Colocado em 16. Março 2018 In Igreja - Francisco - movimentos

Acerca do falecimento do Cardeal Lehmann: deixa- nos um grande teólogo, Bispo e filantropo

ALEMANHA, Redacção

Centro schoenstatteano em Weiskirchen, 2009

Na madrugada do IV Domingo da Quaresma, Domingo Laetare – Domingo da Alegria – faleceu o Cardeal Karl Lehmann, durante muito tempo Bispo de Mainz e presidente da Conferência Episcopal Alemã. “Deixa-nos um grande teólogo, Bispo e filantropo” escreve o Cardeal Marx, de Munique e actual presidente da Conferência Episcopal Alemã. Também muitas pessoas do Movimento de Schoenstatt que se relacionavam com o Cardeal Lehmann, lamentam a sua partida. —

Era patrocinador da Academia de Pedagogia Matrimonial e Familiar e entregou o correspondente certificado a inúmeros instrutores familiares recém-graduados tanto em Mainz como em Schoenstatt; falou nas “orações do meio-dia, em busca de pegadas”, organizadas por Schoenstatt nas Jornadas dos Católicos alemães. Para alguns ele era alguém que os incomodava e, para muitos era um agitador.

O Cardeal Karl Lehmann, durante uma Missa solene celebrada por ocasião dos 25 anos do Centro schoenstatteano em Weiskirchen, em 24 de Junho de 2009, disse que o Movimento de Schoenstatt é um enriquecimento para a Diocese de Mainz e para outras Dioceses na Alemanha. O Movimento de Schoenstatt distingue-se “por uma genuína e verdadeira unidade numa multiplicidade realizada pelo Espírito”, disse Lehmann. E, que muitos dos seus membros trabalham nas dioceses. O Cardeal referiu que “a graça especial do Movimento de Schoenstatt é a santificação da vida diária”. É importante que a nossa fé se traduza no quotidiano da vida, visto que, é aí onde deve provar-se. O Movimento de Schoenstatt e o seu Fundador, o Pe. José Kentenich, tinham uma noção especial da santidade da nossa vida quotidiana”, sublinhou o Cardeal.

Fé e Vida, expressão do mundo real a partir de uma fé igualmente real e vinculada com o mundo. Uma grande frase que o falecido Cardeal deixa, hoje, ao Movimento de Schoenstatt. Abanando-o.

“O acesso individual e pessoal que não restringe mas que, permite a liberdade individual e a aprecia, é aquilo que, hoje, torna este caminho atractivo. “Liberdade tanta quanto possível”, esta premissa do nosso Fundador, na qual está expresso o seu respeito pela vocação de cada um, é uma orientação muito determinante para permitir que as pessoas entrem em contacto com a fé. É difícil fazer a sua abordagem se, o que vem em primeiro lugar, são mandamentos e proibições. Onde eu sou abordado de modo pessoal e onde são tocados os estratos profundos da alma, aí onde me levam a sério com as minhas perguntas religiosas, de maneira acolhedora e sem pressão, aí abrem-se caminhos para a fé no Deus vivo; esta é uma grande oportunidade que nos foi oferecida no nosso Movimento por meio do caminho da fé pessoal na Aliança de Amor e no respeito pela própria vocação”: estas são as palavras do seu sucessor, o Arcebispo Dr. Robert Zollitsch que pertence ao Movimento de Schoenstatt e muito próximo da mensagem do Cardeal Lehmann.

