feminista

Colocado em 2020-12-03 In Vozes do Tempo

“Não sou feminista, apesar de ser católica. Sou feminista porque sou católica”

María de los Ángeles Miranda Bustamante, Chile, jornalista •

Cecilia Sturla, especialista schoenstattiana em feminismo e Igreja: “Não sou feminista apesar de ser católica. Sou feminista porque sou católica”. Este acadêmica argentina, membro do Instituto de Famílias de Schoenstatt, dá conferências e escreve artigos sobre os direitos da mulher na sociedade e particularmente na Igreja, onde as mulheres, hoje mais do que nunca, deveriam ter “voz e voto”. Hoje compartilhamos uma parte da entrevista que ela deu ao programa “Arreglando el Mundo” (Arrumando o Mundo), do bispado de Valparaiso, Chile. —

Marita Miranda Bustamente

María de los Ángeles Miranda Bustamente, jornalista

“Se eu lavo, você cozinha” – é a máxima na casa de Cecília Sturla em Salta, Argentina, onde ela vive com seu marido, o médico José María Sanguinetti, pertencentes ao Instituto de Famílias de Schoenstatt, e seus seis filhos e filhas. É professora de Filosofia e acadêmica da Universidade Católica de Salta, onde é diretora do Instituto de Família e Vida “João Paulo II”. Escreveu artigos e deu conferências, dentro e fora do Movimento, sobre as mulheres, o feminismo e a Igreja. Resume sua posição parafraseando a teóloga feminista Marie-Therèse van Lunen-Chenu: “Eu não sou feminista apesar de ser católica. Sou feminista porque sou católica”.

Em seus postulados, alude à “relação problemática entre a Igreja e o feminismo”, que acontece “porque há medo da palavra feminismo, porque está associada a um feminismo radicalizado, está associada a mulheres que ficam nuas na frente de catedrais e que vandalizam as imagens religiosas e isso não é feminismo”. Temos que falar de feminismos”. Porque há tantos feminismos quanto mulheres e não devemos generalizar.

É importante entender a diferença entre o sexo, a constituição biológica de homens e mulheres e o gênero, a construção social em torno do masculino e do feminino. Por que é justamente no gênero que os direitos das mulheres são historicamente tão violados em comparação com os dos homens?

Porque há estruturas sociais feitas por homens nas quais as mulheres não participaram. A economia, a política, a sociedade foram construídas sob o olhar masculino. As mulheres não debatiam leis. Assim, o olhar foi unilateralmente masculinizado. As mulheres foram deixadas de fora desta esfera, apesar de que houve mulheres muito valiosas, lutadoras em todas as épocas, mas não conseguiram quebrar esta estrutura feita pelos homens.

Por isso que a diferença entre sexo e gênero parece-me muito importante, porque a perspectiva de gênero amplia o horizonte. Quando você diz uma educação com perspectiva de gênero, não está dizendo que não há sexo. Tem que deixar isso claro. Está sendo dito que deve-se adentrar na educação com estes dois olhares, com esta perspectiva, que amplia o horizonte para toda a humanidade.

Com relação às correntes, há Simone de Beauvoir, quem publicou “O Segundo Sexo” em 1949, o qual diz que homens e mulheres não são diferentes, são iguais e a sociedade, o gênero, tornou-os diferentes. Por outro lado, há o feminismo da diferença, que diz que homens e mulheres são diferentes, embora iguais por natureza, mas é a sociedade que transforma essas diferenças em desigualdades. Destas duas visões, com qual você se identifica mais?

