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Colocado em 2022-08-16 In Igreja - Francisco - movimentos

Nicarágua: “As nossas onze vidas estão nas mãos de Deus”

NICARÁGUA, equipa editorial, com material de AICA, CELAM, e Twitter •

“Obrigado, muito obrigado ao povo nicaraguense. Obrigado ao clero de Estelí, Siuna e Matagalpa que se pronunciaram. Deus vos abençoe e vos guarde. Graças aos milhões de irmãos e irmãs que têm demonstrado através das redes que estão connosco. Graças a Celam”, escreveu o Bispo Álvarez de Matagalpa, que durante nove dias foi impedido pela polícia de deixar a Cúria diocesana, onde está retido juntamente com sacerdotes, seminaristas e leigos. —

A Organização dos Estados Americanos (OEA) condenou a Nicarágua na sexta-feira 12 de Agosto pelo seu “assédio” à Igreja Católica, o “encerramento forçado” das ONG e a “perseguição” da imprensa, e insistiu que o governo de Daniel Ortega libertasse os prisioneiros políticos. Nas últimas semanas, as “Irmãs da Caridade” foram expulsas do país, oito estações de rádio da Diocese de Matagalpa foram encerradas: Radio Hermanos, Radio Nuestra Señora de Lourdes, Radio Nuestra Señora de Fátima, Radio Alliens e Radio Monte Carmelo, Radio Católica em Sébaco, Radio San José em Matiguás e Radio Santa Lucía em Ciudad Darío.

Desde 4 de Agosto, o Bispo Rolando Álvarez tem sido impedido de sair de casa. “As nossas onze vidas estão nas mãos do Senhor”, avisou o Bispo de Matagalpa, Monsenhor Rolando Álvarez desde o Palácio Episcopal enquanto rezava os Mistérios Dolorosos do Terço, onde a Polícia Nacional da Nicarágua o mantém recluído desde quinta-feira passada, juntamente com cinco sacerdotes, três seminaristas e dois leigos. “Estamos nas mãos de Deus. Queremos fazer apenas a Sua vontade e queremos dar-Lhe glória”, disse o prelado de 55 anos, que é também o Administrador Apostólico da Diocese de Estelí.

Junto de Jesus

Tudo começou na manhã de quinta-feira 4 de Agosto, quando a polícia impediu os padres e empregados da Diocese de entrarem na Cúria Episcopal para assistir à Eucaristia programada. O Bispo foi alertado para a situação e saiu para pedir à polícia que permitisse que o clero e os trabalhadores diocesanos se deslocassem livremente, mas não encontrou resposta e assim, armado com a imagem do Santíssimo Sacramento, entrou em oração, cantando louvores na rua e declarando que as acções da polícia eram uma violação da paz. A foto emblemática do Bispo de joelhos em frente da polícia foi tirada nesse momento.

Monsenhor Álvarez disse que ele e o resto do povo estão “a ser retidos” na capela de Las Mercedes, na Cúria Episcopal de Matagalpa, onde está Jesus Sacramentado, e assegurou: “Graças a Deus, estamos de boa saúde, vivendo em comunidade, em família, orando, celebrando a Eucaristia, conversando entre nós, falando, dialogando, com força interior, com paz e serenidade nos nossos corações”.

“Com uma alegria na nossa consciência que só pode vir de Deus”, acrescentou ele.

“É uma paz sobrenatural, força, serenidade e alegria. Estamos a viver um retiro na presença do Senhor”, disse ele.

O regime sandinista de Daniel Ortega, através da Polícia Nacional, acusa o Prelado e outros membros da Igreja de tentarem “organizar grupos violentos”, alegadamente “com o objectivo de desestabilizar o Estado nicaraguense e atacar as autoridades constitucionais”.

Monsenhor Álvarez afirmou que só diante do Senhor se prostram os seus joelhos e os seus rostos se inclinam, “e os nossos lábios proclamam o seu senhorio” e, depois de dizer que estão “totalmente convencidos de que tudo acontece para o nosso bem, porque Deus nos ama e nós O amamos”, ofereceu ao Senhor “esta experiência que estamos a viver”.

