Colocado em 2018-08-01 In abuso, Dilexit ecclesiam

Duas cartas e um desafio

CHILE, Pe. Juan Pablo Rovegno •

Partilhamos “um texto para meditar sobre o momento eclesial que estamos a viver à luz da nossa espiritualidade”, do Pe. Juan Pablo Rovegno, Director do Movimento de Schoenstatt no Chile. Pela transcendência do assunto e pela forma como é abordado vimos a grande conveniência, com a autorização do autor, em o publicar em schoenstatt.org.

Querida Familia,

iglesia

Gostaria de partilhar convosco uma conferência proferida em duas Jornadas da Família que me tocou acompanhar: a da Família de Valle de Maria (zona Maipo) em Maio passado e uma, mais recente, a da Família de Chillán. Nas duas abordei a crise que estamos a viver como Igreja e que nos interpela e confronta também a nós.

Pe. Juan Pablo Rovegno M.

 

Duas cartas e um desafio

Esta reflexão é feita no contexto de duas cartas e de um desafio comum: a carta do Nosso Pai e a carta do Santo Padre, duas cartas que abanaram os seus destinatários. As duas foram escritas à Igreja: uma à Igreja alemã, a outra à Igreja chilena. Separam-nas 69 anos, contudo, estão estreitamente unidas: a primeira carta permite-nos compreender o alcance da segunda; a segunda carta é uma aplicação muito concreta da primeira. O Nosso Pai escreve a sua carta no contexto da Visitação que foi feita a Schoenstatt e das observações ao que é considerado “ideias ou terminologias particulares” e, especialmente, ao papel do Fundador da Família, à sua autoridade e às vivências paterno-filiais; assim como, o valor das causas segundas, como expressão, caminho e seguro para o nosso encontro com Deus.

Por trás e, daí a crítica do Pai, está o pensar mecanicista que separa o que deve ser olhado e vivido em unidade e, em mútua complementaridade, “separa mecanicamente no exacto ponto onde há união, divide e opõe onde existem diferenças e polaridades destinadas à mútua complementação. Não é capaz de unir Deus e criatura; natureza e graça; vinculação a Cristo e vinculação a Maria; fé e vida; autoridade e obediência; pessoa e comunidade. Este modo de pensar atomiza a realidade e destrói processos vitais”.

O amar mecanicista não é capaz de estabelecer vínculos pessoais estáveis. Cai-se no individualismo ou massificação, dependência ou exigência, sem capacidade para uma comunhão livre e magnânima.

O amor mecanicista não consegue unir afetividade instintiva com o amor natural e com o amor de caridade ou sobrenatural.

A vida do Homem mecanicista é uma vida atomizada, desintegrada nas suas diversas dimensões (pessoal, comunitária, social, cultural, eclesial), desagregada e descontínua.

O mecanicismo acaba por destruir o são organismo das vinculações pela incapacidade de integrar, relacionar, unir; de compreender a realidade, relacionando-a e integrando-a.

A sua contrapartida é o amar, pensar e viver orgânicos, dando especial importância às causas segundas e à pedagogia das vinculações: a criatura é vista e amada na sua relação com um Deus pessoal: se, amamos Maria, n’Ela amamos Cristo; se amamos o irmão, nele amamos Deus. Se amamos Deus, necessariamente esse amor se traduz num amor aos Homens. Mas, também, no contexto da auto-educação, um pilar fundamental da nossa espiritualidade, já que a nossa natureza ferida e desordenada, precisa de percorrer, com seriedade, um caminho de cura, reconciliação e purificação.

Neste contexto o Pai escreve a uma Igreja ritualista e liturgista, de ideias e normas, onde foi minimizado o valor da pessoa e de tudo o que é natural, o valor das causas segundas e, em definitivo, o valor da encarnação, pelo qual, tudo o que é humano é caminho para Deus.

O Papa Francisco escreve a sua carta no contexto dos abusos de autoridade e de consciência e, dos abusos sexuais por parte de nós, os consagrados. Fá-lo no contexto da própria estreiteza do seu olhar face aos acontecimentos e de uma crise, especialmente, das nossas autoridades eclesiásticas, no modo como é vista a realidade e nos relacionamos com ela. Por trás, está uma mentalidade mecanicista, não só nos factos dolorosos concretos, mas na forma como foi exercida a autoridade e foram calibradas as suas consequências. Não se olhou para a totalidade e complexidade do problema, dando resposta a partir da parcialidade.

