Colocado em 2. Dezembro 2019 In Vozes do Tempo

Uma liderança a partir da cruz

CHILE, Pe. Juan Pablo Rovegno •

A solenidade de Cristo Rei coloca-nos no palco da realeza de Cristo. Uma realeza distante da realeza do mundo ou da forma como a entendemos hoje: do reino da ostentação dos xeques árabes aos reinos simbólicos e quase estéticos europeus; do simples rei pacífico do Butão ao reino da Malásia por turnos; dos reis tribais africanos ao equilíbrio contido dos imperadores do Japão. Mesmo na nossa picardia nacional temos desde o rei do mote com huesillos (bebida típica chilena – um refresco muito popular no verão NT), ao rei e à rainha guachacas (Guachaca é uma moda chilena pejorativa que está associada a pessoas vulgares, comuns ou de má classe. Outro significado é uma pessoa que se acostumou a beber muito. Durante os últimos anos, ressurgiu este termo, agora transformado num símbolo do chileno NT).—

A imagem do Rei como Aquele que conhece, cuida, contém e conduz o seu povo, como Aquele que une através destas atitudes, foi sendo  embaciada primeiro por Reis que se serviam a si próprios, até chegarem mais tarde, os absolutismos mais sangrentos. Foram-se  transformando em totalitarismos ou populismos, que deificaram os seus líderes, unificando ou polarizando o povo confiante, conforme o caso.

Visto o panorama, podemos perguntar-nos: Qual é a relevância desta festa? Qual é o sentido de falar de Cristo Rei?

Hoje é muito actual na perspectiva de uma das crises mais profundas que vivemos: a perda do sentido de autoridade. Perda que tem muitas causas: a falta ou ausência de autoridade na educação e nos diversos espaços de crescimento e desenvolvimento da personalidade; o autoritarismo incapacitante da autonomia saudável e as tensões próprias de toda a convivência humana; a paralisia ou fuga daqueles que são chamados a exercer a autoridade; o advento de lideranças messiânicas e narcisistas; o surgimento de movimentos anarquistas e separatistas que ignoram ou negam o valor das instituições e daqueles que as dirigem.

Para além das causas sociológicas e antropológicas que explicam este fenómeno, precisamos de resgatar e voltar a dar significado ao valor e ao sentido da autoridade. Isto representa um grande desafio na actual crise que estamos a viver na nossa pátria.

No entanto, a menos que Deus nos surpreenda, hoje a liderança que procura espaços e tem a capacidade de combater a anarquia e a violência, a ingovernabilidade e a impunidade, terá que ter um carácter comunitário, ou seja, uma liderança partilhada, co-responsável e colaborativa. Isto não significa renunciar ao sentido da autoridade, mas sim reconhecer um tipo de autoridade capaz de unir, conciliar, integrar e valorizar um conjunto de actores sociais. Um “primus inter pares”, um “primeiro entre iguais” que actua como um sinal de comunhão entre diversos interesses, representações e visões.

Paz social e justiça social.

Neste sentido, hoje temos a oportunidade de assumir a liderança que cabe a cada um no que é, faz e com quem está e, nessa soma de lideranças individuais, em espaços diversos e de natureza diversa, de unificar e construir o país. Unir forças capazes de colocar o bem comum no centro e não apenas defender interesses individuais. Um bem comum que hoje tem duas dimensões inalienáveis: a paz social e a justiça social.

Quem nos pode ensinar a exercer este tipo de liderança é precisamente a Virgem Maria no Cenáculo: unindo posições, encorajando, olhando para além da incerteza ou das dificuldades pessoais, recompondo vínculos feridos. Um tipo de liderança que não procura protagonismo, mas torna possível a emergência de uma primeira igreja colegial, co-responsável, corpo da única cabeça que é Cristo.

Como deve ser, então, a nossa liderança a partir de Cristo?

Além de ser uma liderança co-responsável, colaborativa e partilhada, a nossa liderança deve ter Cristo como fonte e fim, com uma liderança que sabe, cuida, contém, conduz, une… mas fá-lo a partir da Cruz.

O Evangelho de hoje ilumina-nos: não descreve um Jesus que fala no monte à multidão de pessoas, nem dialoga com Pilatos sobre um reino que não é deste mundo, nem enfrenta os fariseus ou a classe dirigente do seu tempo. É uma liderança em e a partir da cruz: um Rei que reina desde a cruz, entre dois malfeitores: um que o interroga ao vê-l’O derrotado, outro que se entristece ao vê-lo injustamente crucificado.

Qualquer triunfalismo ou pretensão de domínio fica de fora. O tipo de realeza que Jesus inaugurou na cruz, assume em si toda a ignomínia, violência, ódio e injustiça de que a humanidade é capaz.

Neste sentido, a nossa liderança é chamada a alimentar-se na cruz (se quisermos ter um mínimo de autoridade). Exercida desta forma, a nossa liderança tem três consequências:

  1. Uma liderança que reconcilie, isto é, que una aquilo que está dividido.
  2. Uma liderança que repare, isto é, que cure o que está ferido.
  3. Uma liderança que reconstrua, isto é, que volte a edificar o que foi quebrado.

Uma liderança a partir da cruz é capaz de assumir todas as dores humanas, contradições, pecado e irracionalidade. A partir deles reconstrói, repara e reconcilia. É um novo começo, mas assumindo a realidade quebrada e esboroada

É possível assumir este tipo de liderança no meio da incerteza prevalecente, no meio do processo social, político e de cidadania em que vivemos, no meio de uma violência e intransigência que não dão trégua?

Com uma fé activa, de aliança, que acredita na intervenção e orientação de Deus na história e na nossa necessária colaboração, é possível.

Hoje temos a possibilidade de colaborar e sermos co-responsáveis pelo processo em que vivemos. Somos chamados a fazê-lo a partir da cruz das nossas feridas sociais, que nos causaram tanta dor durante estes dias de crise, mas só a partir delas: assumidas, reconciliadas, reparadas, poderemos reconstruir não só os espaços, mas os vínculos feridos da nossa pátria e do seu futuro.

Foto: iStock Getty Images ID 486066360, licensed for schoenstatt.org

Original: espanhol (30/11/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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