o simples cartaz, desde “não podes passar por aqui”… que tudo tenha uma leitura comum.

O Victor é uma pessoa que fazia limpezas aqui, e agora obriguei-o a fazer um curso para arranjar flores coisa que o encanta e agora está a aprender a montar os arranjos. Isto também é desenvolvimento humano. Ele que devia limpar, agora arranja as flores, é também uma coisa que o faz sentir-se melhor. Aqui na Catedral muitas pessoas trabalham, policias, um guarda, e todos eles têm tarefas, que eu pessoalmente lhes dei. A minha primeira saíde à noite, foi para visitar uma casa no bairro, para lhes pedir que me ajudassem com um grupo de namorados. Jantei com eles, nunca tinha saído daqui. Mas a tarefa era estabelecer laços com aqueles que trabalham aqui, com a polícia aqui, que são os primeiros a saber tudo sobre o padre. Estavam ofendidos porque não havia convivência, primeiro foi para estabelecer vínculos com eles. A relação com eles também está a mudar, dia após dia.

Quando cheguei, disseram-me que havia pessoas à minha espera e disseram: “Monsenhor, há 4 pessoas à espera, uma é alemã!Quem me disse foram as mulheres da limpeza. Àquele que está a pintar eu digo: “Prepara-me um mate (chá), e ele prepara-o…” Um mundo inteiro de vinculações.

O Santuário à sombra da Catedral e a família em serviço

Às quartas-feiras celebro sempre no Santuário à tarde. Eu apoiei-o muito interiormente, como é natural, antes de tudo porque a família é pequena, mas eu disse-lhes que precisava deles. Os ministros da Eucaristia estão a ajudar-me, a Legião de Maria ajuda-me aos Domingos, e para fazer os Baptismos há um Diácono, Carlos Lombardi, da União das Famílias.

Está aqui um irmão meu de curso, que vem um Domingo por mês para fazer baptizados. Enquanto eu celebro a Missa aqui na capela de baixo, ele baptiza lá em cima. Vamos ver se as pessoas querem. Eu queria fazer um arranjo floral e vi que não tinha um vaso aqui, então fui pedir ajuda às Irmãs. São coisas, por isso, se não houver uma em casa, vou buscá-la ao meu vizinho. Tantas coisas estão a acontecer, porque o Santuário é ainda um lugar pontual que pertence à Catedral.

 

Basílica de La Plata Argentina. Foto: iStockGetty Images Martindh

Transcripción: Glaucia Ramírez, Ciudad del Este, Paraguay. Redacción: Maria Fischer. Redacción final: Eduardo Shelley

Original: espanhol (14/7/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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