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Colocado em 28. Outubro 2018 In abuso

Somos nós próprios quem precisa de curar e reparar, oferecer e purificar

CHILE, Pe. Juan Pablo Rovegno, Director do Movimento de Schoenstatt no Chile •

“Foi um momento de Família muito necessário e purificador”, disse o Pe. Juan Pablo Rovegno, Director Nacional do Movimento de Schoenstatt do Chile, sobre a Missa celebrada em 18 de Outubro de 2018, em Bellavista, por ocasião do aniversário da Aliança de Amor e do encerramento do “Ano do Padre Kentenich” da Região Metropolitana e que se transformou num encontro para se unirem como Família para “curar e reparar, oferecer e purificar”. —

“Reunimo-nos neste dia de Fundação com a esperança de nos renovarmos na fé primordial. Fazêmo-lo num contexto muito duro e complexo: o drama dos abusos, a dor das vítimas, a ferida na nossa fé; a desilusão, a raiva e o mal-estar perante a errática e tardia condução. São tantos e tão variados os sentimentos que albergamos que, precisamos de os despejar na talha do Capital de Graças para que se transformem em esperança, em reparação”, deste modo iniciou o Pe. Juan Pablo Rovegno a sua Homilia.

“Precisamos de depositar no Santuário tudo o que foi vivido, porque são rostos, são pessoas, são crianças e jovens, são famílias, somos nós próprios quem precisa de curar e reparar, oferecer e purificar. O próprio gesto de nos termos posto a caminho de Bellavista é expressão de uma necessidade de nos reencontrarmos, de encontrar palavras de alento, de refletirmos juntos sobre a dura realidade das nossas misérias”.

No acto penitencial, alguns jovens aspergiram com água benta os sacerdotes. Foi um gesto muito forte e poderoso.

“Quero agradecer à nossa querida Mater este Pentecostes vivido ontem em Bellavista, onde foram soltas as amarras interiores e surgiu a convicção e a esperança de que temos connosco o Deus da Vida”, disse Jorge Westpahl.

“O ambiente de alegria, fraternidade, o prazer de termos o nosso Pai, teve no Pe. Juan Pablo Rovegno e na grande afluência de pessoas, o catalisador para nos experimentarmos como Família, na qual a grandiosidade do carisma do nosso Pai precisa de todos nós, unidos em torno da nossa Mãe, nesta terra santa de Bellavista.

As nossas forças e fraquezas, as nossas dores e alegrias, para que sejam terra fecunda, estão apoiadas pela nossa rede de vínculos naturais e sobrenaturais. Assim o experimentámos ontem à noite, entre nós e o nosso Santuário. Também é preciso crescer e desenvolver-nos, procurar, experimentar a nossa dupla tensão criadora, entre duas realidades fundamentais: A nossa característica federativa e a nossa familiaridade, ambas se necessitam e complementam no plano de amor do bom Deus Pai”

Publicamos aqui o texto integral da Homilia.

18 de Outubro de 2018 Homilia do Pe. Juan Pablo Rovegno  (pdf)

18 de Outubro de 2018

Santuário Cenáculo de Bellavista

 

Homilia da Eucaristia celebrada no aniversário da Aliança de Amor e no encerramento do “Ano do Padre Kentenich” da Região Metropolitana de Santiago do Chile

 

Querida Família,

Reunimo-nos neste dia de Fundação com a esperança de nos renovarmos na fé primordial. Fazêmo-lo num contexto muito duro e complexo: o drama dos abusos, a dor das vítimas, a ferida na nossa fé; a desilusão, a raiva e o mal-estar perante a errática e tardia condução. São tantos e tão variados os sentimentos que albergamos que, precisamos de os despejar na talha do Capital de Graças para que se transformem em esperança, em reparação.

Precisamos de depositar no Santuário tudo o que foi vivido, porque são rostos, são pessoas, são crianças e jovens, são famílias, somos nós próprios quem precisa de curar e reparar, oferecer e purificar. O próprio gesto de nos termos posto a caminho de Bellavista é expressão de uma necessidade de nos reencontrarmos, de encontrar palavras de alento, de refletirmos juntos sobre a dura realidade das nossas misérias.

Convido-vos a percorrerem este caminho com a perspectiva de uma tripla necessidade:

  1. A necessidade de o percorrermos juntos: a imagem da barca volta a inspirar-nos, trata-se de um momento ainda mais terrível do que o da tempestade acalmada que nos tem vindo a acompanhar nas nossas Jornadas e reflexões. Nos Actos dos Apóstolos é narrada uma situação limite: cada um trata de se salvar, alguns querem fugir, outros permanecem, o caos e o temor apoderaram-se de cada um dos personagens. Paulo diz-lhes para comerem, há tantos dias que não comiam nada, ele apercebe-se da necessidade mas, ele oferece-lhes alguma coisa mais do que pão, oferece-lhes o pão consagrado, nesse gesto da fração do pão, todos comem, logo se salvam. A barca encalha, desfaz-se a popa e a proa fica imóvel mas, todos se salvam.

