Colocado em 2020-11-19 In Artigos de Opinião, Igreja - Francisco - movimentos

“Diretores espirituais perigosos? Abuso de consciência e espiritual“

CONFERÊNCIA SOBRE ABUSO ESPIRITUAL, Maria Fischer •

Não era a primeira vez que a Igreja Católica abordava o tema do abuso espiritual; já foram realizadas conferências sobre o tema na França e na Áustria.  Então qual foi a diferença em Leipzig? No começo do encontro houve dois testemunhos detalhados, honestos e inquietantes de vítimas de abuso espiritual nas novas comunidades eclesiásticas. Com nomes, rostos e histórias. Ao final da intensa e – no melhor sentido da palavra – exaustiva conferência online “Diretores espirituais perigosos. Abuso de consciência e espiritual” foi dito que isto produziu uma mudança. A conferência, que aconteceu nos dias 12 e 13 de novembro, contou com a participação de aproximadamente 400 pessoas, bem como de vários jornalistas credenciados. — 

A Academia Católica da Diocese de Dresden-Meißen foi quem organizou esta conferência, em cooperação com a Conferência Episcopal Alemã e a Câmara Médica da Saxônia. A conferência foi marcada pela atitude: #LernendeKirche (Igreja que aprende ou igreja em aprendizagem).

Olhar para o abuso espiritual não relativiza o tema do abuso sexual

“Já passou uma década desde que a Igreja Católica Alemã mudou de forma duradoura e abalou sua própria imagem,  a partir da exposição dos abusos sexuais dentro da instituição e seu encobrimento sistemático por parte dos responsáveis. Cada vez mais, o fracasso sistêmico demonstrou que, em muitos casos, o abuso sexual era precedido por abuso de consciência e espiritual. Mais uma vez, foi o jesuíta Klaus Mertes quem exigiu um exame autocrítico da ação pastoral”, disse Thomas Arnold, diretor da Academia Católica da Diocese de Dresden-Meissen, na abertura da conferência. “Agora está claro que o papel dos ‘diretores espirituais’ (homens e mulheres) deve ser analisado para garantir a integridade e a confiabilidade do trabalho pastoral. Aqui não se trata de encobrir a culpa do passado, mas de lidar honestamente com os antecedentes do abuso sexual. Como há dez anos, as reações eram ambivalentes. Alguns vêem a questão como uma nova forma de “contaminação do ninho”, enquanto outros a vêem como uma confirmação de sua imagem institucional. Mas nenhum deles responde à pergunta fundamental. Pelo contrário, é necessário sensibilidade para reconhecer logo no início onde a igreja restringe a liberdade do indivíduo ou, em relação a uma variável transcendente, onde “Deus” suprime o desenvolvimento da própria personalidade”.

 

Antes de mais nada, empatia pelos afetados

“Percebo que não olhamos com atenção suficiente, que não vimos o abuso espiritual – como fizemos com o abuso sexual até 2010 -, ao ponto de considerá-lo um fenômeno marginal, um delito menor de indivíduos. Como Igreja, tenhamos a coragem de lidar honestamente com a questão do abuso espiritual e de consciência no futuro”, disse o Bispo Timmerevers ao concluir a reunião na sexta-feira à tarde. “Como pastores, temos responsabilidade pelo bem-estar das pessoas – não para diminuí-las, mas sim para fazê-las crescer”. Levemos esta responsabilidade a sério. Agradeço pelos numerosos impulsos desta conferência e repito mais uma vez: estamos no início de uma maratona. Nas últimas 36 horas, pude ver através de diferentes perspectivas – legais, médicas e teológicas – mas, sobretudo, através das reações dos participantes: Como Igreja Católica, precisamos primeiro de empatia pelos afetados e talvez também de uma mudança de perspectiva. Consideremos a questão a partir da situação dos afetados! Se nos perguntamos primeiro quais são as conseqüências para nós como instituição, impedimos o tratamento adequado das pessoas afetadas”.

