Synodaler Weg

Colocado em 2020-12-06 In Dilexit ecclesiam, Igreja - Francisco - movimentos

Crise de Kentenich – Crise da Igreja (2)

Pe. Kurt Faulhaber, Alemanha •

“A crise do padre Kentenich e a crise da Igreja ao mesmo tempo. O que eles têm a ver um com o outro nas intenções de Deus? Dois acontecimentos que movem nossos corações de uma forma extraordinária. Como duas ondas que convergem e mudam uma à outra, amplificam-se”. – Assim começou uma palestra do padre Kurt Faulhaber, do Instituto dos Sacerdotes Diocesanos de Schoenstatt, há mais de um mês, na conferência de delegados do Movimento de Schoenstatt da Alemanha. Uma palestra apropriada justamente para este momento e para a situação na Alemanha. Mas havia lá alguém que não o deixava em paz e que sempre lamentava que havia muito pouco tempo para discussão e que estas propostas deveriam realmente ser mais amplamente divulgadas e também discutidas. Com a autorização do palestrante, publicamos na semana passada a primeira parte dessa palestra, sobre a “crise de Kentenich” e agora acrescentamos a parte sobre o caminho sinodal da Igreja alemã.—

Um esclarecimento preliminar: Por que um assunto “alemão” em um site internacional?

Um assunto especificamente alemão como o caminho sinodal (e a mesma pergunta é feita exatamente da mesma maneira para assuntos especificamente chilenos ou burundianos) corresponde a um site de Schoenstatt com uma marcada orientação internacional? Também fizemos esta pergunta na redação e nossa resposta neste (como em alguns outros casos) foi afirmativa. Porque é um tema da Igreja e a Igreja é, assim como Schoenstatt como parte dela, universal, mundial. E o que diz respeito a um membro, diz respeito ao todo.

No caso concreto do caminho sinodal, mais duas coisas nos movem.

  • Por um lado, as graves informações falsas sobre o caminho sinodal da Igreja na Alemanha e sobre a Igreja alemã em geral em alguns meios de comunicação conservadores de direita, de língua inglesa e espanhola, que em todo caso (surpreendentemente?) são meios de referência para muitos schoenstattianos, e alguns deles evocam o colapso do ocidente (e que querem resgatar a Alemanha do perigoso diálogo intra-eclesial, em parte com retornos grosseiros).
  • Por outro lado, porque a imagem eclesial (na verdade amplamente desconhecida) de um José Kentenich é marcadamente sinodal. Assim como a do Papa Francisco.

O Pe. Kurt Faulhaber é uma magnífica referência sobre o assunto como padre diocesano alemão. Aqui apresentamos sua exposição, que não dá receitas, mas que convida a pensar e a tomar posição.

Conferência das regiões do caminho sinodal de 4 de setembro de 2020 em Frankfurt. Foto: Synodaler Weg

Caminho sinodal

Nesta palestra, foi-me dada a tarefa de dizer algo sobre as questões que atualmente inquietam nossa Igreja alemã (sob a expressão caminho sinodal), como nos posicionamos como schoenstattianos e como podemos abordar o tema. Esta é uma “batata quente”.

Quero antecipar que não vou fazer aqui nenhum julgamento sobre as questões controversas. Muito menos quero influenciá-los sobre elas. A última coisa que vocês precisam é tentar adivinhar através das minhas palavras o que o Bispo de Fulda  pensa sobre o assunto (N.R.: Bispo Dr. Michael Gerber, membro do Instituto dos Sacerdotes Diocesanos de Schoenstatt).

No caminho sinodal, as diferenças existentes há muito tempo se chocam e parecem intransponíveis. Quais “princípios” do Pe. Kentenich poderiam nos ajudar nisto?

Com o modelo da tríplice voz, vozes do ser, do tempo e da alma, pode-se avaliar as “posições” em nossa Igreja desta forma:

Quem só atende às vozes do tempo, sem escutar a voz de Deus, é arrastado no reboque do espírito negativo do tempo.

