Stumme Schreie

Colocado em 2022-09-22 In Igreja - Francisco - movimentos, Projetos

Em ligação ao Dia Mundial do Migrante e do Refugiado: Gritos silenciosos

ALEMANHA, Maria Fischer •

“As vozes dos refugiados devem falar, e não precisam de ser acompanhadas pelos sons da harpa. Os refugiados não só sofrem violência e traumas no seu país de origem e durante a fuga, como também estão expostos a situações de stress consideráveis no país de destino, desencadeando doenças mentais”. —

Assim se lê no programa de eventos do Centro de Formação Protestante ‘Rudolf-Alexander-Schröder-Haus’ em Würzburg sobre a leitura (DE) de um livro do Dr. Martin Flesch, e, além disso:

“O sofrimento sem nome e gritos “silenciosos” chegam-nos muitas vezes sob a forma de estatísticas e relatórios numa perspectiva do olho de pássaro. No entanto, no momento em que estas histórias de sofrimento, feridas, lutas, derrotas pessoais e tentativas de superação recebem uma voz e um rosto, tornam-se então reais para todos nós, apelando à nossa empatia”.

É precisamente esta mudança de perspectiva que o Dr. Martin Flesch trata no seu novo livro publicado em Setembro de 2021 “Stumme Schreie: Seelische Leiden durch Migration”. Plädoyer eines Psychiaters”, (“Gritos silenciosos: Sofrimento Mental devido à Migração. Apelo de um psiquiatra” – Tradução literal do título por não estar traduzido em português NT), que deve ser recomendado para o próximo Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados para todas as pessoas de boa vontade, especialmente para aqueles que acompanham migrantes e refugiados e os têm como colegas, vizinhos, doentes, etc.

Razões e antecedentes das emergências existenciais de refugiados

CoverA nível mundial, os 80 milhões de refugiados e migrantes não nos apresentam apenas uma enorme tarefa estrutural. São também uma fonte de tensão para o aparecimento de doenças mentais com grave progressão nos refugiados, com base nas suas experiências traumáticas, que também têm de viver no país de destino. Com grande empatia pelas pessoas afectadas, Martin Flesch analisa as causas e os antecedentes do sofrimento existencial dos refugiados. Relata as suas próprias experiências no decurso dos seus muitos anos de cuidados psiquiátricos, tratamento e avaliação psiquiátrica com migrantes. Ao mesmo tempo, ele constrói sempre pontes para os pontos de referência cristãos-religiosos e filosóficos da questão da migração. Com base nestas experiências, apela a uma política de asilo alternativa e mais justa para cada caso, mas acima de tudo dá uma voz concreta ao fenómeno do sofrimento psicológico dos refugiados. Um confronto com as múltiplas facetas do sofrimento psicológico antes, durante e depois de uma fuga.

Gritos silenciosos: Abbas, Abdi, Sandin, Waziri…

Martin Flesch dedicou o seu livro ao Dr. Rupert Neudeck (fundador da ONG Cap Anamur), o Instituto da Missão Médica de Würzburg: “Médicos Sem Fronteiras”… e a mais de uma dúzia de migrantes e refugiados, de Abbas da Síria a Waziri dos Camarões. E assim, estes migrantes e refugiados que só conhecemos das notícias como um “fluxo” e como um problema, recebem nomes, origens e história. E isto dói.

“Nos últimos seis anos, como psiquiatra, ouvi mais de 500 migrantes de vários países de origem em consultas de psiquiatria grave.

Muitos são pós-traumatizados, ou seja, sofreram tensões de proporções catastróficas numa ou mais das suas rotas de fuga ou no país de destino. Muitos não têm apenas um trauma, mas vários traumas ao mesmo tempo.

Entre eles, por exemplo, encontra-se Ahmad do Afeganistão, cuja perna direita foi arrancada com uma mina terrestre pelos talibãs; Abdul do Iraque, com vestígios de tortura; Ibrima da Somália, que foi violada várias vezes; Yussuf da Síria, torturado na prisão; Amadou do Irão, que passou três anos na solitária; Alik da Ucrânia que perdeu a sua família na guerra ucraniana; Amen da Arménia que também foi torturado na prisão; Eymag da Nigéria que foi torturado e escravizado na Líbia; Abdulmonir do Afeganistão que teve a perna cortada; e também Maryan, Marusya, Natali e Hrachia que atravessaram o Mediterrâneo num bote de borracha mas cujos familiares se afogaram.

Representam muitos destinos semelhantes, tal como os muitos órfãos de guerra, crianças soldados e vítimas de abusos.

Aqui falam as suas histórias.

Nada mais”.

“Para ver os seus rostos e olhá-los nos olhos”

E eles falam, perturbam e causam dor. E como sempre quando contamos histórias, em vez de continuarmos a ser teóricos, as nossas próprias histórias emergem das profundezas da memória… a criança refugiada não acompanhada da Eritreia no lar das crianças que foi acolhida com tanto amor, sempre a tentar fugir para encontrar a sua família, o colega que se irrita tão facilmente, e sim, os próprios avós, a própria mãe e os seus irmãos que viveram coisas como estas contadas por estes refugiados.

Não, isto não é um livro para ler numa noite relaxante com um copo de vinho. É um livro que toca a alma.

Durante a sua visita aos refugiados em Lesbos, o Papa Francisco disse: “Estou aqui para ver os vossos rostos e olhar nos vossos olhos. São olhos cheios de medo e expectativa, olhos que viram violência e pobreza, olhos avermelhados por demasiadas lágrimas”. E foi por isso que ele levou 50 refugiados com ele para Roma.

Ele gostaria de ter o livro de Martin Flesch.

Também porque 100% das receitas irão para os Médicos Sem Fronteiras e o Instituto Médico Missionário em Würzburg.


O Dr. Martin Flesch, membro do Movimento de Schoenstatt, é um especialista independente em psiquiatria e psicoterapia com foco na psiquiatria forense na sua própria prática especializada. Em 2014, anexou uma clínica ambulatória de migração psiquiátrica social às suas instalações de consultório. Está também intensamente preocupado com as consequências do abuso de poder e consciência em várias realidades eclesiásticas, incluindo Congregações e Movimentos. O seu livro sobre este tema: “Die Betroffenen: Seelische Leidensräume in der Katholischen Kirche” (DE) (Os Afectados: Espaços de Sofrimento Espiritual na Igreja Católica – Tradução literal do título, visto não haver tradução portuguesa NT) já está publicado.

CoverEditora: Echter; 1ª edição (6 de Setembro de 2021)
Livro de bolso: 192 páginas
ISBN-10 ‏ : ‎ 3429056632
ISBN-13 ‏ : ‎ 978-3429056636
Pode encontrá-lo em alemão em qualquer livraria ou online aqui, também como um e-book. (só em DE)

 

Dia Mundial do Migrante e do Refugiado

 

Original: alemão (18/9/2022). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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