Colocado em 5. Dezembro 2019 In Vozes do Tempo

Uma contribuição para a nossa renovação

CHILE, Patricio Young •

No Chile, o Padre Juan Pablo Rovegno, Director do Movimento, antes da crise social, enviou um documento de grande relevância para a nossa Família. Com muita clareza e com citações muito substanciais do nosso Pai, convidou-nos à superação desta realidade atomizada e pouco integrada da nossa família e à necessária solidariedade e liderança complementar. Uma situação que foi apontada pelos jovens e por muitos outros documentos que foram escritos durante este tempo. Em suma, devemos ser realmente Família. “Este acento familiar colaborativo, complementar e co-responsável entre todos os membros não é apenas conveniente, necessário e urgente; parece ser uma voz de Deus que quer tocar a alma da nossa Família para a fazer mais fecunda”, indica o sacerdote no seu documento.

 

Patricio Young

Patricio Young

Em suma, convida-nos a assumir um “desafio de uma liderança e animação mais familiar” que, na minha opinião, se baseia numa verdadeira solidariedade de destinos.

A questão que se coloca é porquê transformamos os Ramos, Institutos e Uniões em verdadeiros guetos? Situação que o Pai já tinha questionado no seu tempo.

Porquê não vibramos e nos comprometemos com a realidade de outras comunidades? Porquê não temos um diálogo mais claro e directo que nos faça ver as nossas próprias forças e fraquezas como irmãos na Aliança? Porquê não somos capazes de dar uma liderança sólida à nossa Família? Sem dúvida, pode haver muitas respostas válidas. Sem pretender abordar todas , atrevo-me a apontar as duas que me parecem mais relevantes:

PRIMEIRO: Construímos uma cultura centrada na “Privatização da nossa fé e salvação”.

Se faço Capital de Graças, se sou fiel ao meu Ideal pessoal, se mantenho uma obra de auto-educação e ascese, se alimento uma vinculação com o Santuário, estou a desenvolver a minha fé e a alcançar a minha salvação. A relação entre o desenvolvimento pessoal e o comunitário tende a esbater-se.

Parece não haver consciência disto. Parece quase imperceptível. Ninguém o declara assim tão friamente, mas na pregação, no trabalho de formação e em geral, na nossa cultura, esta visão é vislumbrada. Além disso, reflecte-se também na nossa oração de consagração. “Ó  Senhora minha…”, a mesma que rezamos na primeira pessoa, tanto em privado como em grupo. “No teu poder e na tua bondade alicerço a minha vida…” e assim por diante.

O Papa Francisco diz-nos: “não há salvação só para mim. Se eu entendo a salvação assim, estou enganado; estou enganado no meu caminho. A privatização da salvação é o caminho errado… Ele salvou-nos individualmente, mas num povo. O Senhor sempre salva num povo. A partir do momento em que Ele chama Abraão, promete que dele fará um povo. E o Senhor salva-nos num povo”.

O Papa acrescenta: “Deus  salva-nos num povo, não nas elites, que nós, com as nossas filosofias ou com o nosso modo de entender a fé, fizemos. E estas não são as graças de Deus”. Chegado aqui o Santo Padre convida-nos a questionarmo-nos: “Tenho a tendência de privatizar a salvação para mim, para o meu grupinho, para a minha elite?” (Santa Marta 29/1/2015)

O Papa insiste muito no assunto e, inclusivamente, vai mais longe: O querigma possui um conteúdo inevitavelmente social: no próprio coração do Evangelho, aparece a vida comunitária e o compromisso com os outros. O conteúdo do primeiro anúncio tem uma repercussão moral imediata, cujo centro é a caridadeO próprio mistério da Trindade nos recorda que somos criados à imagem desta comunhão divina, pelo que não podemos realizar-nos nem salvar-nos sozinhos” (E. G. 177-178)

Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. (Mat 16:25)

A Aliança é pessoal e também comunitária.

Esta visão é muito clara, para o Fundador, nos fundamentos da Obra e também na nossa espiritualidade, por alguma coisa se geram comunidades de formação e comunidades de vida. O Ideal Pessoal tem o seu justo sentido ao responder como causa segunda à vontade querida por Deus para a nossa vida, mas em rede com e para os outros. No entanto, no discurso, na pregação e na oração, confunde-se com uma salvação mais pessoal.

