Colocado em 2020-11-16 In Francisco - Mensagem, Igreja - Francisco - movimentos

Se temos dons, é para nós sermos dom para os outros

DIA MUNDIAL DOS POBRES •

Este não é o Dia Mundial da Pobreza. É o Dia Mundial dos Pobres. O Papa dos Pobres, como muitos o chamam, coloca-os no centro. Os pobres, os 100 na Missa, os milhares de pobres, mas pobres concretos: os que não têm tecto, os que não sabem como pagar as contas, os que sofrem de fome, os que não têm dinheiro para pagar os seus estudos ou os dos seus filhos… Quando nos comprometemos com Dequeni, com a Casa Mãe de Tupãrenda, com Maria Ayuda, com a Escola José Kentenich de Puente Alto ou com o Jardim-de-infância ao lado, com a Casa del Niño de Florencio Varela ou Villa Ballester, temos sempre de olhar para as crianças, para os jovens de lá. Por isso, as histórias reais com rostos e nomes. —

Trata-se de sermos “cristãos de obras, não de palavras” e que, como os bons servos do Evangelho, “arrisquemos”, porque “o bem, se não investido, perde-se; porque a grandeza da nossa vida não depende de quanto acumulamos, mas de quantos frutos damos” e porque “aquele que não vive para servir não serve para viver”.

pobres

Refugiados em Uganda

Texto integral da Homilia do Papa

A parábola que ouvimos apresenta um início, um centro e um fim, que iluminam o início, o centro e o fim da nossa vida.

O início. Tudo parte de um bem avultado: o dono não guarda as suas riquezas para si, mas entrega-as aos servos: a um cinco talentos, a outro dois, e ao terceiro um, «a cada qual conforme a sua capacidade» (Mt 25, 15). Calcula-se que um único talento equivalia aproximadamente ao salário de vinte anos de trabalho: era um bem superabundante, que então dava para uma vida inteira. Aqui está o início: também connosco tudo começou com a graça de Deus – tudo, sempre, começa com a graça de Deus, não com as nossas forças – com a graça de Deus, que é Pai e colocou um bem tão grande nas nossas mãos, confiando a cada um talentos diversos. Somos portadores duma grande riqueza, que não depende da quantidade de coisas que temos, mas daquilo que somos: a vida recebida, o bem que há em nós, a beleza intangível com que Deus nos dotou. Feitos à imagem d’Ele, cada um de nós é precioso a seus olhos, cada um de nós é único e insubstituível na história! É assim que Deus nos vê, é assim que Deus nos sente.

Como é importante lembrarmo-nos disto! Muitas vezes, olhando para a nossa vida, vemos só o que nos falta e lamentamo-nos daquilo que nos falta. Então cedemos à tentação do «quem dera…»: quem dera que eu tivesse aquele emprego, quem dera que eu tivesse aquela casa, quem dera que eu tivesse dinheiro e sucesso, quem dera que eu não tivesse tal problema, quem dera que eu tivesse pessoas melhores ao meu redor! Mas a ilusão do «quem dera» impede-nos de ver o bem e faz-nos esquecer os talentos que possuímos. É verdade que tu não tens aquilo, mas tens isto, e o «quem dera» faz com que nos esqueçamos disto. Mas Deus confiou-no-los, porque conhece cada um de nós e sabe aquilo de que somos capazes; confia em nós, apesar das nossas fragilidades. Confia até naquele servo que esconderá o talento: Deus espera que também ele, não obstante os seus medos, utilize bem aquilo que recebeu. Em suma, o Senhor pede que nos empenhemos no tempo presente sem nostalgia do passado, mas na diligente expectativa do seu regresso. Sem aquela nostalgia ruim, que é como o humor amarelo, o humor negro que envenena a alma, fazendo-a olhar sempre para trás, sempre para os outros, e nunca para as próprias mãos, para as possibilidades de trabalho que o Senhor nos deu, para as nossas condições, inclusive para as nossas pobrezas.

Chegamos assim ao centro da parábola: a atividade dos servos, isto é, o serviço. E serviço é também a nossa atividade, aquilo que faz frutificar os talentos e dá sentido à vida: de facto, quem não vive para servir, não serve para viver. Devemos repetir isto e repeti-lo muito: quem não vive para servir, não serve para viver. Devemos meditar nisto: quem não vive para servir, não serve para viver. Mas qual é o estilo do serviço? Servos bons, no Evangelho, são aqueles que arriscam. Não se mostram exageradamente cautelosos e precavidos, não conservam intacto o que receberam, mas usam-no. Com efeito o bem, se não se investir, perde-se, já que a grandeza da nossa vida não depende de quanto amealhamos, mas do fruto que produzimos. Quantas pessoas passam a vida só a acumular, pensando mais em estar bem do que em fazer bem! Como é vazia, porém, uma vida que se preocupa das próprias necessidades, sem olhar para quem tem necessidade! Se temos dons, é para nós sermos dom para os outros. Neste ponto, irmãos e irmãs, perguntemo-nos: preocupo-me só das necessidades, ou sou capaz de olhar para quem tem necessidade? Para quem passa necessidade? A minha mão é assim [mostra-a aberta] ou assim [a mão fechada]?

