Colocado em 18. Outubro 2018 In abuso, Igreja - Francisco - movimentos

Dor, vergonha e compromisso

Abusos sexuais – e agora? Pe. Pedro Kühlcke •

O Evangelho de hoje[1] apresenta-nos um contraste muito forte: Por um lado estão Pedro e os outros Apóstolos que, deixaram tudo para seguirem Jesus – eles receberam a promessa de cem por um e da vida eterna. Por outro lado, está o “homem rico”, sem nome: preferiu os bens materiais a seguir Jesus – ficou sozinho com a sua tristeza. —

Um contraste parecido, talvez ainda mais forte, estamos a vivê-lo nestes dias. Hoje, o Papa Francisco canonizou 7 pessoas, exemplos preclaros de santidade em diferentes ordens de vida[2]. Entre eles, Mons. Oscar Romero: um Bispo que deixou tudo para seguir Jesus e servir os mais necessitados, até dar a sua própria vida. Por outro lado, anteontem o Papa Francisco teve que decretar a demissão do estado clerical – a pena mais gravosa para um ministro ordenado – de dois Bispos chilenos, por abusos sexuais a menores. Um deles, Francisco José Cox, é da minha comunidade e enche-me de tristeza, dor e vergonha. Tristeza e dor pensando nas vítimas – quanto terão sofrido? Quanto tempo passou até que “fosse feita justiça”, se é que lhe podemos chamar assim? Vergonha pensando no verdugo, um Bispo: preferiu seguir os seus instintos desviantes e causar muito dano, a seguir Jesus… Não deveríamos, precisamente, nós, os consagrados, com todas as nossas limitações e pecados, ser exemplos de seguimento radical de Cristo?

O Pe. Juan Pablo Catoggio, o nosso Superior Geral, ontem mesmo escreveu uma carta a toda a Família de Schoenstatt, onde expressa:

Querida Família de Schoenstatt

Hoje o Vaticano deu a conhecer que o Papa Francisco decretou a demissão do estado clerical de Francisco José Cox, ex-arcebispo de La Serena. Alegados abusos sexuais de menores, denunciados nos últimos meses, foram investigadas pela Congregação para a Doutrina da Fé e conduziram a esta decisão. Igualmente, esta pediu expressamente que ele se mantenha na custódia da nossa comunidade.

Recebemos esta notícia com imensa vergonha pelo dano causado às vítimas. Somos solidários com elas e com os seus profundos sofrimentos.
Hoje, mais do que nunca, repudiamos todos os actos de abuso que ofendem a dignidade das pessoas.

Apoiamos incondicionalmente esta decisão em justiça e verdade, pelo bem da Igreja.
Reafirmamos a nossa total disponibilidade em colaborar com a Justiça em tudo que o seja necessário e, por isso mesmo, pediremos uma avaliação médica para averiguar a possibilidade de Francisco José Cox regressar ao Chile.

A verdade causa-nos dor mas liberta-nos. O caminho da verdade e humildade leva-nos a uma profunda conversão e a viver a nossa Aliança de Amor com fidelidade. Rezamos pelas vítimas do passado e por todos os que sofrem de uma maneira ou de outra por causa de tudo isto. Que em nossa fragilidade e miséria, a misericórdia de Deus que nos salva possa irromper. Do Santuário de Bellavista, nós vos recordamos e abençoamos.

No ano de 2010 fiz uma Homilia, no Santuário Jovem, sobre este mesmo assunto[3] e, nessa altura já dizia que é importante confrontarmo-nos com o problema dos sacerdotes que abusaram de menores e, tudo o que isso acarreta. Em primeiro lugar, não podemos deixar de esclarecer que, quem quer que seja que, abuse sexualmente de um menor comete um pecado muito grave. O 6º Mandamento fala, claramente, do bom e do mau uso da nossa sexualidade; mas, este caso é, contudo, muito mais grave do que outros porque, se trata de menores de idade, pessoas indefesas que, muitas vezes, nem sequer têm a possibilidade de falar a esse respeito. É um pecado muito grave aos olhos de Deus e é um crime que tem que ser entregue à justiça civil, sem rodeios nem desculpas[4]. Enche todos os católicos de profunda dor, de muita vergonha e também de muita desilusão, especialmente quando é cometido por sacerdotes e religiosos.