Isto também está associado ao trabalho de formação de boas pessoas. Pouco se diz que não somos salvos por sermos “bons”, mas por actos de misericórdia, para com os outros e para outros. Desta forma, o desenvolvimento individual é reafirmado, mas a relação comunitária vai-se perdendo. Jesus ensina-nos a rezar: “Pai nosso”, não meu Pai. A Ave-Maria diz “rogai por nós”, não por mim.

A Aliança é pessoal, mas ao mesmo tempo comunitária. Faço-o não só por mim, mas na e para a comunidade. Em tal situação, se estou sozinho, é bom que se reze pessoalmente, mas se estamos num grupo, devemos rezar na terceira pessoa (Ó Senhora nossa…), por isso invocamos esta co-responsabilidade da nossa Aliança. O mesmo com outras orações.

Para alguns, isto pode ser de pouca importância, mas “as palavras, neste caso a oração, geram realidades” e, no nosso caso, uma cultura.

Cultivando a cultura individualista que reina na nossa sociedade, torna-se muito complexo construir uma verdadeira família. Portanto, implica uma revisão clara do contexto para gerar mudanças na nossa cultura.

Há muito mais a comentar e analisar com exemplos que melhor mostram esta realidade, mas em atenção ao espaço de uma coluna, ficamos por aqui.

SEGUNDO: A maneira como entendemos a federatividade.

Este tópico foi muito analisado nos últimos tempos, quando se manifestou que há uma falta de condução. Sem dúvida, responde a uma visão fundamental do pensamento do Fundador. É por isso que é defendida por todas as instâncias.

No entanto, na minha opinião, esta forma de organização não foi correctamente aplicada.

Com efeito, a federatividade não é entendida em si mesma sem a Confederatividade. Enquanto a primeira cuida da autonomia, participação e vida, a segunda gera maior coordenação, liderança e direcção. Diversidade e unidade. Democracia e autoridade.

Esta ideia organizativa do Fundador está contida no chamado Relatório Menningen, pedido por ocasião da morte do Pai, que ele elabora em 1977 e 1979 a pedido da Presidência Geral. Este refere-se particularmente à União Apostólica, mas serve para o Movimento que dela surgiu. Neste relatório, o relator salienta:

“A soma de todas as palavras do Fundador sobre a essência da União Apostólica, creio eu, deve ser resumida de acordo com o seu conteúdo e expressão no conceito de “Confederação”. A UNIÃO APOSTÓLICA É, SEGUNDO A SUA ESSÊNCIA, UMA CONFEDERAÇÃO.”

Somos uma Confederação de Uniões

O que significa que esta essência organizativa é confederativa? Significa uma organização formada por unidades autónomas que delegam direitos e atribuições, de comum acordo, numa instância superior de coordenação e gestão.

Isto significa que somos uma Confederação de Uniões, mas isto implica que parte dos direitos e atribuições de cada União são colocados à disposição de uma instância superior que é a confederação. Não se trata de uma mera instância de coordenação, como acontece actualmente nos Conselhos Diocesanos e de Família, mas implica que se estabeleçam normas claras nas quais as Uniões estabelecem que renunciam a certos direitos que lhes pertencem em favor da instância confederativa. Assim a Confederação é capaz de organizar e liderar a unidade na diversidade.

Em suma, sem uma confederação é quase impossível gerar uma organização dinâmica, activa, que oriente e lidere a vida, que dirima os conflitos naturais entre Uniões, que dê definitivamente solidez e projecção à Família.

Alguns dirão, mas bem, isso não acontece nas Uniões. Não tenho pleno conhecimento de todas, mas pelo menos na União das Famílias, a que pertenço, não funcionou assim. Na minha opinião, e desta forma o apresentei, houve uma interpretação errada e por um momento caprichosa do documento Menningen e, que, no fim, afectou fortemente a unidade e a conduta da nossa União.

Solidariedade de destinos

Em conclusão, podemos então assinalar que há uma polaridade a resolver: a pessoal e a estrutural.

Ambas as instâncias são importantes porque estão a influenciar fortemente a nossa cultura actual. Precisamos gerar uma nova cultura sustentada por uma verdadeira “Solidariedade de destinos”. Isso certamente resultará numa família mais colaborativa, complementar e co-responsável entre todos os membros.

 

 

Fotos: Mauricio Ramírez (Jornada Nacional de Dirigentes, 2019), via Secretaria Nacional do Movimento do Chile

Original: espanhol (29/11/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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