Colocado em 6. Abril 2019 In Dilexit ecclesiam, Igreja - Francisco - movimentos

Eis porquê no Líbano a Anunciação de Maria é feriado nacional

DILEXIT ECCLESIAM, Gianfrancesco Romano •

Num tempo em que extremismos opostos semeiam a divisão e lançam a morte entre os crentes das diversas religiões, Maria pode constituir um importante ponto de contacto e de proximidade entre os Cristãos e os Muçulmanos. E, não se trata, apenas, de uma possibilidade remota: a Mãe de Jesus, venerada também no Islão, já hoje reune numa única devoção e num clima de fraternidade, pessoas com fé e credos diferentes. Um bonito testemunho vem-nos do Líbano, país multi-religioso até nas instituições – ao ponto de a Constituição prever uma sub-divisão dos principais cargos públicos com base nas religiões – e onde o 25 de Março, Solenidade da Anunciação de Maria é feriado nacional.

Reportamos, de seguida, o artigo publicado pela Agência Fides ( a Agência das Congregações para a evangelização dos povos) na precisa altura da Solenidade:

No Líbano, a actual Solenidade Mariana da Anunciação do Senhor foi proclamada Feriado nacional desde 2010. Também, hoje em dia, em várias igrejas e santuários libaneses, cristãos e muçulmanos vivem juntos actos de veneração que dizem respeito a Nossa Senhora.

O Sheik sunita Mohamad Nokkari, professor de direiro islâmico em Beirute, Dubai e Estrasburgo, foi quem, com mais determinação, cultivou e levou a bom termo a intuição de valorizar a veneração a Maria, partilhada por cristãos e muçulmanos, como factor de coesão social e nacional. Um percurso que, nas suas recordações – coligidas pela Agência Fides no decurso de uma viagem ao Líbano organizada graças à Obra Romana de Peregrinações – partiu de solicitações ocasionais muito concretas e para nada académicas: “A minha mulher e eu, ela é francesa” conta à Fides o sheik Nokkari, numa conversa tida na Universidade Saint-Joseph de Beirute “tínhamos, em casa, uma estátua de Nossa Senhora e havia um familiar que, de cada vez que nos vinha visitar, A insultava, escondia-A na casa-de-banho e, uma vez até A partiu em dois bocados. Eu comprei uma outra em metal pesado de modo que, já não pudesse ser danificada”.

Este incidente  familiar contribuiu para fazer nascer no professor sunita a ideia que Maria deveria ser celebrada, em conjunto, por cristãos e muçulmanos. “ Em Lyon falei com o Padre jesuíta Louis Boisset”, diz Mohamad Nokkari, “e verificámos que não havia impedimentos de cariz doutrinal para uma iniciativa deste tipo. Quem melhor que Nossa Senhora, pode reunir cristãos e muçulmanos?” Inicialmente, pensou-se em fazer coincidir a celebração islâmico-cristã de Maria com a Solenidade da Imaculada mas, depois mudámos de ideia, tendo em conta o facto que os cristãos ortodoxos não definiram o Dogma da Imaculada Conceição de Maria. A escolha da data para fazer celebrar Nossa Senhora, conjuntamente por cristãos e muçulmanos, caiu na Solenidade da Anunciação. O Anúncio do Anjo a Maria vem relatado quer, nos Evangelhos quer, no Alcorão, que fala disso em duas Suras diferentes. Maria é a única mulher citada pelo nome no Alcorão por 34 vezes (enquanto que o nome de Maria aparece nos Evangelhos 19 vezes).

A primeira celebração islâmico-cristã da Solenidade da Anunciação foi acolhida no Santuário libanês de Nossa Senhora de Jamhour em 2007. Os líderes políticos ficaram impressionados com a iniciativa e, em 2010 o Primeiro-Ministro Saad Hariri que, ainda agora, é o chefe do Governo, proclamou, o 25 de Março, feriado nacional, o dia em que se celebra a Anunciação. “Por aquela altura”, recorda Nokkari “eu era Secretário do Grande Mufti do Líbano. Quando tomei a iniciativa da celebração conjunta da Mãe de Deus, por cristãos e muçulmanos, geraram-se tensões que levaram à minha demissão”.

As forças políticas não manifestaram contrariedade no que diz respeito à celebração partilhada de Maria. Enquanto que, entre as comunidades religiosas, ao princípio, alguns se mostraram desconfiados porque tinham medo que se tratasse de uma expressão de sincretismo. “Mas, rapidamente” acrescenta o Sheik sunita “foi evidente para todos que, cada um, celebra Maria segundo a sua fé e as suas Tradições, sem misturas”. As únicas oposições permaneceram as expressas pelos grupos salafitas e vaabitas. E, alguns executaram também certos tipos de intimidação, danificando o carro do professor. “Pensei que, por vezes, para seguir Maria, há que sofrer, mas Ela” acrescenta Nokkari “é uma Mãe que nos abraça a todos: seguindo-A e atravessando, também, os sofrimentos, podem florescer coisas boas para todos”.

Do Líbano, a tradição dos cristãos e dos muçulmanos de celebrarem juntos a Solenidade da Anunciação, vai-se espalhando por outros países: Canadá, França, Brasil, Espanha. Também na Jordânia, o 25 de Março poderá, em breve, tornar-se Feriado nacional. Ao passo que, na Universidade de Saint-Joseph já são dados cursos e são concedidas teses de doutoramento dedicadas a Maria no cristianismo e no islão. Os políticos parecem ter agarrado a ideia que a referência comum a Maria pode também favorecer e conservar a unidade nacional. O Primeiro Ministro sunita, Saad Hariri, mostrou-se sensível face a diferentes pedidos, como o de construir um centro para as iniciativas ligadas ao feriado nacional islâmico-cristão da Anunciação. Avança, além disso, a proposta de dedicar à Solenidade da Anunciação uma praça aqui, no Líbano e de propôr à ONU que proclame o 25 de Março como Dia do diálogo islâmico-cristão.

Na opinião de Mohamad Nokkari, o diálogo entre cristãos e muçulmanos foi intensificado e adquiriu consistência – independentemente das formalidades protocolares – no decurso dos últimos 15 anos. O Documento sobre a fraternidade humana assinado em Abu Dhabi pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al-Azhar, é também fruto deste caminho. “Desde que aquele texto foi publicado” refere Nokkari “todas as semanas grupos de cristãos e de muçulmanos se reunem para estudarem juntos os conteúdos. Também na comunidade islâmica se regista uma evolução, começa-se a compreender, por exemplo, que o processo para reconhecer direitos e dignidade às mulheres, implica, também, a predicação religiosa e as práticas religiosas”.

(GV) (Agenzia Fides 25/3/2019).

Fotos: Centre for Lebanese Studies

Original: italiano (31/3/2019). Tradução: Lena Castro Vakente, Lisboa, Portugal

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