Colocado em 15. Dezembro 2016 In Igreja - Francisco - movimentos, Santuário Original

A pequena cruz do Papa Francisco

Maria Fischer •

“Auslaufen” é uma palavra alemã de difícil tradução pelo seu duplo sentido. Pode significar “ser obsoleto, deixar de ser produzido ou vendido” e, ao mesmo tempo, significa “a saída do barco para o alto mar”. O título do livro “Auslaufmodell”, de Paul M. Zulehner, pode traduzir-se por “Modelo obsoleto” e, ao mesmo tempo, como “Modelo em saída”. Modelo obsoleto/Modelo em saída. O outro livro em cima da mesa chama-se “Mit Maria leben” (original: Maria é minha mãe). Ambos livros falam sobre o Papa dos confins do mundo, do Papa sem doutoramento e sem carreira na Cúria, aquele que, com audaciosa misericórdia provocou uma santa confusão, um santo alvoroço na Igreja, um alvoroço que sabe a Pentecostes, a Espírito Santo. Ambos livros e as suas mensagens foram o ponto central no encontro de renovação espiritual para sacerdotes e diáconos no princípio do Advento, na Casa de Sacerdotes no Monte Moriah.

O foco também esteve posto numa pequena cruz que mostra o Bom Pastor, sob o símbolo do Espírito Santo; a cruz que Jorge Mario Bergoglio já usava como Arcebispo de Buenos Aires quando visitava os bairros-de-lata, os bairros pobres dessa cidade e a que usava em frente dos que governavam, a mesma cruz que usa no Vaticano e na Igreja universal.

Auslaufmodell e Maria como modelo da revolução da ternura

Auslaufmodell, modelo obsoleto: isto poderia significar que a Igreja da Europa pós-cristã estaria a chegar ao fim. Um grande número de dados parece sugeri-lo. O Papa Francisco representa outro tipo de Auslaufmodell, o modelo em saída: o barco da Igreja que deixa o porto do solipsismo e se aproxima das periferias da vida e da sociedade, rumo àqueles que estão feridos pela vida. Na agenda não há lugar para moralizar mas, para curar. Estas são as palavras de Paul M. Zulehner na introdução do seu livro: Igreja em saída, a preocupação central do Papa Francisco, geralmente, traduzido para alemão de maneira demasiado formal e inofensiva como “Igreja em movimento”, aqui num jogo de palavras francamente engenhoso e com uma linguagem deliberadamente irritante.

O livro do Padre de Schoenstatt, Alexandre Awi que, apareceu, em Setembro, nas livrarias da Alemanha, Áustria e Suíça, também causou perplexidade (ou potencialmente provoca alvoroço). Visto que, quem acha que vai encontrar nesse livro sobre Maria e os encontros do Papa Francisco com Ela, algo piedoso, contemplativo e tranquilizador, é surpreendido por um Francisco, para quem, Maria é um modelo da teologia popular, a pobre mulher do Magnificat e um apelo à maternidade por parte da Igreja, que soa revolucionário e o é: “A ternura é revolucionária, a revolução da ternura. Acho que temos medo da ternura” (…) Em vez de uma atitude rigorista, obcecada pelo moralismo, Francisco, devoto de Nossa Senhora da Ternura, prefere destacar a relação filial e paternal, o vínculo terno de amor que existe no chamamento de um pai que ama e quer a felicidade do seu filho que reconhece o amor do seu pai e, por isso, segue os seus ensinamentos (Awi, p. 154 na edição da Editora Lucerna)

Uma Igreja pobre, uma Igreja humilde e dinâmica

Baseado na apresentação do Pe. Franz Kraft que se viu impedido de participar, o Reitor Egon M. Zillekens deu dois impulsos aos temas que Zulehner e Awi fazem de Francisco, dando coragem aos sacerdotes: coragem pela Igreja, coragem para “sair”, coragem por Francisco.

