Colocado em 2020-05-11 In Igreja - Francisco - movimentos, José Kentenich

Dachau – Lugar de uma “monstruosa e incomparável quebra de civilização”

ALEMANHA, Maria Fischer •

Até hoje, considera “incompreensível como num país marcadamente cristão como a Alemanha tais crimes foram possíveis”, disse o Cardeal e Arcebispo Reinhard Marx durante a sua visita à Capela Católica da Agonia de Cristo, localizada no terreno do Memorial do Campo de Concentração de Dachau, por ocasião do 75º aniversário da libertação do Campo e do fim da guerra. Foi aí gravado um pequeno filme para oferta online do Arcebispado de Munique e Freising.—

Do facto da prática de tais crimes deriva “um mandato para estarmos hoje atentos e cuidadosos uns com os outros”. Toda a vida humana é valiosa, Reinhard Marx deixa claro. “Independentemente da religião, confissão ou sexo. Nós somos uma família humana!”

Segundo Reinhard Marx, Dachau tornou-se o local de uma “monstruosa e incomparável quebra de civilização” durante o reinado de terror dos nacional-socialistas. Desde 22 de Março de 1933, o regime nazi já tinha deportado cerca de 206.000 pessoas de 34 nações para o campo de concentração de Dachau e para os subcampos que foram construídos mais tarde. O Campo foi um dos primeiros na Alemanha de Hitler e tornou-se um modelo para os últimos locais de terror das SS.

Devido à crise do coronavírus, o Memorial do Campo de Concentração de Dachau está encerrado e as celebrações previstas para 8 de Maio, por ocasião do 75º aniversário da libertação do campo e do fim da guerra, só terão lugar virtualmente.

 

O que algumas pessoas podem fazer a outras pessoas

Dachau lembra-nos o que algumas pessoas podem fazer a outras pessoas. “Não vale a pena enganar-se”, diz o Padre Kentenich, que ali esteve prisioneiro durante três anos. “As imensas dificuldades do campo de concentração eram: falta de pão, privação de direitos, desenraizamento, ignomínia e indefensabilidade”. (P. Kentenich, 1948)

Falta de pão

“É valioso ter vivido estas coisas durante anos, então, é possível compreender as pessoas simples de hoje, no período do pós-guerra, que agora caíram numa miséria semelhante”. É preciso dizer a si próprio: como pode um povo assim permanecer espiritualmente acordado e vivo se não está saciado de comida? Como pode um povo nesta angústia ainda viver de uma forma razoavelmente humana? Não fui poupado a estas coisas, tendo visto constantemente esta necessidade gritante, estes abusos. “Um prisioneiro cai ao nosso lado e em caso de necessidade ninguém pode ajudar.” (P. Kentenich, 1948)

A pandemia do coronavírus está a fazer que haja pessoas que passam fome. Diante dos nossos olhos. Sabemos isto através dos testemunhos do Paraguai, da Argentina, do Chile. Podemos vê-lo. E em caso de necessidade… sim: nós podemos ajudar. E podemos compreender o que um Padre Kentenich entendeu. Antes da Aliança de Amor, antes da auto-educação e antes do Santuário, muitas pessoas precisam primeiro simplesmente de alguma coisa para comer.

Desenraizamento

“No Campo, as pessoas não podiam suportar-se umas às outras, não estavam próximas umas das outras. Em geral, não havia tanta comunidade autêntica como seria de desejar. Havia um enorme desenraizamento. As pessoas, que por natureza não têm uma atitude sobrenatural, como podem levar uma vida digna em tais esgotos, em tais infernos, em tais situações de injustiça clamorosa? A pessoa tinha de permanecer tão bárbara quanto possível. Quase não se via nada verde no Campo, apenas um par de fileiras de árvores; não havia nenhuma flor”. (P. Kentenich, 1948)

Estamos todos juntos neste barco, disse o Papa Francisco numa Praça de São Pedro tão vazia, mas tão cheia de gente durante a extraordinária bênção Urbi et Orbi. Pessoas que antes da pandemia estavam socialmente bem integradas, tornam-se “animais selvagens em frente à prateleira do papel higiénico no supermercado”, disse-me uma vendedora da Alemanha. E depois há os outros. Aqueles que apoiam os outros no meio desta crise. Com um telefonema, com ajuda financeira, com uma flor para a caixa do supermercado.

Privação de direitos, ignomínia e indefensabilidade

“Numa ocasião consegui retirar muitos padres da lista (para o transporte da morte)”. Os que faziam a lista eram prisioneiros. Antes de chegarem às mãos das SS, era possível introduzir algumas alterações. Quando as pessoas afectadas não constavam da lista, a questão estava resolvida. Por conseguinte, alguns padres foram retirados da lista. Teria gostado de retirar mais, mas não resultou. Havia um par de jesuítas na lista. Um deles tinha sido um escritor, relativamente velho, De Kuning, professor na Bélgica. Devido a um acidente, o seu nome não pôde ser retirado da lista. Procuraram por “Kuning” e o nome era “De Kuning”. Por conseguinte, o nome permaneceu na lista. Ainda hoje vejo a imagem quando eles estavam a reunir os prisioneiros para o transporte. Ali estavam eles de pé… São situações em que se pode chorar. Personalidades fortes, que tinham feito algo grandioso na vida, foram impiedosamente entregues à morte da forma mais cruel. Como o sentido de justiça foi violado”. (P. Kentenich, 1948)

Personalidades fortes, que fizeram algo grandioso na vida, durante semanas sem visitas no Lar ou em casa. Personalidades fortes, que fizeram algo grandioso na vida, sem emprego e sem rendimentos, porque a empresa fechou ou está insolvente. Personalidades fortes, que fizeram algo grandioso na vida, abandonadas face à morte, porque nem sequer os membros da família podem entrar no hospital.

A crise do Coronavírus não é Dachau. Mas Dachau e a quebra de civilização de que fala o Cardeal Marx pode ser um estímulo e uma questão de consciência no meio da Coronacrise.

 

Original: alemão (6/5/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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