Eu compactuo com todos os feminismos. Sou de um sincretismo incrível. Estamos sobre os ombros de gigantes. Estou aqui falando graças ao feminismo da primeira onda (final do século XVIII, pelos direitos das mulheres e das cidadãs, no marco da Revolução Francesa) e da segunda onda (da segunda metade do século XIX até os anos 50, com o voto das mulheres). Há coisas com as quais não estou totalmente de acordo porque não diria que somos tão iguais, que não há diferenças e que a diferença sexual não é diferença. Porque foi isso que fez com que surgisse a terceira onda (a partir dos anos 60, para os direitos sexuais e reprodutivos). Se você diz que somos iguais, isso significa que as mulheres não têm o direito de reivindicar licença maternidade. E uma mulher grávida não é o mesmo que um homem que não engravida, em termos de trabalho. Portanto, a reivindicação das mulheres da terceira onda para as mulheres da segunda onda é exatamente essa. Somos diferentes, temos que respeitar a diferença, mas cuidado, porque a diferença tem que ser respeitada, partindo da igualdade de oportunidades e da igualdade de distribuição, que é a teoria de Nancy Fraser.

E hoje, o que acontece com a quarta onda feminista? Quais são as suas demandas?

É muito interessante o que diz o feminismo da quarta onda. Porque as redes sociais são introduzidas, as lutas globais também (…). Alguns dizem que não é uma onda, é um tsunami que está chegando, porque as redes sociais causaram esta explosão e esta necessidade de conhecer algumas questões com as quais não lidamos nos países latino-americanos.

São demandas de todos os tipos: pelo direito ao aborto, pelos salários, pela lei de cotas. Depende do país (…). Mas é uma luta que transcende a cultura, que transcende as fronteiras.

O Papa Francisco, em sua primeira encíclica Evangelii Gaudium, fala da importância da mulher na Igreja e na sociedade. É possível integrar as ideias do feminismo no magistério da Igreja para garantir o respeito aos direitos humanos?

Acredito que a Igreja, mais cedo ou mais tarde, assumirá alguns dos pressupostos feminismo. Terá que assumi-los para se curar. Nossa Igreja é tão santa quanto pecadora e, em sua condição de pecadora, encontra-se impossibilitada de incorporar as mulheres em algumas de suas estruturas. Neste ponto é preciso ter um olhar muito crítico. Vocês  sabem disso melhor do que ninguém. A Igreja chilena está muito golpeada. O caso dos abusos é terrível. E digo Chile porque na Argentina não apareceu, pelo menos não da mesma forma que apareceu no Chile. Mas lá as mulheres têm muito a dizer. Porque no caso dos abusos, o clericalismo, baseado na figura patriarcal de um sacerdote todo-poderoso, de um bispo todo-poderoso, sem a participação dos leigos… Numa Conferência Episcopal, 50% da população mundial não está representada! Diz-se: “que “legal” o que os bispos disseram. Mas eles são bispos, onde estão as mulheres? (…) É preciso animar-nos a perder os medos. O bispo é tão filho de Deus, tão filho da Igreja como eu! A única coisa é que o bispo dirige uma diocese.

O que poderia ser feito pela Igreja para avançar no reconhecimento dos direitos das mulheres?

Há um caminho traçado pelo Papa Francisco que é o da sinodalidade, que é caminhar com, caminhar juntos. Parece-me que desta maneira pode-se conseguir uma sinergia, que as mulheres tenham voz e voto dentro de uma diocese, dentro da pastoral de uma Igreja. Para mim o caminho é a sinodalidade, a discussão, o trabalho em conjunto, a união de objetivos. Há muitas coisas através das quais teríamos feito um bem enorme se tivéssemos trabalhado juntos. Que a voz autorizada da Igreja seja um sacerdote, ou o bispo, joga contra. E hoje mais do que nunca. Isso lhe tira credibilidade. 

Às vezes ouvimos o termo Ideologia de Gênero em grupos católicos. Este termo não existe na teoria feminista, mas foi cunhado por grupos críticos para se referir a algumas ideias sobre o feminismo. O que você acha da chamada “Ideologia de Gênero”?

Há uma confusão que se não for esclarecida gera muito barulho e muitos desencontros (…). Para mim, gênero serve como categoria para analisar sociologicamente os estereótipos e todas as construções que foram feitas em torno das mulheres (…) (Mas) o termo ideologia é atribuído ao pensamento de uma parte do feminismo que derivou no postulado de que o gênero é uma categoria cultural e sexo é (também) uma categoria cultural. Portanto, não existe o sexo e o sexo é uma construção totalmente cultural e é irrelevante para o desenvolvimento pessoal. É uma teoria que provém do neo-estruturalismo de Foucault, Judith Butler, etc. É uma desconstrução do sexo. Este posicionamento de um tipo de feminismo, dentro da Igreja Católica, é identificado como “ideologia”, porque não tem base científica que diga que o sexo é irrelevante.