 

Hoje, viemos como Família: o que foi uma decisão oportuna de transferir o encerramento do Ano do Padre Kentenich, como Família Metropolitana, para este dia da Fundação, transformou-se numa necessidade: a necessidade de atravessarmos juntos, esta crise, a necessidade de verbalizar e oferecer o que sentimos, a necessidade de procurarmos respostas, de encontrarmos sentido e de nos animarmos. Porque a tentação de fugir é grande, o desejo de cada um seguir o seu próprio caminho para a outra margem é compreensível, a vontade de assacar responsabilidades, são legítimas. Por isso, precisamos de acreditar que Deus e a Mater nos voltam a dizer pela boca do Nosso Pai e desde a Terra Santa: “vamos um no outro, com o outro, para o outro”, não, apesar do outro ou contra o outro. Vamos juntos para a outra margem.

Vamos juntos. Encerramos o Ano do Padre Kentenich com uma renovada consciência da actualidade da sua pessoa, carisma e missão, mas também, com uma renovada humildade. Nenhum de nós tem a resposta completa, ninguém pode apropriar-se do manto do profeta, ninguém conseguirá a “refundação” em solitário. Só juntos, poderemos assumir e viver, com esperança, os desafios do tempo.

Vamos juntos. Não nos esqueçamos que a Aliança tem uma dimensão fraterna que não significa que sejamos bons amigos ou camaradas, significa que queremos ser e sentir-nos uma Família, queremos aprender a confiar uns nos outros, queremos aprender a pensar, rezar, discernir e decidir juntos. Queremos aprender a trabalhar juntos.

Uma expressão desse “vamos, juntos”, são as múltiplas iniciativas expressas na carta de um grupo importante da nossa Juventude, de Cursos da União das Famílias, do Instituto das Famílias, dos forjadores de grupos de chats, de espaços de diálogo e grupos de reflexão; o desafio é reconhecer que ninguém tem “a resposta” para o desafio actual mas que, todos participamos de uma parte do desafio e de uma parte da resposta. Vencer a tentação do protagonismo do pêndulo, da defesa estéril, da miopia face à realidade que nos confronta, é um desafio mais do que actual. Vamos juntos para a outra margem.

Contudo, para nos voltarmos a olhar com confiança precisamos de reconhecer com humildade, o que nos levou até este ponto crítico? Daí surge uma segunda necessidade:

 

  1. A necessidade de reconhecer as nossas misérias: S. Lucas no Evangelho do Bom Samaritano coloca-nos perante a mensagem central de Jesus. O amor ao próximo, especialmente o próximo ferido. Mas para sublinhar a radicalidade do próximo, do valor do outro, da dignidade e da grandeza do outro, especialmente do próximo ferido, coloca-nos no cenário da indiferença, da arrogância, da incapacidade de nos darmos conta, de estarmos demasiado centrados em nós próprios: todas as atitudes que nos levam a passarmos ao lado.

 

Naquele tempo tratava-se da observância da lei e da primazia das formas, hoje trata-se do cuidado institucional, da relativização das exigências do Evangelho, da ignorância imperdoável face à desordem humana que fere o débil, da mal entendida prudência que, em vista do próprio interesse pessoal, comunitário ou institucional, põe de lado o sofredor, o ferido, o abusado, a verdade e a justiça (porque estamos a falar de delitos e, não apenas, de pecados, de danos irreparáveis e, não só, de comportamentos inadequados).

Querida Família, a necessidade de atravessarmos juntos esta crise, supõe a necessidade de reconhecermos as nossas misérias. Nós, como Comunidade dos Padres de Schoenstatt, em primeiro lugar e como Coluna sacerdotal, não só não estivemos à altura das circunstâncias mas, ferimos o próximo ferido e também vos ferimos a vós. Ferimo-los com os abusos mas, ferimo-los também porque muitas vezes passámos ao lado. E esse próximo tem rosto, tem família, tem uma dignidade que não soubemos cuidar, proteger, acolher e curar. Perdão querida Família, perdão. Dói-nos e envergonha-nos mas, sobretudo, dói-nos ao tomarmos consciência do drama do abusado e do abusado ignorado, o drama dessas vidas quebradas.