Quem apenas ouve as vozes do ser não faz justiça à vida. Isto poderia caracterizar nossa contribuição: ouvir em cada voz de Deus o equilíbrio entre estas três vozes.

E colocar em jogo as vozes da alma.

É evidente que só posso fazer algumas observações sobre as questões com as quais todo um caminho sinodal lida.

Vamos abordá-las de acordo com os quatro fóruns sinodais:

1Fórum Sinodal: “Poder e separação dos poderes – participação e envolvimento comuns na missão”

Há quase 40 anos, o Pe. Kentenich defendeu uma “forte e adequada limitação ou privação na área jurídico-organizacional do poder, unida a uma rica plenitude de poderes no vital” e chamou isto de “lei fundamental da construção” de Schoenstatt por antonomásia.” [1]  O que podemos contribuir a partir daqui com o caminho sinodal? E quando acrescenta a este respeito que “sempre focamos e nos preocupamos na poderosa corrente que flui”, então o essencial é, acima de tudo, a corrente da vida espiritual em comunidade.

Que a Instrução de Roma [2] tenha se encontrado com uma oposição tão forte tem a ver com o fato de que os laicos são contemplados a partir da perspectiva dos sacerdotes, inclusive como possíveis concorrentes. Ao invés de sua própria vocação batismal. Isto nos preocupa especialmente como movimento de laicos. Nosso pai desenvolveu uma espiritualidade laica específica, lida e desenvolvida passo a passo a partir dos carismas e vocações descobertos nas almas. Ele ajudou essa vida a incorporar-se em formas vinculantes de uma sociologia laica e, finalmente, em um direito laico com Roma.

2Fórum sinodal: “Viver em relações bem-sucedidas – Viver o amor na sexualidade e como casal

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Mons. Dr. Michael Gerber, Fulda. Foto: Synodaler Weg

Segundo nosso fundador, trata-se de levar a sério a vida psíquica, especialmente o subconsciente e também a vida sexual, e a vida psíquica dos outros, tanto saudável como doente.

Duas observações: Se vocês se recordam das diferentes citações a este respeito, qual palavra está faltando? Ele não fala da vida psíquica “ideal”. Apesar da pedagogia dos ideais! No que diz respeito à pessoa concreta, não avalia ou mede em termos do ideal. Em seus últimos três anos de vida aqui na Alemanha, nosso pai falou com frequência e repetidamente de “tornar transparente tudo o que foi criado e tudo o que é sexual”. Ambos de uma só vez. Realmente ilógico, porque o sexual pertence ao criado. Mas as circunstâncias daquela época exigiam essa acentuação, destacando o sexual.

O que é decisivo ao observar estas vozes da alma é escutá-las como vozes de Deus, portanto devemos perguntar-nos o que Deus quer nos dizer com elas e quais desejos quer nos transmitir. Naturalmente, os desejos dos homens não coincidem 100% com os desejos de Deus. Talvez 10%.

O maior desejo de todos, o desejo mais profundo de todo coração humano, foi definido por nosso pai como o desejo de amar e de ser amado. Uma forma elementar de expressão é o amor sexual, nas palavras de nosso pai: o instinto para com o corpo, o instinto para com a alma e o instinto para com o filho. Concordamos que este instinto encontra sua autêntica realização natural no casamento entre um homem e uma mulher. Até aqui tudo bem.

Mas esta força do amor atua da mesma maneira em pessoas que se separaram, naquelas que ainda não se casaram e nas pessoas que amam uma pessoa do mesmo sexo. Penso que nosso estilo é o mesmo estilo do nosso pai: ouvir a pessoa envolvida e respeitar sua maneira de amar. Sim, e também escutar a voz de Deus nessas vozes da alma.