Note-se que os servos que investem, que arriscam, quatro vezes são chamados «fiéis» (Mt 25, 21.23). Segundo o Evangelho, não há fidelidade sem risco. «Mas, padre, ser cristão significa arriscar?» – «Sim, querido ou querida, arriscar. Se tu não arriscas, acabarás como o terceiro [servo]: enterrando as tuas capacidades, as tuas riquezas espirituais, materiais, tudo». Arriscar: não há fidelidade sem risco. Ser fiel a Deus é gastar a vida, é deixar que os nossos planos acabem transtornados pelo serviço. «Eu tenho este plano, mas se me ponho a servir…» Deixa que fique transtornado o plano; tu, serve. É triste quando um cristão se coloca à defesa, prendendo-se apenas à observância das regras e ao respeito dos mandamentos. Aqueles cristãos «comedidos» que nunca dão um passo fora das regras; nunca, porque têm medo de arriscar. E – permiti-me a imagem – as pessoas que estão de tal modo atentas a si mesmas que nunca arriscam, elas começam na vida um processo de mumificação da alma, e acabam como múmias. Isto não basta! Não basta observar a regras; a fidelidade a Jesus não consiste apenas em não cometer erros; esta é a parte negativa. Assim pensava o servo preguiçoso da parábola: desprovido de iniciativa e criatividade, esconde-se atrás dum medo inútil e enterra o talento recebido. O dono classifica-o de «mau» (25, 26). E, contudo, não fez nada de mal… É verdade! Mas, de bom, também não fez nada. Preferiu pecar por omissão do que correr o risco de errar. Não foi fiel a Deus, que gosta de Se dar; e fez-Lhe a ofensa pior: devolver-Lhe o dom recebido; «deste-me isto, e é isto que eu Te dou». Ao contrário, o Senhor convida a envolver-nos generosamente e a vencer o temor com a coragem do amor, a superar a passividade que se torna cumplicidade. Nestes tempos de incerteza, nestes tempos de fragilidade que correm, não desperdicemos a vida pensando só em nós mesmos, assumindo uma atitude de indiferença. Não nos iludamos dizendo «paz e segurança!» (1 Ts 5, 3). São Paulo convida-nos a olhar a realidade de frente, a não nos deixarmos contagiar pela indiferença.

Então como é servir segundo a vontade de Deus? O dono explica-o ao servo infiel: «Devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros» (25, 27). No nosso caso, quem são estes «banqueiros» capazes de nos proporcionar juros duradouros? São os pobres. Não o esqueçais: os pobres estão no centro do Evangelho; o Evangelho não se compreende sem os pobres. A personalidade dos pobres é igual à de Jesus que, sendo rico, aniquilou-Se a Si mesmo, fez-Se pobre, fez-Se pecado, a pior pobreza. Os pobres garantem-nos um rendimento eterno e permitem, já agora, enriquecer-nos no amor. Com efeito, a maior pobreza que devemos combater é a nossa pobreza de amor. A maior pobreza que devemos combater é a nossa pobreza de amor. O livro dos Provérbios elogia uma mulher diligente e caritativa, cujo valor é superior ao das pérolas; devemos imitar aquela mulher que, como diz o texto, «abre a mão ao indigente» (Prv 31, 20): esta é a grande riqueza daquela mulher. Em vez de exigir o que te falta, estende a mão a quem passa necessidade: assim multiplicarás os talentos que recebeste.

Aproxima-se o período do Natal, o tempo das festas. E a pergunta que muitas vezes as pessoas se colocam é: «O que posso comprar? Que mais posso ter? Preciso de ir às lojas comprar». Digamos a outra versão: «O que posso dar aos outros?». Para ser como Jesus, que Se deu a Si mesmo e até nasceu naquele presépio.

Chegamos, assim, ao final da parábola: haverá quem tenha em abundância e quem tenha malbaratado a vida ficando pobre (cf. 25, 29). Em suma, no fim da vida, esta desvendar-se-á como é na realidade: declinará a ficção do mundo – segundo a qual o sucesso, o poder e o dinheiro é que dão sentido à existência –, enquanto o amor, aquilo que tivermos dado, surgirá como a verdadeira riqueza. Aquelas coisas declinarão, ao passo que o amor sobressairá. Como escrevia um grande Padre da Igreja, «assim acontece na vida: quando chega a morte, acaba-se o espetáculo; todos tiram a máscara da riqueza e da pobreza ao deixarem este mundo. E são julgados apenas com base nas suas obras, resultando uns realmente ricos, outros pobres» (São João Crisóstomo, Discurso sobre o pobre Lázaro, II, 3). Se não queremos viver pobremente, peçamos a graça de ver Jesus nos pobres, servi-Lo nos pobres.

Quero agradecer a tantos servos fiéis de Deus, que vivem assim, servindo, e de quem não se fala. Penso, por exemplo, no padre Roberto Malgesini. Este padre não fazia teorias; simplesmente, via Jesus no pobre; e o sentido da vida, em servir. Enxugava lágrimas com mansidão, em nome de Deus que consola. O início do seu dia era a oração, para acolher o dom de Deus; o centro do dia, a caridade para fazer frutificar o amor recebido; o final, um claro testemunho do Evangelho. Aquele homem compreendera que devia estender a sua mão aos inúmeros pobres que encontrava diariamente, porque em cada um deles via Jesus. Irmãos e irmãs, peçamos a graça de ser cristãos não em palavras, mas em obras… para dar fruto, como Jesus deseja. Assim seja.

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Crianças da Casa del Niño, Florencio Varela, Argentina

Original: Espanhol (15/11/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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