Em palavras simples: primeiro, não assumir os factos, integrando-os na dolorosa realidade dos abusos e das dinâmicas que os favorecem; segundo, não os assumir da perspectiva de um olhar de fé, pastoral e humana (proximidade e compreensão da pessoa abusada), mas também, penal (trata-se de delitos, não apenas de pecados) e, não só canónica; terceiro, colocar o bom nome de uma instituição por cima da dor e da situação das pessoas; quarto, não analisar o pano de fundo de uma rutura no modo como é exercida a autoridade e o espaço que se dá à liberdade e ao respeito da consciência do outro; quinto, separar o jurídico/canónico das consequências nas pessoas vulneradas e na sociedade; sexto, não analisar as causas e as suas consequências unidas ao desafecto, distanciamento, rejeição e dor social face à Igreja; sétimo, continuar a caminhar sem se deter para reflectir e integrar o que aconteceu num contexto mais amplo e transcendente.

O modo como, estamos a entender e a relacionar-nos com a realidade

Poderíamos continuar mas, estas duas cartas abanaram-nos porque colocam em modo de pergunta a forma como estamos a entender e a relacionar-nos com a realidade, neste caso a dolorosa realidade dos abusos e a maneira como estamos a dar resposta aos desafios do tempo.

O perigo está na resposta que dermos, porque também pode ser mecanicista: suprimir o sacerdócio ou reduzi-lo ao estritamente sacramental ritual, um capelão assético e distante, um bom funcionário; tomar todas as medidas de proteção e ficarmos tranquilos por termos a segurança de um bom protocolo; assumir a responsabilidade, inclusivamente, indemnizatória, para reparar o mal causado e acreditar que o problema está resolvido…Contudo, estaríamos a ver o processo parcialmente, reduzindo a realidade a compartimentos separados, porque por trás do problema, em questão, existe um modo de compreender e de exercer a autoridade, de integrar e curar a afectividade, de compreender a religião, muito para além, de um bom comportamento ou da observância de ritos ou de normas, de captar as perguntas, confrontações e buscas do ser humano, como oportunidades para que Deus ilumine e conduza; assim como, o valor da liberdade e da consciência pessoal.

Não é o que acontece em tantos planos da vida social que nos toca viver?

O feminismo de trincheira é resposta ao abuso da autoridade masculina e à falta de valorização e integração da mulher mas, uma consequência inorgânica é o negar o valor da diferença e da complementaridade; a ideologia de género é resposta à não visibilidade, acompanhamento e integração social de realidades humanas existentes mas, uma consequência inorgânica é relativizar e até negar, a ordem natural do ser humano e os necessários processos de desenvolvimento afectivo e sexual; a tolerância zero face aos abusos, é resposta a uma dor não verbalizada nem assumida por estruturas ou dinâmicas que a favorecem mas, uma consequência inorgânica reside no minimizar ou negar o valor do são vínculo filial ou de dependência, como caminho para a autonomia; a irrupção de correntes políticas anárquicas ou contestatárias, assim como, as mobilizações sociais, são resposta a um desenvolvimento económico e de oportunidades reduzidas a uns poucos privilegiados e a condições desproporcionadas nos seus destinatários mas, uma consequência inorgânica é o negar ou destruir caminhos percorridos e radicalizar as diferenças; a causa mapuche é consequência de um problema de longa data e que tem que ver com o respeito e integração de um povo em costumes e na sua cosmovisão, mas uma das suas consequências inorgânicas é a violência e a negação do encontro e mútuo enriquecimento histórico entre duas culturas; a sensibilidade ecológica é resposta ao não respeito da natureza e ao abuso no uso dos recursos naturais mas, uma consequência inorgânica é a desproporção no cuidado ambiental face ao desmedrar das necessidades humanas.

 

Nesse sentido, a missão do 31 de Maio é mais actual que nunca:

  1. O valor e o sentido da autoridade como reflexo da autoridade paternal/maternal de Deus que acolhe e acompanha a individualidade e o valor da filialidade como contrapartida, como caminho de crescimento em confiança, autonomia e autêntica liberdade. A partir de um vínculo paterno/filial descobrir a sua própria missão e originalidade.
  2. O valor das causas segundas como caminho para chegar a Deus: a relevância da ordem do ser natural para nos encontrarmos com o Deus das nossas vidas e processos.
  3. O valor do natural ou do ser criado, no processo de fé e compreensão da nossa humanidade: “a graça pressupõe a natureza”, “a graça sã, eleva e une a natureza”, “o que não é assumido não é redimido”. Neste sentido é fundamental um olhar renovado sobre a afectividade humana, assim como, a integração, elaboração e cura das debilidades humanas inclusivamente do pecado humano.
  4. O valor do olhar integrador da vida, dos processos e de todos os aspectos envolvidos (humanos, pessoais, pastorais, institucionais, sociais, comunicacionais, etc.)
  5. A Fé Prática que nos permite compreender que, nos processos e acontecimentos vitais, Deus está presente e conduz.
  6. A nossa Aliança e a sua concretização na nossa colaboração. Neste sentido, o traço do Nosso Pai que, hoje nos desafia, é aquela personalidade criadora de história que colabora activamente na mudança de época e face à crise que vivemos.