Citando Paul Zulehner, disse aos sacerdotes:

Olhemos para o Papa Francisco, aquele que sai e ganha velocidade em conjunto com a Igreja, como um barco que vai para a água e, que diz: “Se a Igreja não se abre, não se coloca em saída e só se preocupa consigo própria, envelhece. Se tenho a possibilidade de escolher entre uma Igreja que ao sair para a rua recebe feridas e uma Igreja doente por estar ocupada consigo própria, então não tenho dúvidas nenhumas: eu escolheria a primeira opção” (Zulehner, pag. 9)

Referiu-se ao “Pacto das Catacumbas”, aquele pacto que foi assinado em 16 de Novembro de 1965 – no dia do 80º aniversário do Padre Kentenich (!), durante o Concílio Vaticano II, nas Catacumbas de Domitilia em Roma, por um grupo de Bispos, no qual se comprometiam a ter um estilo de vida simples e ao serviço dos pobres. Poucas semanas antes do fim do Concílio, 40 Padres Conciliares de todo o mundo celebraram a Eucaristia e no fim da Missa puseram-se de acordo à volta do Pacto com o nome do local dos factos. Entre os primeiros subscritores estavam os alemães: Julius Angerhausen (1911 – 1990) Arcebispo de Essen e Hugo Aufderbeck (1909 – 1981), Arcebispo de Erfurt. Mais tarde, outros 500 Bispos de todo o mundo se uniram a este pacto. Os principais iniciadores deste grupo foram Helder Câmara, o Bispo Guy-Marie- Joseph Riobé, de Orleães e o Cardeal Giacomo Lercaro. Mais de 50 anos depois, um Papa é quem retoma os anseios do Pacto das Catacumbas. E, tudo isto, assim o disse o Reitor Zillekens, faz lembrar a palestra do Padre Kentenich sobre “A missão pós-conciliar da Igreja e a sua antecipação por parte de Schoenstatt”, dada a sacerdotes em 12/2/1968.

  • A Igreja fraterna
  • A Igreja pobre
  • A Igreja penetrada pelo divino
  • A Igreja dinâmica
  • A Igreja humilde
  • A Igreja penetrada pelo mundo

Muito parecida com a imagem da Igreja que ele apresentou no dia 8 de Dezembro de 1965, durante a colocação simbólica da Pedra Fundamental do Santuário de Roma, a que deixa comprometida com Schoenstatt,

Simpatia por Francisco

A renovação espiritual, em união com a celebração da Eucaristia, o tempo de Adoração Eucarística, o tempo pessoal e os dois impulsos espirituais, ofereceram aos sacerdotes e diáconos a possibilidade de renovação e de nova orientação.

“Durante ambos os impulsos, em frente de mim estava a pequena cruz do Papa”, assim o contou o Reitor Egon M- Zillekens. “Cada um dos presentes a teve na mão. Disse-lhes que em Schoenstatt existe um círculo de solidariedade à volta de Francisco e que, quem a ele pertence, tem esta cruz. Isso provocou um efeito enorme. Francisco ficou no centro”.

O círculo solidário à volta do Papa tem a sua origem no “Dreamteam” de schoenstatt.org, que selou uma “Aliança Solidária” com Francisco no dia 31 de Maio de 2013. Simplesmente, é escutar a sua voz, compreender os seus gestos, cumprir os seus desejos de modo missionário e misericordioso como ele. Ou parafraseando um termo do Padre Kentenich (simpatia por Deus): simpatia por Francisco. Interiormente, estar sempre ao lado de Francisco.

Isto tem a ver, então, com o que diz Zulehner de modo tão claro: “Aquecer o coração e curar as feridas”. E então. Não causam irritações as cartas abertas de cardeais que, anteriormente, eram conhecidos por exigirem rigorosamente uma implacável fidelidade ao Papa.

É-se santo, na medida em que, nos esforçamos por ser misericordiosos. Não são palavras de Francisco mas, de José Kentenich.

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Original: alemão. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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