O Papa Francisco é claro e radical na sua luta contra este terrível flagelo que mancha toda a nossa Igreja e, especialmente, os consagrados – assim o vemos com estas dimensões. Ontem, lemos que pediu perdão a jovens espanhóis que estão em Roma no Sínodo.

Peço-vos perdão pelos escândalos que ocorrem na Igreja. Não apenas pelos abusos, escândalos de mundanismo, de apego aos valores que não são evangélicos mas, também pelas incoerências de vida. Vocês veêm isso e dizem: torno-me ateu…Perdão por vos escandalizar. Sinto dor por isto e penso nos erros de nós, Pastores. Não se afastem de Jesus Cristo que é a única fonte de felicidade”. [5]

Já o Papa Bento XVI, no ano de 2010, tinha escrito uma carta aos católicos irlandeses sobre este assunto. É uma carta muito clara e sincera. O Papa utiliza expressões muito fortes quando se dirige, directamente, aos sacerdotes e religiosos que abusaram de crianças.

Traístes a confiança que os jovens inocentes e os seus pais tinham em vós. Por isto deveis responder diante de Deus omnipotente, assim como diante de tribunais devidamente constituídos. Perdestes a estima do povo da Irlanda e lançastes vergonha e desonra sobre os vossos irmãos. Quantos de vós sois sacerdotes violastes a santidade do sacramento da Ordem Sagrada, no qual Cristo se torna presente em nós e nas nossas acções. Juntamente com o enorme dano causado às vítimas, foi perpetrado um grande dano à Igreja e à percepção pública do sacerdócio e da vida religiosa. Exorto-vos a examinar a vossa consciência, a assumir a vossa responsabilidade dos pecados que cometestes e a expressar com humildade o vosso pesar…Ao mesmo tempo, a justiça de Deus exige que prestemos contas das nossas acções sem nada esconder” [6]

Eu, pessoalmente e em nome da minha comunidade, humildemente quero pedir perdão pela ausência do nosso testemunho autêntico e quero pedir perdão, especialmente, a todas as vítimas que, de um ou de outro modo, sofreram graves danos por culpa de membros da minha comunidade.

Também, pessoalmente e como Superior dos Padres de Schoenstatt no Paraguai, comprometo-me e à minha comunidade, a tudo fazer para que os espaços onde actuamos – sejam os Ramos Juvenis do Movimento, sejam os nossos projectos sociais, onde quer que seja – sejam espaços seguros e protegidos onde todos, especialmente os menores de idade e as pessoas vulneráveis, sejam respeitados na sua dignidade e nos seus direitos. Implementámos o “Protocolo de prevenção de abusos sexuais a menores de idade”, da Conferência Episcopal Paraguaia[7] e queremos ajudar a mitigar toda a dor causada.

Perante tudo isto que atitudes devemos assumir? Quero propor-vos algumas.

Em primeiro lugar, quero-vos pedir que sejam mais críticos com os sacerdotes, que ganhem coragem para se aproximarem de nós e nos dizerem se alguma coisa não lhes parece correcta. Aqui, no Paraguai todavia ainda está muito arreigada a cultura do “pa’íma he’i”[8]. O sacerdote não é criticado, não se discute. O Padre Kentenich, o Fundador de Schoenstatt, ensinou-nos, com o seu testemunho de vida, o valor de uma autêntica crítica construtiva: franca e sincera, respeitosa, sempre pela frente e nunca por trás. Por favor, ganhem coragem para nos dizerem as coisas pela frente. Como o vamos receber? Alguns bem, outros não tanto. E, se, realmente, não são ouvidos, então – se o assunto o merece – vão falar com o Superior correspondente, com o Bispo. Não se calem, se são assuntos sérios! Ajudem-nos para nos podermos converter, todos os dias e crescermos no seguimento de Cristo.