 

Perdão pelos nossos irmãos que abusaram, também perdão porque muitas vezes a nossa condução foi tardia, pouco lúcida e reactiva.

Queridos irmãos de comunidade, este perdão tem que nos doer porque não soubemos responder a um triplo imperativo.

Ao imperativo do sacerdócio de Cristo de acolher o sofredor, o pequeno, o débil, de renunciar a qualquer sinal de indiferença, de poder ou pretensão de domínio. O imperativo de fazer do Evangelho e da própria Vida um mútuo complemento.

Tem que nos doer, também, porque não soubemos responder ao imperativo do sacerdócio do nosso Pai: a paternidade, como um serviço desinteressado à vida do outro, como um são exercício da autoridade, como um dom que conduz à vida confiada, em liberdade e respeito, ao Deus da Vida e da plena autonomia.

Tem que nos doer, finalmente, porque não soubemos responder ao imperativo da nossa missão do 31 de Maio: essa capacidade, esse desafio, essa intuição de unir a natureza e a graça. Do valor da Causa Segunda, mas também, do realismo face à nossa frágil humanidade, reconhecendo a necessidade de assumirmos e curarmos as desordens da nossa natureza, assim como, a capacidade de acolher as feridas que essa natureza desordenada provoca. “O que não é assumido não é redimido”, “ a graça supõe a natureza”, ouvimo-lo e dissemo-lo tantas vezes e aqui não soubemos reconhecer a desordem e encarregarmo-nos dos seus limites, nem soubemos reconhecer as feridas que essa desordem produziu, para as acolher, curar e dignificar. Claro que, é muito maior a vida que já acolhemos, servimos e conduzimos paternalmente, a partir de Cristo e em harmonia, contudo, hoje queremos assumir as situações e pessoas nas quais isso não aconteceu.

Este reconhecimento das nossas misérias leva-nos a uma terceira necessidade:

  1. A necessidade de voltar a colocar o nosso olhar, no olhar e no coração da Mater e a necessidade de voltarmos a ser levados pela mão do nosso Pai e Fundador.

Esta crise colocou-nos no horizonte de uma refundação mas, de uma refundação que parte do confronto do nosso carisma. Não é um gesto triunfalista, nem sequer arrogante de sentir que temos as respostas.

Schoenstatt, como a nossa Igreja e porque somos Igreja, experimenta esta crise como um urgente chamamento a regressar ao essencial, à raiz em Cristo e em Maria, à nossa Aliança de Amor com todas as suas consequências na vida concreta, aos princípios que nos deram a origem. Por isso, não é por acaso que esta Missa de reparação A celebremos num 18 de Outubro, como também não é por acaso que, deste modo, encerremos o Ano do Padre Kentenich.

Precisamos de reconhecer a presença de Maria no Santuário, regressar à novidade e à radicalidade da nossa Aliança de Amor, ao trabalho pessoal e comunitário, à ousadia missionária na frente que nos toca viver, a ir dando resposta aos desafios do tempo, não com receitas, frases feitas ou esquemas mas, com o discernimento do Deus da Vida e da História.

Precisamos uns dos outros para aprofundarmos e desenvolvermos as nossas vocações pessoais e comunitárias, para discernirmos os sinais dos tempos, para amar e servir a Igreja neste contexto de crise, de profundo desamparo e necessidade de renovação. Em 18 de Janeiro roubaram a Coroa da Missão, na altura da partida do Papa Francisco. Ninguém de nós poderia ter imaginado tudo o que aconteceria depois e que continua a acontecer. Deus está a conduzir “com mão de ferro” porque quer uma Igreja e um Schoenstatt renovados pelo crivo da purificação.

Há 104 anos, um grupo de jovens, trocou com a Mater grandes anseios e a pequenez dos instrumentos nessa primeira Aliança de Amor no Santuário. Este verão, outro grupo de jovens (A Cruzada de Maria), face ao desamparo da Mater sem Coroa, ofereceram-Lhe, de novo, grandes anseios e a sua pequenez.

Hoje, queremos oferecer, esta singela coroa, uma simples coroa de madeira e lata feita no caminho face à urgência do momento. Chegámos com todo o nosso desamparo para colocarmos, de novo, a nossa confiança no coração da Mater e deixarmo-nos, de novo, formar e guiar pelo nosso Pai-Fundador, para sermos testemunhas e portadores da Misericórdia, essa Misericórdia que, hoje, Te suplicamos vivenciar.

Ámen.

Pe. Juan Pablo Rovegno M.

Director Nacional do Movimento

Schoenstatt – Chile

 

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Original: espanhol (19/10/2018). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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