“As experiências dolorosas não caem emsaco roto, não caem no vazio, são oferecidas ao Senhor e o Senhor devolve-nas em bênçãos”, afirmou.

O Bispo nicaraguense também apelou à superação do ódio, desespero, e a “não guardar rancores ou ressentimentos no coração, não desejar o mal a ninguém, não retribuir o mal pelo mal, mas vencer o mal com a força e o poder do bem”.

“O que acontece, claro, é que o mal é ruidoso, faz muito barulho (…) e dentro da sua natureza demoníaca tenta confundir fazendo as pessoas pensar que é quem ganha e que é maior do que o bem, mas isso é uma tentação de Satanás para fazer desesperar homens e mulheres de boa vontade, de boas intenções”, acrescentou ele.

Monsenhor Álvarez disse também que falou com as outras dez pessoas com quem se encontra recluído sobre o seu estado emocional.

“Queremos dizer-vos que os nossos corações estão cheios de amor, de perdão, da misericórdia do Senhor, e é por isso que estamos em paz. Estamos a descansar nas mãos do Senhor, que é nas melhores mãos em que podemos estar”, disse ele.

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Igreja continental fraterna em solidariedade com a Nicarágua

No contexto da crise política, as Conferências Episcopais na América Latina e Caraíbas levantaram a sua voz para mostrar que o povo nicaraguense não está sozinho neste contexto difícil e expressaram a sua solidariedade e proximidade.

No México, por exemplo, o texto, assinado pelo presidente da Conferência Episcopal (CEM), Monsenhor Rogelio Cabrera, exprime a sua rejeição pela supressão das garantias individuais, especialmente a liberdade de expressão e a liberdade de culto. “Sabemos que nas comunidades, famílias, vida consagrada, sacerdotes, leigos, crianças e jovens sofrem condições que geram medo, tiram a tranquilidade e roubam a paz”, dizem eles.

“Como família eclesial, unimo-nos à criação da consciência para que, perante estas situações que clamam a Deus por justiça social, se acrescentem atitudes de diálogo e de encontro”, afirma o CEM.

Também na Guatemala, os Pastores, perante as últimas notícias e acontecimentos na Igreja Católica “na República irmã da Nicarágua”, mostram a sua proximidade, apoio e solidariedade, especialmente aos padres privados da sua liberdade e a Monsenhor Rolando Álvarez Lagos, Bispo de Matagalpa. Na mensagem, os Prelados também se referem à importância da liberdade de expressão, “que é um dos direitos do Homem”, recordam eles.

“O nosso afecto e apoio estendem-se a todos os católicos nicaraguenses aos quais recordamos a promessa feita pelo nosso Salvador: “Estarei sempre convosco até ao fim do mundo”, (cf. Mateus 28, 20). Que a Imaculada Conceição, o rosto mariano tão intimamente identificado com o povo nicaraguense, proteja e abençoe este país e particularmente aqueles que estão a atravessar as maiores dificuldades”.

Os Bispos guatemaltecos pedem a todos os seus irmãos e irmãs centro-americanos, especialmente aos seus compatriotas, que rezem pela paz na Nicarágua esta semana nas suas paróquias, comunidades cristãs, Movimentos e grupos.

Numa nota de solidariedade, a Conferência Episcopal da Costa Rica faz eco da mensagem emitida pelo CELAM, para que “um caminho de unidade e paz” possa ser traçado.

Finalmente, os Pastores da Igreja da Costa Rica recordam as palavras do Papa Francisco, no sentido de que a liberdade religiosa possa ser respeitada como uma forma de alcançar o caminho da fraternidade e da paz (cfr. Fratelli tutti, n. 279).

Sob a protecção da Virgem Maria, a Conferência Episcopal da Costa Rica chama todos os fiéis da nossa Igreja a permanecerem em constante oração pelos nossos irmãos e irmãs na Nicarágua.

