Colocado em 22. Abril 2019 In Em Aliança solidária com Francisco, Igreja - Francisco - movimentos

Viver a solidariedade no Mediterrâneo… e mais além

ALEMANHA, redacção •

Na actualidade, a Europa está ocupada, principalmente, com o Brexit. Os britânicos vão-se embora, quando vão, como vão…? E, perguntamo-nos como é possível que a ideia europeia, aquela ideia de uma Europa unida e livre, tenha perdido, de tal modo, a sua luminosidade e que, se tenha reduzido a uma coisa, meramente, com interesse económico. Entretanto, milhares de migrantes e de refugiados estão a morrer no Mediterrâneo. Por ocasião da entrega, do Prémio Lew Kopelew para a Paz e os Direitos Humanos, à iniciativa de resgate marítimo “Mission Lifeline”, o Cardeal Marx, Presidente da Conferência Episcopal Alemã, fez, no fim-de-semana de 7 de Abril, uma clara declaração cristã e na linha do Papa Francisco, que sempre recorda aos Estados e aos povos da Europa mais solidariedade e humanidade simples.—

Publicamos as palavras de saudação do Cardeal Marx no texto abaixo. E, as suas palavras e as palavras do Papa Francisco aplicam-se, mutatis mutandis, (“mudando o que deve ser mudado” N.T.) a todas as fronteiras onde os migrantes e refugiados se afogam, morrem de fome, morrem de sede e de desespero. Ao mesmo tempo, as palavras do Cardeal, especialista em doutrina social cristã, recordam a tensão criativa entre espaço oficial e espaço livre, entre instituição e livre iniciativa, e o empenho da instituição em pelo menos deixar viver as iniciativas livres complementares; iniciativas que muitas vezes fazem o que a instituição nunca poderia fazer. Não só no Mediterrâneo.

Nos últimos cinco anos, tanto quanto sabemos, cerca de 18 000 refugiados e migrantes afogaram-se no Mediterrâneo: homens, mulheres e crianças que procuravam uma vida de liberdade, segurança e dignidade e que, em vez disso, morreram nesta fronteira externa europeia. Nos tempos antigos, o Mediterrâneo era uma área de conexão entre a Europa, a África e o Médio Oriente . Hoje parece ser, acima de tudo, uma área de isolamento. Como a Agência das Nações Unidas para os Refugiados declarou no ano passado, o Mediterrâneo tornou-se a rota marítima mais mortífera do mundo para aqueles que procuram protecção.

O Papa Francisco recorda, vezes sem conta, aos países da Europa a sua responsabilidade humanitária. Em Julho de 2013 fez, conscientemente, a sua primeira viagem como Papa a Lampedusa, onde homenageou, com palavras fortes, os muitos afogados: “Quem chorou  a morte destes irmãos e irmãs? Quem chorou por estas pessoas que estavam no barco? … Somos uma sociedade que esqueceu a experiência do choro, da “compaixão”: A globalização da indiferença privou-nos da capacidade de chorar!”

Como cristãos, não devemos simplesmente resignar-nos à miséria e à necessidade das pessoas. Diferenciação e insensibilidade contradizem a mensagem de Jesus Cristo. Pelo contrário, somos chamados a viver a caridade e a solidariedade activa. Os salvadores marítimos mostram o que isto pode significar em termos concretos: Com grande compromisso pessoal, eles ajudam onde a maior parte de nós prefere olhar para o outro lado.

Os Estados da Europa não devem fugir à obrigação jurídica e ética, internacionais, de salvamento no mar. Se eles próprios não garantirem suficientemente o salvamento no mar, devem, pelo menos, deixar actuar os salvadores da sociedade civil. Neste momento, parece ser o contrário: O salvamento estatal está a ser reduzido e o salvamento não estatal está a ser bloqueado. É certo que o salvamento marítimo feito pela sociedade civil não é uma solução política para as grandes questões da fuga e da migração no Mediterrâneo. Mas, precisamente porque os Estados da Europa ainda não encontraram uma solução, o empenhamento do serviço de salvamento marítimo continua a ser indispensável: em primeiro lugar e acima de tudo, para salvar vidas humanas, mas também para desafiar a acção política.

A iniciativa de salvamento marítimo de Dresden “Mission Lifeline” e o seu capitão Claus-Peter Reisch recebem hoje o Prémio Lew Kopelew para a Paz e os Direitos Humanos. Eles, querido Capitão Reisch e queridos companheiros de armas da “Mission Lifeline”, não se deixaram desencorajar pelas dificuldades. Em vez disso, a máxima de que as pessoas afogadas devem ser resgatadas era e é válida para vocês – sem ses nem mas! Especialmente em alturas em que o vento é mais forte, vocês defendem a humanidade.

Os direitos humanos seriam praticamente desprovidos de sentido, sem o direito à vida. É por isso que, é correcto e adequado atribuir um prémio dos direitos humanos aos esforços incansáveis para salvar vidas humanas. Felicito-o calorosamente por este prémio. Desejo-lhe a rica bênção de Deus para o seu futuro compromisso.

Fotos: Twitter Mission LifeLine

 Original alemão (8/4/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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