O aborto é apresentado como um direito da mulher, mas também envolve o direito à vida do embrião. Como se pode ser feminista e não ser pró-aborto?

Sou feminista e não sou pró-aborto. As jovens perguntam muito sobre isso. Para mim, o aborto é um criptomachismo. É a conseqüência de uma estrutura masculinizada encoberta. (…) É uma sociedade que não leva em consideração as mulheres ou as gravidezes. E isso para mim é muito doloroso.

A teologia nos diz que Deus não é nem homem e nem mulher. Mas é normalmente representado como um senhor barbudo e, mais ainda, em atitudes que são estereótipos masculinos. As teólogas feministas afirmam que isso muitas vezes se cristaliza em doutrinas machistas, o que determina uma santidade à imagem e semelhança do Deus-Homem. O que você pensa sobre o sexo de Deus?

Deus não tem sexo. O que acontece é que os homens o assumiram (risos). Admiro as teólogas feministas. Há coisas que são de uma beleza e profundidade que me encantam. Deus não é nem homem nem mulher e seria bom mostrar a parte da mulher que Deus tem, que está nas Sagradas Escrituras;  a questão é que não sabemos lê-las. Deus ama como uma mãe (…). Gosto da pluralidade de olhares em relação a Deus, mas geralmente são fornecidos olhares mais unilateralmente masculinos.

Você disse em suas conferências que Jesus era um feminista. Quais atitudes de Jesus te fazem pensar assim?

O olhar de Jesus sobre as mulheres é absolutamente revolucionário para sua época. Se colocarmos Jesus em seu contexto histórico, em uma sociedade judaica, na qual as mulheres eram reprodutoras, esse olhar coloca mulheres e homens em pé de igualdade. Há várias cenas (…). Por exemplo, a da mulher apanhada em flagrante adultério. Eles vão apedrejá-la, vão matá-la. Pára! O adultério é cometido por duas pessoas ou a mulher comete-o sozinha? O que aconteceu com o homem? Para onde o levaram? (…) É por isso que Jesus, quando o encontram e está desenhando na terra, diz: “Aquele que dentre vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire uma pedra”. Isto é, se a mulher é pecadora, o homem é pecador. (…) É uma lei de Moisés que Jesus rompe aqui. (…)

Então o que aconteceu? Os apóstolos estavam imersos em sua cultura e não tinham o olhar inclusivo de Jesus. E então veio Constantino, a Igreja se hierarquizou e de lá para cá… chegamos ao que temos hoje.

E no caso de Maria, que traços feministas você vê nela?

As coisas não foram fáceis para Maria. Pense que ela engravidou sendo solteira. José iria repudiá-la. Tinha que enfrentar uma sociedade inteira.

Maria é reflexiva. Na Anunciação, pergunta ao anjo: “Como pode ser isto?” Gosto da imagem das Bodas de Caná. Jesus não tem ideia, não está atento aos detalhes e a mulher sim está. (…) Maria diz “eles não têm vinho”. E Jesus diz: “Mulher, para que me dizes isto?” E Maria diz “façam tudo o que Ele vos disser”. Ela é uma mulher pró-ativa e nem sequer respeita que Jesus tenha lhe dito indiretamente que não. Ela assume uma posição frente à situação. Isto de mostrar Maria com espiritualismo, com uma cara de bezerro abatido, não é Maria. Maria tem uma coragem à prova de balas. Ela enfrentou o Império Romano aos pés da Cruz. Todos os discípulos estavam morrendo de medo e foram embora. Os únicos que estavam lá eram João e as mulheres. (…) Maria não é um modelo de mulher exclusivamente, mas sim de ser humano.

 

Original: Espanhol (1/12/2020). Tradução: Luciana Rosas, Curitiba, Brasil

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