Provavelmente vocês dirão: Mas eu não posso aprovar! Vocês não têm que fazê-lo. De acordo com a imagem do nosso pai, basta que procurem o “ouro”, dito com suas palavras: “Vocês não encontrarão ninguém… em quem não haja uma série de pérolas que devemos descobrir”. Naturalmente, primeiro tenho que descobri-las e reconhecê-las. Tampouco encontrarão ninguém em quem essas pérolas não estejam misturadas com lama e escória de todo tipo…” [3]

Mas isto é contrário à doutrina da Igreja! Deixemos este problema para os teólogos. A missão de Schoenstatt é estabelecer a ligação [4]  entre ciência e vida. Portanto, para a teologia, mas também para as ciências humanas. Nossa especificidade é: Como a capacidade de amar pode ser vivida e desenvolvida na alma de cada pessoa sem exceção? Como seu próprio amor pode se tornar ponte para o amor de Deus?

Acredito que desta forma estaremos seguindo o caminho do nosso pai e não temos que nos polarizar, nem em Schoenstatt, fazer parte da polarização no sínodo.

3Fórum sinodal: “Forma de vida sacerdotal”

Sacerdotes casados? Vamos ouvir novamente as vozes da alma. Há muitas vozes da alma de homens jovens que preencheriam todas as condições para o sacerdócio e que ali poderiam descobrir sua vocação, e que qualquer reitor de seminário consideraria adequado, mas que vêem claramente que estão chamados ao matrimônio. Para mim trata-se apenas de uma coisa: levar a sério estas vozes da alma e perguntar o que Deus quer nos dizer com isto.

Tenho que lhes dizer o seguinte: Quando leio isso na luta do Beato Karl Leisner até o limite entre o sacerdócio e o matrimônio, tenho sempre a impressão de que aqui se vive intensamente uma profunda dupla vocação, para o sacerdócio e para o casamento. Talvez ele tenha tido que sacrificar inevitavelmente uma vocação em prol da outra?

Deus fala agora não apenas através do número decrescente contínuo de sacerdotes. E não se trata apenas da questão de como aumentar seu número através do viri probati. Ao invés disso, devemos escutar para onde vai o chamado de Deus nas almas daqueles que buscam sua vocação.

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© Synodaler Weg/Jochen Reichwein

4 Caminho sinodal: “Mulheres nos serviços e cargos da Igreja”

Na casa do bispo de Fulda há uma cesta cheia de telhas quebradas. As mulheres de Maria 2.0 as rotularam e as entregaram à Conferência Episcopal. Eu as li com a suposição de que nelas estaria escrita a exigência de ordenação sacerdotal. De forma alguma. O tema recorrente é sobre como são valorizadas e tratadas pelos padres. Por exemplo: “Nossa entrega a Deus e nossa preocupação com o próximo são usadas para fins clericais. O que suportamos em nome da causa de Jesus?” “Abuso de poder através da humilhação, exclusão e exploração, em vez de encorajamento, inclusão, ser um presente”. “Falta empatia”. Vozes da alma!

A visão de que as mulheres assumam papéis de liderança na Igreja foi imposta a partir do Vaticano para as paróquias, passando pelas sedes episcopais. Sua concretização está apenas no início. No jubileu de Hoerde, há alguns meses aqui em Schoenstatt, o bispo Gerber chamou a atenção para a amplitude com que as mulheres assumem papéis de liderança no Movimento de Schoenstatt e não como colaboradoras ou delegadas dos sacerdotes, nem mesmo em dependência deles. É por isso que devemos pensar que outros, com experiências anteriores diferentes, cheguem a conclusões diferentes.

Mas e quanto ao sacerdócio? Escalemos aqui também com o Pe. Kentenich às profundezas da alma das “mulheres nobres”. Há mulheres nas quais há uma forte tendência para o sacerdócio. Surpreende-me como muitas mulheres dizem que, quando crianças, jovens e também adultas, tinham o desejo de ser acólitas e depois sacerdotisas. Mas tiveram que ouvir um “não”. Por que não? “Porque você é uma menina”. Uma decepção, sim, uma ferida com repercussões.