“Sim, hoje, temos que oferecer à Igreja uma mensagem moderna, verdadeiramente desafiadora. Precisamente, o desejo do nosso Pai-Fundador era de não nos prendermos ao passado e querermos tudo conservar, mas, procurar como se poderá trazer a esta época nova os conteúdos da fé e traduzi-los para a sua realidade. Isto conduziu-o, também, a um conflito com a Igreja, sem que, por isso, deixasse de amar a própria Igreja. E, reconheceu como tarefa de Schoenstatt a colaboração na construção” da Igreja das Novas Praias” para que, deste modo, se torne realidade a visão acerca da Igreja do Concílio Vaticano II”

 

Dr. Robert Zollitsch, 15.09.2008, Schoenstatt

O Cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência Episcopal Alemã, por ocasião do falecimento do Cardeal Lehmann

Com grande dor e pesar recebi a notícia do falecimento do nosso apreciado irmão e amigo, o Cardeal Karl Lehmann. Deus, o Senhor da vida e da morte, chamou o seu fiel servidor. Faleceu com uma profunda fé no Deus misericordioso. Deixa-nos um grande teólogo, Bispo e filantropo. Com a sua morte, perdemos um Bispo humano e de coração caloroso que se distinguia por uma grande força linguística. Partilho a minha dor com os fiéis da Diocese de Mainz. A Igreja alemã inclina-Se perante uma personalidade que, consideravelmente, colaborou para legar uma marca à Igreja católica no mundo inteiro.

A Conferência Episcopal Alemã é devedora de uma imensa gratidão a Karl Lehmann que vai muito para além da morte. Durante muito mais de 20 anos dirigiu os Seus destinos como seu presidente. Lembro-me bem dos nossos primeiros encontros que ficaram marcados pela cordialidade e pela abertura, mas, sobretudo, pelo interesse no debate teológico. O Cardeal Lehmann viveu altos e baixos na Conferência Episcopal. Sempre se preocupou com a questão do modo como se deveria desenhar uma Igreja benéfica para as pessoas e, ao mesmo tempo, comprometida com a tradição. O apreço pessoal que demonstrava face a cada interlocutor, a sua incrível memória – Karl Lehmann não se esquecia de nada – e a sua amplidão teológica foram anos felizes para a nossa Conferência Episcopal. O meu antecessor, o Arcebispo Dr. Robert Zollitsch, sentia-se comprometido com esta herança e, eu, também, continuo comprometido com ela. Karl Lehmann foi confirmado no seu cargo de presidente em 1993, 1999 e 2005, antes de se retirar em 2008, por razões de saúde. Não teria sido Karl Lehmann se não tivesse assumido a presidência da Comissão para a Fé da nossa Conferência Episcopal durante vários anos.

Durante o tempo em que ocupou o seu cargo, o Cardeal Lehmann teve que enfrentar momentos muito difíceis, como a “Declaração de Colónia”, em 1989, a luta por um caminho correcto na orientação de conflitos provocados por uma gravidez e pela revelação dos casos de abusos sexuais na Igreja católica. Momentos especialmente felizes foram para Karl Lehmann, a reunificação das duas Conferências Episcopais (NT. A seguir à reunificação da Alemanha), na primeira Conferência Episcopal alemã conjunta que se constituiu em 1991.

Mas, também penso na viagem apostólica do Papa João Paulo II em 1996, a Paderborn e Berlim, no decurso da qual o Cardeal Lehmann acompanhou o Papa quando este atravessou a Porta de Brandenburgo e quando, por assim dizer, também para o Papa se encerrou a reunificação. Momentos felizes foram vividos pelo Cardeal Lehmann na sua incansável dedicação ao êxito da Jornada Mundial da Juventude em 2005, em Colónia, igualmente quando, um ano depois Bento XVI visitou a sua terra bávara. A aproximação ecuménico-teológica e espiritual era um anseio do seu coração. Por este motivo, não poucas vezes manteve encontros confidenciais com os responsáveis da Igreja Evangélica da Alemanha. A assinatura da Declaração conjunta de 1999 sobre a justificação, deve-se, em grande medida, às capacidades negociadoras de Karl Lehmann. Encheu de vida e de ideias, de debates e de propostas o Grupo de Debate de Contacto Protestante-Católico entre a Conferência Episcopal Alemã e a Igreja Evangélica Alemã.