Poder anônimo

O abuso espiritual é sempre um abuso de poder – indicou Mons. Felix Genn:

“Há o perigo de que aparentemente não haja ninguém responsável por trás do poder em uma organização ou sistema, de que um sistema não transparente e caótico torne anônimo o exercício do poder. Mas quando o indivíduo é aparentemente isentado de sua responsabilidade, ele ou ela sabe que é anônimo apesar do grande poder e, assim, cria-se um espaço estranhamente vazio do qual esse poder emerge e o sujeito desaparece”. Isto nos leva à pergunta:

As responsabilidades nas estruturas de gestão e apoio são claramente nomeadas e a liderança é transparente em sua abordagem à autoridade eclesiástica responsável? Quem exatamente é essa autoridade? Existe um canal de queixas claro e independente dentro das organizações e instituições eclesiásticas para os que sofreram tratamento abusivo? Os fóruns interno e externo estão claramente separados?

e:

“Para investigar o fenômeno dos abusos espirituais, em relação com esta tentação de corromper o imediatismo divino do homem, eu gostaria de fazer duas perguntas: Existem sinais óbvios de que a direção se confunde com a voz de Deus? Há sinais óbvios de que algumas pessoas atribuem à direção ou ao grupo uma autoridade divina?

 

Uma lista de verificação para revisar as comunidades eclesiásticas

A Dra. Katharina Anna Fuchs, psicóloga do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, acrescentou que o abuso espiritual é um perigo subestimado com graves consequências para a saúde física, psíquica e mental das pessoas afetadas, que além da fé também pode alterar ou até mesmo destruir a relação com Deus. Para a igreja, agora é importante não fechar os olhos diante do abuso espiritual, mas sim dar aos afetados a possibilidade de serem ouvidos e de serem acreditados em sua história. “As medidas preventivas e ofertas de ajuda concreta devem ser orientadas para as necessidades das pessoas afetadas. Isto requer cooperação interdisciplinar, que também inclui especialistas de fora da igreja. Programas regulares de treinamento são a base do trabalho dos diretores espirituais. Sinceridade e honestidade devem orientar a ação transparente em todos os níveis, disse a Dra. Fuchs.

A Prof. Dra. Myriam Wijlens, especialista em direito canônico de Erfurt, enfatizou que deve haver uma mudança de atitude em relação à proteção e a dignidade da pessoa. No que diz respeito à legislação estatal, deveria ocorrer um processo de desenvolvimento flexível e ser ampliado quando necessário. Ela entende a prevenção como uma reflexão sobre como as pessoas podem estar bem protegidas na igreja. Além disso, os fatores que envolvem comportamentos abusivos devem ser identificados e evitados. A professora Wiljens sugeriu a criação de uma lista de verificação para revisar as comunidades eclesiásticas e realizar visitas regulares a estas comunidades e movimentos. Destacou que as pessoas que se encontram em situações nas quais são facilmente vulneráveis precisam de proteção especial. Isto requer pessoas qualificadas que possam assessorar, tendo como base a legislação existente e que assim possam contribuir para tratar a questão do abuso de consciência.

 

Por que é tão difícil liberar-se de estruturas abusivas?

Segundo Stephanie Butenkemper, uma das pessoas afetadas, aqueles que não experimentaram em si mesmos dificilmente podem entender:

“A idealização da própria comunidade e do próprio modo de vida cria um fosso cada vez mais profundo entre o próprio mundo e o mundo “lá fora”. “Eu tinha minha comunidade, não precisava de mais ninguém, então esta lacuna entre nós e os outros ia crescendo cada vez mais”. “Assim, éramos nós, “a porção dos escolhidos”, e os outros, o mundo maligno, que de alguma forma precisava ser evitado”. “Só de cogitar a ideia de deixar a comunidade traz consigo o medo da perda existencial. O medo da solidão devido ao isolamento social e à consciência familiar comunitária. O medo de perder o sentido da vida, que consiste na comunidade e suas regras, estruturas e ideais, sem que exista qualquer outra alternativa. E finalmente o medo de perder a própria fé ao deixar a comunidade, já que a comunidade reivindica sua espiritualidade característica como “a única correta”.

A armadilha do copiar e colar

Uma declaração de Stefan Hoffmann, como outra pessoa afetada, foi como um balde de água fria derramado sobre os participantes: Se ele mesmo tivesse que dirigir uma casa da comunidade, certamente teria sido igualmente abusivo, pois teria copiado o que havia experimentado e porque não havia mais orientação ou mesmo formação.