Nosso pai encorajou a tendência da alma ao sacerdócio. Em nosso movimento existem cursos de mulheres nos quais o sacerdotal faz parte do seu ideal. Entre as seguidoras da corrente do jardim de Maria havia uma corrente de diaconisas, querida por nosso pai.

É verdade que a partir daí a tendência, ou mesmo a exigência, pelo diaconato ou pelo sacerdócio nunca surgiu. Permaneceu em um nível totalmente espiritual. Toda batizada tem a vocação batismal para participar do sacerdócio de Cristo.

Isto mudou e abre caminho com força. Aqui eu não apresento palavras a favor do acesso das mulheres ao sacerdócio. Mas com mais razão deve-se ouvir estas vozes poderosas da alma e ouvir nelas também a voz do Espírito Santo.

Que sons estranhos e motivos questionáveis também sejam ouvidos, é algo que o Pe. Kentenich considerou evidente também em seu trato com mulheres. Mesmo as correntes poderosas às vezes regam fora do vaso; às vezes a vida forte também arrasta os diques.

Perguntemos pacientemente com o caminho sinodal o que o Espírito de Deus quer nos dizer com isto:

– Será uma questão de redescobrir novamente o sacerdócio espiritual de todos os batizados e também de uma maneira marcadamente feminina?

– Ou será que o Espírito Santo fará surgir um novo “ministério feminino” desenvolvido e marcado pelas mulheres? Uma alternativa ao sacerdócio ministerial marcadamente masculino de dois mil anos?  Neste sentido, o Papa Francisco se pronunciou no documento do sínodo para a Amazônia, quando mencionou o “surgimento de outros serviços e carismas especificamente femininos” [5].

Para mim trata-se do seguinte: Deus atua nas profundezas da alma e ali Ele mostra seus desejos e prepara novidades para o futuro.

Nada de soluções ou receitas,  mais sim de experiências

Em todas estas questões não temos soluções a oferecer a partir de Schoenstatt. E isto é bom; desta forma, podemos ajudar a procurá-las com honestidade. Mas temos (nas palavras do padre Kentenich) “princípios” que podemos colocar à disposição da Igreja. Em todo caso, não devemos colocar nossos princípios sobre a mesa, mas sim introduzir nossas experiências baseadas nestes princípios nas conversas.

Continuamos no caminho do Pe. Kentenich. Mas não seguindo-o, mas sim caminhando com ele [6]. Seu caminho é nosso caminho. Nosso caminho é o dele. Isto pode nos dar uma proximidade espiritual mais intensa com ele e entre nós. Um irmão de comunidade está muito comovido com isso. Ele me escreveu algumas palavras e com elas quero terminar:

É o momento de formar uma nova comunidade de corações com nosso pai e fundador.

Pai, meu coração em seu coração.

Pai, seu coração no meu coração.

O coração do pai bate no meu coração.

Ouço a voz do coração e a expresso em palavras.

Coloco minhas palavras do coração em jogo, em minha vida, em minha comunidade, em minhas relações, na Igreja.

 

[1] “Carta a José” em “O segredo da vitalidade de Schoenstatt de Schoenstatt, parte 1, Espírito e Forma”

[2] Instrução da Congregação para o clero: A conversão pastoral da comunidade paroquial ao serviço da missão evangelizadora da Igreja (29.06.2020) (ES)

[3] Conferência de 20 de abril de 1963 a um curso do Padres de Schoenstatt. Citado por: King, Uma apresentação de seu pensamento em textos, volume 3, “Comunidade de corações“, págs. 60 a 69 (Edição em espanhol).

[4] O P. Kentenich fala de ser “oficial da ligação”.

[5] Querida Amazônia nº 102.

[6] Na linguagem de Schoenstatt: não somente assemelhamento, mas também incorporação.

Original: Espanhol (1/12/2020). Tradução: Luciana Rosas. Curitiba, Brasil

Crise de Kentenich – Crise da Igreja (1)

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