No Paraguai, uma carta da Presidência da Conferência Episcopal (CEP) torna pública a sua solidariedade com Monsenhor Álvarez, que continua a retido na Cúria juntamente com as pessoas que o acompanham.

“Temos plena confiança de que a Igreja Nicaraguense será suficientemente forte para unir o seu povo através do diálogo e da paz”, diz o CEP.

Monsenhor Adalberto Martínez, Arcebispo de Asunción e presidente do CEP, sublinha no texto a sua condenação de “qualquer tipo de violência, ultrajes, ataques e censura contra a Igreja”.

Por sua vez, o Conselho Permanente da Conferência Episcopal do Uruguai (CEU) publicou um comunicado, assegurando a sua proximidade à Nicarágua e aos Pastores que, “nesta difícil situação, continuam a anunciar a Boa Nova do Evangelho”.

O CELAM repudia o assédio governamental

Por seu lado, o Conselho dos Bispos da América Latina e Caraíbas (CELAM) expressou que acontecimentos como o cerco de sacerdotes e Bispos, a expulsão de membros de comunidades religiosas, a profanação de igrejas e o encerramento de estações de rádio “nos doem profundamente. Expressamos a nossa solidariedade e proximidade”, lê-se no texto.

Numa mensagem assinada por Monsenhor Miguel Cabrejos Vidarte e Monsenhor Jorge Eduardo Lozano, presidente e secretário-geral do CELAM, respectivamente, os representantes dos Bispos do continente expressam a sua proximidade com a Igreja na Nicarágua, vítima de ataques contínuos das autoridades governamentais.

A mensagem de solidariedade dirigida a todo o povo de Deus na Nicarágua: Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos e leigas, assegura que os Bispos latino-americanos “acompanham os nossos irmãos e irmãs que por diferentes caminhos procuram ser a voz daqueles que não têm voz, a fim de construir um diálogo capaz de traçar um caminho de unidade e paz”.

“Queremos recordar a Palavra de Deus que, no meio de dificuldades, nos diz: ‘Não tenhas medo e não desmaies, pois o Senhor teu Deus está contigo onde quer que vás’ (Jos. 1,9)”, conclui a nota, assegurando-nos das suas orações por aqueles que sofrem.

À carta do CELAM, a Conferência Episcopal Nicaraguense respondeu assegurando a sua gratidão e recordando que, como recentemente declararam, “a nossa Igreja por natureza proclama o Evangelho da paz”.

Irmãs da Caridade recebidas na Costa Rica

A Conferência Episcopal da Costa Rica confirmou que as Irmãs da Caridade de Santa Teresa de Calcutá, expulsas da Nicarágua pelo regime de Daniel Ortega, foram recebidas pela Diocese de Tilarán Libéria, jurisdição da qual Monsenhor Manuel Eugenio Salazar é o Bispo titular.

“Bem-vindas à nossa Diocese de Tilarán-Libéria”, lê-se a página do Facebook da Conferência Episcopal da Costa Rica, acrescentando: “Recebemo-las com todo o amor que merecem pelo vosso serviço e dedicação a Deus e à Igreja”.

Um total de 18 freiras foram recebidas em solo costarriquenho após a expulsão, pois a ditadura considerou que a congregação “não cumpre os requisitos legais” para continuar a operar no país após 40 anos de serviço.

Na Nicarágua, os Bispos Ticos anunciaram que dedicarão todas as Missas no dia 15 de Agosto pela a Igreja na Nicarágua.

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Este é o último capítulo de uma história de fricção entre a Igreja Católica da Nicarágua e o governante sandinista. Uma reforma da Segurança Social em 2018 levou ao surto de protestos estudantis que foram apoiados por homens de negócios, líderes católicos e pela sociedade civil. O governo reprimiu-os com uma repressão invulgar que deixou pelo menos 355 mortos, 2.000 feridos e 1.600 detidos em momentos diferentes, de acordo com a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH).

Oremos pelo povo da Nicarágua, pelos católicos, e pelos nossos irmãos e irmãs na Aliança de Amor.

 

Fotos: Twitter

Original: castelhano (15/8/2022). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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