Literalmente: “Em muitos movimentos e comunidades eclesiásticas, as pessoas – em sua maioria sem qualquer tipo de formação e qualificação para o acompanhamento espiritual – trabalham na vida de outras pessoas e influenciam as decisões fundamentais da vida de uma forma duradoura e nem sempre para o bem. (…)

A capacitação externa obrigatória para prevenção deve “evitar que as pessoas tenham que sofrer abusos espirituais ou causar danos na vida de outras pessoas, mesmo agindo com boa vontade e sem malícia prévia”. Quando as comunidades e movimentos não consideram necessária uma intervenção ou acreditam que sua espiritualidade é tão especial que não pode ser compreendida e julgada por uma pessoa de fora, a necessidade de intervenção surge como algo urgente.

 

Missbrauch

“Manual para delinquentes”

O Dr. Günter Klug apresentou, de forma drástica, sugestões para a auto-avaliação em um “Manual para delinquentes”. Abaixo estão quatro das onze regras:

 

Regra 3: Controle do ambiente da pessoa e especialmente o seu tempo. Quanto mais tempo é dedicado à organização, menos tempo há para contatos externos e para a reflexão. Ao controlar a informação e a comunicação, isola o grupo do resto da sociedade. No caso de comportamento não conforme com o sistema, induz à distância e à evasão dos membros do grupo.

 

Regra 4: Enfatizar a singularidade do grupo. O grupo é excepcional por experiências especiais. Os membros são escolhidos, todo o resto deixa de ser importante, a resistência é combatida.

 

Regra 5: Manipulação da linguagem do grupo, o que dá novos significados às palavras e frases. O novo entendimento para os de dentro não será compreensível para os de fora. O linguajar interno e a atitude apropriada restringem a capacidade de pensamento crítico das pessoas, desenvolve-se a censura interna. Palavras que são especialmente críticas: unidade, fidelidade, perdão, devoção, serviço.

 

Regra 10: Ameaçar conceder ou privar o direito de existir. Os membros são elitistas, os não-membros são inferiores. Quem sai, perde tudo, não conseguirá nunca.

 

“Por um lado, após este encontro, guardamos um silêncio humilde diante do sofrimento dos abusos espirituais”, disse o diretor da Academia, Dr. Arnold, “por outro lado, o conhecimento adquirido clama pelo desenvolvimento dentro da Igreja de uma nova consciência de liderança carismática e das deficiências das estruturas de poder existentes e sua exaltação espiritual”. Vamos correr esta maratona juntos. Ainda temos um longo caminho a percorrer em direção à liberdade”.

 

É “Igreja” ou outra categoria?

Depois de dois dias de licença no trabalho e de 36 horas de participação nesta conferência, a pergunta: E agora? Este é um tema importante para a categoria “Igreja”, para a qual sempre damos atenção especial em schoenstatt.org, não somente por causa do Dilexit Ecclesiam do padre Kentenich e da aliança solidária com o Papa Francisco, mas porque nós, como Schoenstatt, somos Igreja. Ou é outra categoria? Sim, é outra categoria, são temas. De Schoenstatt.

Com as acusações e publicações sobre o possível abuso de poder e de consciência do padre Kentenich, nós como editores – e não apenas nós – demo-nos conta, não pela primeira vez, mas sim de forma mais intensa, do tema do abuso de poder, abuso de caráter espiritual e mental em Schoenstatt; como um perigo e também uma realidade, como deixam claro as cartas da juventude do Chile ou do Brasil e o artigo de Luciana Rosas.

 

Comecemos a maratona para a liberdade.

 


A documentação detalhada da conferência pode ser encontrada em alemão em “Herder Thema”, Gefährliche Seelenführer? Geistiger und geistlicher Missbrauch. A revista foi publicada no dia 16 de novembro de 2020 e também está disponível em e-book.

Verlag Herder
1. Auflage 2020
Geheftet
64 Seiten
ISBN: 978-3-451-02747-5
Bestellnummer: P027474
E-Book:
ISBN: 978-3-451-82221-6
Bestellnummer: P822213

 

Original: Espanhol (18/11/2020). Tradução: Luciana Rosas, Curitiba, Brasil

Percussão medial

 

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