Karl Lehmann foi durante a sua vida, professor de Teologia. Na Conferência Episcopal, algumas vezes proferiu longas exposições para nos manter a par do estado das investigações. Gratos, recordamos, também, as suas exaustivas conferências sobre princípios, no decurso das nossas assembleias plenárias. Todos os seus tratados científicos tinham por objectivo transmitir confiança às pessoas em tempos de mudanças radicais. Isto, trouxe-lhe um grande respeito na política e em muitos grupos sociais.

O falecido que, foi Ordenado sacerdote em 1963 pelo Cardeal Julius Döpfner, em Roma, esteve sempre marcado pela irrupção do Concílio Vaticano II. Como assistente de Karl Rahner pôde experimentar, muito de perto, os acontecimentos e a luta por cargos. Karl Lehmann converteu em sua tarefa de vida, a salvaguarda da herança do Concílio e a sua promoção. Em tempos de tormenta conservou-se firme na fé, tal como o expressou no seu lema episcopal que, assumiu com a Consagração episcopal em 1983. “State in fide – Firmes na fé” (1Cor 16,13). Sim, nada podia fazer tremer na sua fé o Karl Lehmann.

Passou algum tempo até que os seus múltiplos compromissos com Roma, a sua pertença a numerosos Dicastérios da Cúria, o seu intenso acompanhamento teológico em incontáveis Sínodos de Bispos no Vaticano, fossem reconhecidos com o Cardinalato em 2001. Isto, foi, por ele, visto como um novo incentivo para prosseguir o seu serviço em Roma e na Igreja universal.

Com o falecimento de Karl Lehmann, a Igreja alemã perde uma figura determinante e o nosso continente, um europeu convicto. Precisamente, nos seus oito anos como vice-presidente do Conselho das Conferências Episcopais europeias dedicou-se, incansavelmente, ao entendimento e à reconciliação entre os povos, a construir pontes e ao diálogo.

O Cardeal Lehmann foi uma pessoa impressionante e um sacerdote exemplar cujo compromisso e trabalho, tanto nacional como internacional, lhe mereceu inúmeros louvores. Karl Lehmann era sobretudo um sacerdote, pastor e Bispo, um teólogo fora do comum e um bom amigo. Também sentiremos falta da sua argúcia teológica, assim como, dos seus discursos pujantes. Karl Lehmann era um cidadão do mundo, capaz de proporcionar informação sobre todos os temas da actualidade. Estamos de luto por uma grande pessoa, uma personalidade orientadora e um católico fiel que viveu a sua vida totalmente segundo o plano de Deus e para Ele; que se dedicou à missão de Cristo e à Sua mensagem.

Em silenciosa dor me inclino perante um amigo, um irmão que nos orientou a todos.

 

 Telegrama do Papa Francisco

A Sua Excelência Reverendíssima
Mons. Peter KOHLGRAF
Bispo de Mainz
MAINZ

 

“Com dor, recebi a notícia do falecimento do Cardeal Karl Lehmann. Exprimo ao senhor e aos fiéis da Diocese de Mainz as minhas sinceras condolências, assegurando as minhas orações pelo Purpurado que o Senhor chamou para si após uma grave doença e sofrimento. Em sua longa atividade como teólogo e Bispo, bem como presidente da Conferência Episcopal Alemã, contribuiu a moldar a vida da Igreja e da sociedade. Ele sempre foi aberto às perguntas e aos desafios actuais e a oferecer respostas e orientações a partir da mensagem de Cristo, para acompanhar as pessoas ao longo do seu caminho, procurando o que une para além das fronteiras das confissões, convicções e Estados. Jesus, o Bom Pastor, conceda ao seu servo fiel o cumprimento e a plenitude da vida no seu reino celeste. Concedo de coração, a ele e a todos aqueles que choram e recordam na oração o falecido Cardeal, a Bênção Apostólica”.

Papa Francisco

Original: alemão (11/3/2018). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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