sinodalidad

Colocado em 2021-10-05 In Coluna - Cristián León, Igreja - Francisco - movimentos, Igreja sinodal

Da unidade transcendente das religiões

Rumo ao Sínodo sobre a sinodalidade da Igreja, Cristián León

Como já sabemos, a Igreja de Deus foi convocada em Sínodo. O caminho, cujo título é “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão“, iniciar-se-á solenemente nos dias 9 e 10 de Outubro de 2021 em Roma e no dia 17 de Outubro seguinte em cada Igreja particular, com a intenção de se reflectir sobre dez núcleos temáticos ou desafios que a Igreja se propõe a dialogar connosco como Povo de Deus em movimento. Nesta coluna, gostaria de me referir especificamente ao núcleo temático VII. O diálogo com as outras Confissões cristãs.

VII. O diálogo com as outras Confissões cristãs
O diálogo entre cristãos de diferentes Confissões, unidos por um único Batismo, ocupa um lugar particular no caminho sinodal.
Que relacionamentos mantemos com os irmãos e as irmãs das outras Confissões cristãs?
A que âmbitos se referem?
Que frutos colhemos deste “caminhar juntos”?
Quais são as dificuldades?

Antes de mais, gostaria de dizer que Schoenstatt se articula em torno de três objectivos, que são bem conhecidos de todos os seus membros. O que é interessante é como estes objectivos nos informam e nos ajudam a colaborar neste diálogo com as outras Confissões cristãs.

Estes objectivos são:

a) A formação do Homem Novo na Nova Comunidade com um carácter apostólico universal.

O Homem Novo é, segundo o Padre Kentenich, “o Homem animado pelo espírito e vinculado ao ideal, longe de toda a escravidão às formas e de toda a falta de formas“. A Nova Comunidade “esforça-se por uma comunhão profunda e espiritual; por um estar espiritualmente uns nos outros, uns com os outros e uns para os outros; por uma consciência sempre eficaz da responsabilidade mútua ancorada em Deus, que impele o indivíduo e a comunidade para o apostolado universal e, aí, o torna fecundo“. Ou seja, como podemos construir pontes profundas de diálogo e de comunhão com os nossos irmãos e irmãs na fé em Cristo, ainda que separados por razões históricas e por acentuações, que, por não terem sido sanadas a tempo, nos levaram ao escândalo da separação.

A nossa religião foi tomada pela “hybris” (a arrogância) da imoderação, que nos entrincheirou em bandos, alimentando guerras e ódios, construindo muros. Hoje é tempo de entrar em diálogo, paz e comunhão fraterna. Actualmente, o encontro de culturas e religiões é inevitável e, ao mesmo tempo, indispensável. Será o diálogo que alcançará a unidade plena na multiplicidade ou diversidade.

b) Resgate e cumprimento da missão histórico-salvífica do Ocidente.

Ou seja, a prossecução da missão do Ocidente de difundir a fé cristã aos povos do mundo, bem como de lutar pela harmonia querida por Deus entre natureza e graça, entre a causa primeira e a causa segunda , entre ideia e vida. Esta missão deve ser levada a cabo em complementaridade e enriquecimento mútuo com a missão do Oriente e com outras culturas. Hoje em dia, a civilização cristã ocidental está abalada nos seus alicerces, centenas de torpedos atingiram a sua linha de água e os seus alicerces estão a ser minados e sabotados por doutrinas e ideologias alienígenas e perniciosas, que vão contra as propostas e ensinamentos de Cristo. Todas as forças vivas dos crentes em Cristo devem trabalhar em conjunto para gerar não só um diálogo exterior, mas acima de tudo, para gerar um diálogo interior que aborde as últimas questões da existência humana. Como afirma Raimon Panikkar no seu livro “A arriscada aventura no solo sagrado do outro”, é “o caminho do diálogo responsável e aberto como a única forma de se chegar, numa sociedade individualista como a nossa, a um entendimento recíproco entre os povos do mundo, que é a base para se poder falar de paz e justiça“. Só juntos poderemos superar o reducionismo de compreender o Ocidente apenas como um mero desafio político e económico, e ter a coragem de olhar para as origens da nossa história, para assim renovar o Homem ocidental e reavivar as suas raízes culturais e espirituais, para nos reencontrarmos com Deus como Pai e com os nossos irmãos e irmãs na fé como irmãos e irmãs.

c) Constituição e desenvolvimento de uma Confederação Apostólica Universal.

Ou seja, a promoção do trabalho conjunto das organizações apostólicas da Igreja na dependência da hierarquia. O fundador assumiu este objectivo de São Vicente Pallotti. Schoenstatt foi preparado desde as suas origens para assumir esta missão, para coordenar as forças apostólicas com todas as outras Confissões cristãs, uma vez que compreende o carisma especial de cada grupo, o contributo e a riqueza que cada espiritualidade, cada orientação constituiem. Se conseguirmos entrar em diálogo virtuoso com as outras religiões cristãs, seremos capazes de recuperar o terreno dado ao secularismo, de dar sentido, altura e profundidade a tantos que vivem na monotonia materialista, uma vida de pouca espessura porque centrada no mundo quantitativo e aprisionada pela acção e pela mudança própria da adaptação. As religiões em diálogo podem reforçar-se mutuamente, pois concentram-se nos aspectos qualitativos e transcendentes que, dão orientação à nossa existência no mundo. É fundamental compreender com certeza que os aspectos que nos unem são vastamente superiores aos que nos separam. Há tanto a aprender uns com os outros. A riqueza das diferenças pode abrir-nos a horizontes novos e inexplorados. Como Byung-Chul Han coloca, “a expulsão do diferente e do inferno do igual desencadeou um processo destrutivo completamente diferente: a depressão e a autodestruição“.

pluralidad

Navegando a montante

Em segundo lugar, quero empurrá-los ainda mais a montante. Vejamos.