 

Por outro lado, quero pedir-vos, também, muita oração e solidariedade. Nenhuma vocação é fácil se, se trata de a viver autenticamente, nem a matrimonial nem a consagrada, nem também a sacerdotal. Os sacerdotes estão, especialmente, expostos, têm uma responsabilidade especial em fazerem Cristo presente e, contudo, são simplesmente, pessoas humanas com toda a sua carga de pecado original e limitações pessoais. Por isso, precisamos de muita oração, muita proximidade, especialmente os sacerdotes que estão mais sozinhos. E, neste momento quem mais precisa da nossa oração é o nosso Papa Francisco: ele próprio nos pediu que durante todo o mês de Outubro ofereçamos um Terço diário pela Igreja. Talvez que, esta situação também nos mova a rezar com mais insistência por abundantes e, sobretudo, santas vocações sacerdotais.

No que respeita às crianças e jovens acho que é muito importante que, como toda a educação, também a educação sexual tem que partir do próprio lar, dos próprios pais. Não deixem estes assuntos tão decisivos nas mãos da escola, da Internet ou da rua! A vergonha ou o tabú são os piores conselheiros. Pais e mães, falem destes assuntos com os vossos filhos antes que tomem conhecimento por fora; ensinem-lhes a defender-se e encorajem-nos a falar! Se uma menina ou um menino se aproximam dos seus, pai ou mãe, e lhes dizem: “Com tal pessoa sinto-me desconfortável, esquisito”, levem-no a sério, não lhe digam: “Não digas parvoíces!” Porque, possivelmente, é uma coisa séria. Lembrem-se que, a maior parte dos casos de abuso de menores acontece no contexto do próprio lar.

No que respeita à nossa fé e à nossa Igreja perguntamo-nos: “Para quê continuar a acreditar, para quê continuar numa Igreja tão pecadora?” Teremos que nos lembrar que, já entre os próprios doze Apóstolos houve um Judas que traiu Jesus. Sempre houve e continuará a haver traidores mas, a Igreja continua a ser sinal e presença de Cristo. Na Igreja houve e haverá Bispos, sacerdotes, religiosos e leigos criminosos e abusadores mas também, houve e continua a haver muitos santos como os sete que foram canonizados hoje no Vaticano. Que por intercessão do Santo Bispo Oscar Romero, de S. Roque González e da Beata Maria Felicia, Chiqitunga, a nossa Igreja no Paraguai e no mundo inteiro e o nosso Movimento de Schoenstatt sejam reflexo, cada vez maior, da radicalidade no seguimento de Cristo dos Apóstolos e dos Santos.

Pe. Pedro Kühlcke, Homilia 14/10/2018, Tupãrenda

 

[1]    Domingo XXVIII B, Mc 10, 17-30
[2]    https://noticias.cancaonova.com/mundo/conheca-os-sete-novos-santos-que-serao-canonizados-neste-domingo/
[3]    Homilia de 18 de abril de 2010.
[4]    Cfr. http://www.zenit.org/article-35189?l=spanish
[5]    http://www.ihu.unisinos.br/583708-o-papa-pede-aos-jovens-espanhois-perdao-pelos-escandalos-que-ocorrem-na-igreja
[6]    Bento XVI, Carta pastoral  aos católicos de Irlanda, 19 de  Março de 2010; Nº 7: Aos sacerdotes e religiosos que abusaram de crianças
[7]    http://episcopal.org.py/protocolo/protocolo.pdf
[8]    Expressão em guaraní, no sentido de: o sacerdote já falou, acabou-se a discussão.

 

 

Original: espanhol (15/10/2018). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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