A nossa missão é mais actual que nunca porque, se dá no contexto de uma crise social e eclesial muito profundas. Trata-se de acentuar algumas dimensões que nos permitam acompanhar este processo desde dentro, vivendo-o antecipadamente, nós, para iluminar e acompanhar; deixando-nos complementar com o nosso meio, rever as nossas próprias estruturas e dinâmicas (a crise não nos é alheia nem temos respostas prescritas), assim como, dialogar criativa e complementariamente com a realidade.

Uma crise que também nos afecta e dói, directamente, como Comunidade de Padres, por situações em que o exercício da nossa autoridade prejudicou, por abusos, como por omissão ou débil e errática condução, pessoas concretas. Poderíamos afirmar, com dor e humildade, que só poderemos acompanhar o processo eclesial que começámos se, assumirmos a nossa própria responsabilidade e também a nossa solidariedade com uma Igreja e sociedade feridas.

Algumas acentuações:

  1. Uma Igreja família, princípio paterno, materno, filial e fraterno. Integradora de todos, no meio da realidade das pessoas e onde a santidade se dá na e, a partir da vida concreta das pessoas e dos seus processos vitais.
  2. Uma Igreja dialogante: na qual, os desafios, as necessidades, as possibilidades e as dificuldades, se conversam, se enfrentam, são assumidos em conjunto, com um olhar co-responsável e providente.
  3. Uma Igreja humilde: Porque o mais importante são as pessoas e o encontro com o Deus das nossas vidas e da nossa história. No sentido em que as nossas estruturas e formas, os nossos espaços e conteúdos, sejam de encontro para todos. Mas também, humilde para reconhecer limites e debilidades, pecados e delitos.
  4. Uma Igreja em saída ou ao encontro: deixando espaços seguros ou conhecidos, procurando formas novas e dialogando/envolvendo-nos com a realidade para nos enriquecermos mutuamente. Uma Igreja que, se precisa de raízes e de espaços de enraizamento e tem uma verdade e proposta, se relaciona e forma parte de um mundo em constante tensão e desenvolvimento, em busca e confrontação, em diálogo e construção.
  5. Uma Igreja orante: que sabe parar para rezar, reflectir e animar o seu dom e missão no meio do mundo concreto. Que é capaz de oferecer e reparar; de amar, deixando-Se amar. Orante no sentido de se deter para Se deixar comover, tocar, complementar e enriquecer pela realidade. Orante para descobrir um Deus presente na realidade.
  6. Uma Igreja mãe: que acolhe no seu seio todas as realidades humanas, especialmente, as mais necessitadas de misericórdia e de acolhimento, para as conduzir a Deus e ao Deus de cada realidade humana, a um Deus pessoal.
  7. Uma Igreja de Cristo: na qual o grande desafio é dar à luz Cristo, no meio deste mundo, e levar o mundo a Cristo, ao encontro com o Ressuscitado. Cristo em atitudes, gestos e palavras de salvação.

Uma dimensão que merece um parágrafo à parte, não sumido na definição de uma Igreja humilde, é a de uma Igreja misericordiadora nas suas misérias, para ser legitimamente portadora de misericórdia para a humanidade. Afirmação que o Santo Padre explicitou nas suas palavras à vida consagrada na catedral de Santiago e, que ele próprio teve que assumir pessoalmente em factos posteriores.

 E o desafio…amar a Igreja nestas circunstâncias, o que não significa justificar o injustificável, defender o indefensável, relativizar o evidente. Mas antes, trata-se de renovar a nossa fé na Igreja de Jesus Cristo e percorrermos, juntos, o caminho necessário de discernimento, conversão e renovação que devemos assumir. O amá-l’A significa, neste contexto, colaborar activamente neste processo. Interessante seria rever a actualidade dos textos, escolhidos, do nosso Pai acerca da Renovação da Igreja” (por Peter Wolf)

 

Original: espanhol (29/7/2018). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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