Em Março passado, o Papa Francisco visitou o Iraque e durante o seu primeiro discurso aquando da sua chegada a Bagdade, capital do Iraque, o Papa disse: “As Salamu Alaikum” – que a paz esteja convosco em árabe – e observou: “Venho ao Iraque como peregrino pela paz“. Em Visita à cidade histórica de Ur, o Papa citou Abraão, observando: “A unidade, a união e a fé começaram em Ur. Somos todos netos de Abraão”. O encontro do Papa com o líder xiita do Iraque, Ayatollah Ali al Sistani, foi também muito significativo. Este encontro histórico durou 45 minutos, tempo suficiente para se tornar num marco nas relações entre o Vaticano e o Islão, uma vez que este encontro é considerado histórico e, um grande passo para a paz e compreensão entre as diferentes fés que coexistem no mundo. Já anteriormente, durante a visita do Papa aos Emiratos Árabes Unidos em Fevereiro de 2019, foi assinado em Abu Dhabi um documento conjunto entre o Papa e o Sheikh Ahmad al Tayyeb egípcio, Grande Imã de Al Azhar, a maior instituição sunita, que foi um dos maiores passos nas relações entre o Islão e o catolicismo. O Papa Francisco trouxe uma mensagem de paz e coexistência entre cristãos e muçulmanos, no meio de conflitos na região, tais como a guerra no Iémen. E muito antes, em Novembro de 2014, o Papa Francisco visitou a Turquia para continuar a tradição ecuménica iniciada pelos seus predecessores – o Papa João Paulo II em 1979 e o Papa Bento XVI em 2006 – para promover ainda mais o diálogo inter-religioso durante a sua visita a Ancara e Istambul. Em 2003 o Papa João Paulo II e em 2006 o Papa Bento XVI reuniram-se em audiência privada com o Dalai Lama. Em 2014 o Papa Francisco recusou-se a encontrar-se com o Dalai Lama devido à situação delicada dos católicos na China, mas a vontade existe.

O que quero dizer com isto? Os nossos Papas compreenderam que a religião precisa de ser tratada em termos de globalidade. É necessário penetrar na convergência metafísica de todas as tradições religiosas, pois esta proporciona uma base coerente para um verdadeiro ecumenismo religioso. Por outras palavras, perguntou-se uma vez a Mahatmas Gandhi qual era a religião certa. Gandhi pegou num pau e traçou uma roda na terra, com um aro, raios e um centro e disse: “As religiões são os raios para o centro, que é a Realidade fundamental“.

Poderíamos acrescentar que, quanto mais próximas do aro estão as religiões, mais diferentes e distantes são percebidas como tal; mas à medida que se vai mais fundo na sua religião, mais se vai aproximando da Realidade fundamental que é o Princípio Divino, ou seja, Deus, e quanto mais próximo, mais próximas e mais semelhantes se vêem as outras tradições religiosas também. O aprofundamento da nossa fé e da nossa religião leva-nos a ver as outras religiões como irmãos e irmãs, e assim a construir pontes de diálogo. Como disse Louis Massignon: “a hospitalidade é muitas vezes o caminho para a verdade”. Desta forma, seremos desafiados a viver a nossa própria fé neste contexto mais amplo – que, por outro lado, dada a globalização e os processos migratórios, será inevitável – onde os crentes reconhecerão que esta nova conjuntura nos permitirá redescobrir riquezas insuspeitas na nossa própria religião. Pelo contrário, como afirma Pierre-Françoise de Béthune, O.S.B.: “quando os fiéis de uma religião se fecham e obstinadamente se recusam a acolher a outra, recorrem cada vez mais aos elementos arcaicos da sua própria tradição e pode ver-se que estão a experimentar uma regressão, ou pelo menos que a sua maturidade espiritual está bloqueada precisamente por causa disso. E aqueles que querem conduzir encontros sem se preocuparem com o espírito e a prática do diálogo correm o risco de causar danos“. O convite que é feito é, portanto, um duplo desafio, por um lado para se abordar filosoficamente as culturas e o encontro entre elas que está a ter lugar hoje, e, por outro lado, para se realizar uma reflexão espiritual séria e madura sobre a busca de Deus, a busca de sentido e da simplicidade. Isto ajudar-nos-á a encontrar o tesouro espiritual comum que, é a herança de todas as grandes tradições religiosas do mundo. A nossa grande tarefa evangelizadora está onde estes princípios já não animam e inspiram o Homem de hoje… que é em grande parte a sociedade secular que virou as costas a Deus.

Papa Francisco en Irak


CRISTIÁN LEÓN (1969) é membro do Movimento desde 1991. É actualmente membro do Curso 2 da União dos Homens. É arquitecto e possui uma licenciatura em estética pela PUC e um Mestrado e Doutoramento em história da arte e arquitectura religiosa, UPO Sevilha.

Sínodo

Documento preparatório do Sínodo sobre a Sinodalidade

Documento en pdf (ES)

Página do Sínodo sobre Sinodalidad

 

 

Original: espanhol (3/10/2021). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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