Colocado em 29. Agosto 2018 In Dilexit ecclesiam

Que resposta podemos dar ao escândalo dos abusos?

DILEXIT ECCLESIAM, Sarah-Leah Pimentel •

Li a notícia e fiquei horrorizada. Outra vez. Boston em 2002. A renúncia em massa dos bispos chilenos no início deste ano depois de admitirem ter encoberto casos de abuso. Os muitos relatos dos anos em instituições irlandesas, um caso possível numa paróquia a que eu pertenci, mas nós nunca sabemos se, ou como foi resolvido, a história de uma amiga que não sabia como lidar com a prostração do seu cônjuge que lhe revelou, depois do casamento, que ele tinha sido abusado numa escola católica por um frade. E agora … isto! Quando irá isto parar?—

Dividido entre a tristeza e o desejo de fazer algo

Um amigo meu, jesuíta, disse que, à luz da extensão das últimas descobertas, ele não tem palavras e tudo o que pode fazer é aguentar a dor das vítimas.

Como leiga católica, estou com raiva. Estou zangada com os homens que fizeram tais coisas desprezíveis a crianças inocentes, e para evitar problemas para si mesmos, chegaram mesmo a forçar as vítimas a abortar, destruindo ainda mais vidas. Estou zangada com os bispos e outros clérigos dessas dioceses que fizeram muito, não para ajudar as vítimas, mas para proteger os seus colegas e evitar escândalos. Eles levaram os sacerdotes para outros lugares, ou enviaram-nos para lugares de descanso ou silenciosamente destituíram-nos do ministério. Fico ainda mais zangada com os bispos que se desmultiplicaram em ações para desacreditar as vítimas que tiveram a coragem de se apresentar e denunciar o abuso.

Estou com raiva. Mas o que faço eu com essa raiva?

Uma parte de mim só quer chorar em silêncio; rezar pelas vítimas e esperar que encontrem justiça, cura e paz. Mas eu também sinto uma espécie de compaixão pelos sacerdotes que fizeram essas coisas terríveis porque algo dentro deles também estava errado e eles não tinham a coragem de procurar ajuda e cura antes de perpetuar a sua própria mágoa em vítimas inocentes. Eu já estou fazendo reparação através da oração e em atos de penitência pelo mal que eles cometeram.

Outra parte de mim quer fazer alguma coisa. Eu não quero sentir-me impotente e ver essas histórias repetindo-se uma e outra vez até sabe Deus quando.

Responsabilidade de ser devidamente informada, mesmo que nos incomode

Comecei lendo o relatório de 900 páginas. Eu quero estar totalmente informada sobre as conclusões do caso, não importa quão doloroso seja.

Passei o fim de semana lendo uma variedade de artigos que tentam explicar como isso poderia ter acontecido. Alguns artigos eram avaliações sóbrias de práticas que permitiam abusos nessa escala. Mas também houve artigos que recorreram ao bode expiatório, como um artigo que culpou os padres homossexuais pela crise e pediu que fossem expulsos do sacerdócio. Eu também tive conversas com amigos católicos que moravam nos Estados Unidos, para quem este último escândalo é muito próximo de casa, e onde alguns deles até conheciam os padres que foram mencionados no relatório.

E percebi que, juntamente com as notícias, há muitas reclamações, contra reclamações, negação, táticas acusatórias e boatos.

Isto fez-me sentir angustiada. É difícil saber em que acreditar e em que não acreditar. Mas é um caminho que precisamos fazer. Mesmo que nos incomode, somos chamados a ler esses relatórios para compartilhar a dor.

Mas também é nossa responsabilidade investigar profundamente as informações que estamos a ler e perguntar a nós mesmos: É verdade? Qual é a intenção do artigo? É uma tentativa genuína de começar a encontrar uma solução para este escândalo que fere o Corpo de Cristo? Ou divide-nos e deixa-nos incapazes de combater o flagelo do abuso como uma família de Deus unida?

Sinais de esperança

Li também a carta que o Papa Francisco enviou ao povo de Deus no dia 20 de agosto para compartilhar a sua dor profunda com as vítimas e pedir ação, para que no “futuro, nenhum esforço seja poupado para criar uma cultura capaz de evitar que tais situações aconteçam, mas também para evitar que elas sejam encobertas e perpetuadas”.

Isso dá-me esperança. É um convite para o diálogo. É um apelo para começar a investigar as causas desses repetidos escândalos de abuso. É um convite para trazer à luz as feridas amamentadas em segredo. É uma instrução para abrir as nossas instituições católicas e examiná-las para entender o que permitiu que esses crimes hediondos acontecessem. É um chamamento à conversão e perdão – para todos nós.

Precisamos fazer mais

Mas não é suficiente. Precisamos de fazer mais. Não podemos esperar que a Igreja institucional aja. Se quisermos ver a mudança, proteger os nossos filhos e netos, se quisermos um clero e instituições em que possamos confiar, também precisamos de fazer a nossa parte.

Na sociedade civil, as petições e campanhas de consciencialização têm grande poder para efetuar mudanças. Nós deveríamos estar a fazer o mesmo. Os leigos têm o direito e o dever de pedir aos bispos das nossas dioceses que desenvolvam políticas que protejam os vulneráveis. Os leigos devem estar envolvidos na formação dos nossos sacerdotes, ajudando os seminários a preparar religiosos íntegros e saudáveis para servirem as nossas comunidades. Só podemos fazer isso se nos levantarmos e nos disponibilizarmos para fazer parte da solução.

Como é que Schoenstatt pode contribuir?

Como Schoenstateanos, acredito que podemos desempenhar um papel fundamental usando a nossa formação para promover ambientes verdadeiramente orgânicos. Os ensinamentos do Pe. Kentenich sobre o pensar, viver e amar orgânicos e um profundo estudo do seu trabalho sobre a ordem de ser são pontos de partida maravilhosos. Mas eles não podem permanecer no nível dos ideais teóricos. Eles devem ser vividos, testados, examinados através de experiências reais vividas.

Nós projetamos esses ideais nos nossos relacionamentos de aliança de amor com a nossa família; lutamos com eles na nossa fraqueza através do nosso exame particular, e transmitimos aos outros como fazer o mesmo … os jovens dos nossos grupos, os jovens seminaristas de Schoenstatt e dos seminários diocesanos, as jovens em formação para se tornarem irmãs, e nas nossas próprias famílias, para que possamos educar homens e mulheres íntegros que edificarão a Igreja e não causarão mais vergonha ou escândalo.

Original: Inglês, 25 AGOSTO 2018. Tradução: José Carlos A. Cravo, Lisboa, Portugal

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