Colocado em 31. Dezembro 2019 In Vozes do Tempo

A Luz de uma esperança que não se apaga nem se extingue

Pe. Juan Pablo Rovegno, Director do Movimento de Schoenstatt no Chile •

Nesta noite abençoada, uma luz brilhou na escuridão, uma luz foi acesa nos nossos corações: a luz de uma esperança que não se apaga e nem se extingue. Uma luz que acompanha  a obscuridade da história e da vida há mais de dois mil anos. —

Uma luz radiante e pura no rosto de uma criança, uma criança pequena, indefesa e frágil. Indefesa e frágil como qualquer criança ao nascer. O facto de Ele ser Rei e Deus, Todo-Poderoso e Salvador não o revestiu de magnificência ou estridência, nem muito menos de arrogância ou orgulho. O Seu poder reside nessa pequenez, nessa fragilidade, nessa necessidade de amor para aprender a amar a ponto de dar a Sua vida por aqueles que ama, a ponto de dar a Sua vida por todos, sem excepção.

A única coisa grande nesta criancinha é a Sua capacidade de amar, que se irá desfraldando ao longo da Sua vida. Uma capacidade de amar que também conhecerá infortúnios e decepções, dor e lágrimas, mas que não deixará de se desfraldar, estendendo-se infinitamente.

Esta noite, seguimos uma estrela para conhecer este indefeso Menino de amores. A estrela diz-nos para olharmos para o alto, de saudade, até mesmo de uma certa nostalgia: o passado reflecte-se em cada uma delas, as suas constelações são objecto de estudo e de previsão, de uma estrela o Pequeno Príncipe veio até nós, estrelas que damos àqueles que amamos, estrelas que simbolizam aqueles que partiram, a estrela simboliza Maria na nossa bandeira, uma estrela é o símbolo do nosso Santuário em Novo Belém.

Precisamos de uma estrela.

Para alguns, as estrelas são um sinal de fama e de estar no topo. Mas a estrela desta noite não brilha por si só: o brilho vem daquele corpo quente, daquele rosto dorminhoco, daqueles pés pequeninos. O seu brilho e o seu sentido estão no Menino. Que contraditório! Queria nascer sem ser visto ou recebido, mas toda a Criação que geme esperando que alguém a liberte das suas contradições e sombras, dos seus medos e incertezas, não foi capaz de guardar o segredo: “porque um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado”. As promessas são cumpridas e a estrela sabe-o e anuncia-o, de leste a oeste.

Uma estrela e hoje precisamos de uma estrela, e não me refiro apenas a um líder que, tanto escasseiam, mas a ideais que nos façam olhar para o Alto, para superarmos dificuldades e superficialidades, impulsos e reacções, para nos deixarmos desafiar por grandes sonhos. Hoje o nosso país vive um anseio: uma pátria mais justa e digna, respeitadora e solidária, uma pátria família: de todos e para todos.

Precisamos acreditar que o que nos move não é apenas um impulso, uma reacção, uma consequência das redes sociais e da frustração. Não podemos ser movidos apenas pelo impulso e pela causa-efeito. A estrela exige que saiamos de nós mesmos e olhemos para mais longe, que saiamos da nossa estreiteza e do nosso egoísmo, vingança e indiferença e descubramos um valor pelo qual lutar: uma Pátria Família.

Uma Pátria Família

Uma Pátria Família onde reconhecendo, com humildade e coragem, os nossos erros, feridas e dores pessoais e sociais, nos possamos encontrar no desafio de um lugar digno para todos e para cada um. Um lugar onde possamos rever a nossa história, curando-a e integrando-a, porque ao apagarmos ou queimarmos a história passada, presente e futura corremos sempre o risco da cegueira unilateral que deixa muitos de fora.

Uma pátria onde o amor é o que nos move e nos comove, porque no fundo desta crise está o desafio do amor, do nosso modo de amar e de ser amados; em termos concretos: de nos relacionarmos uns com os outros, de sermos comunidade.

Colocar o amor no centro do desafio que temos como nação

Parece que não desistimos e temos um desafio profundo e transversal: colocar o amor no centro do desafio que temos como nação, reconhecendo humildemente que precisamos aprender a amar, porque a nossa maneira de amar e ser amados como nação, como Igreja, como povo, está em falta.

Aprender a amar para crescermos num amor mais transversal, mais generoso, mais livre. Um amor capaz de superar preconceitos e polarizações, vinganças e indiferença. Um amor que nos faz sair das trincheiras das nossas defesas e ofensas. Um amor que é uma contra-corrente à violência, à imposição pela força, à delinquência, ao abuso e à indolência.

Como podemos construir essa Família Nacional, onde o amor reina sobre o interesse pessoal de pequenos grupos, quando aparentemente há tanto que nos divide e nos distancia?

Olhemos para o Presépio: na Sagrada Família encontramos traços que nos ensinam a tecer vínculos, a tecer relações, a reparar caminhos, a curar corações, a renovar estruturas e formas de relacionamento…

São José

São José, o homem nobre. A sua nobreza de alma faz dele um homem justo, que não olha para as aparências, mas para o coração. Que bem nos faria caminhar pela vida sem preconceitos nem condições ou, tendo-os, reflectirmos e fazermos todo o possível para os purificar. Embora todos sejamos diferentes, estas diferenças não podem significar exclusão, marginalidade, distância.

Hoje precisamos de alguma dessa nobreza nas nossas relações, na forma como nos referimos uns aos outros. Quanta “intimidação”, quanto amesquinhamento, quanto desqualificação gratuita, não só anónima mas directa e frontal! Nobreza, nobreza para olhar, julgar, agir ou não agir, dizer ou não dizer alguma coisa, nobreza para olharmos para a realidade. Não para olharmos para os desperdícios como moscas ou como vespas para ferir os outros, mas para aprendermos a parecer-nos com as abelhas (hoje em perigo de extinção), que descobrem o néctar, o valor de cada uma, e o entrelaçam para nos dar doçura.

São José poderia ter agido por desconfiança, vingança e frustração, por uma relação que não era o que ele pensava e queria. Mas ele olhou para além das aparências, ele deixou-se desafiar por Deus e pela nobreza do ser humano que tinha na sua frente.

Nobreza para dialogar, para procurar soluções em conjunto, para renunciar a ser o único portador da verdade. Nobreza para acolher, incluir, integrar, compreender, trabalhar em conjunto e descobrir o valor que está em cada coração humano.

A Virgem Maria

A Virgem Maria fala-nos de dignidade. Que mulher digna e corajosa! Digna de ser escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador, digna e forte para dar o Seu “sim” à incerteza do caminho. Digna e forte para se tornar a colaboradora permanente de Jesus. Ela não era uma mulher possessiva, muito menos submissa, a partir da sua liberdade e originalidade, foi uma colaboradora activa para a salvação.

Às vezes esquecemo-nos do lugar das mulheres no tempo de Maria. Ela era uma revolucionária, não só pelo lugar que ocupava, mas também pela forma como se desenvolveu. Ela  mostra-nos uma mulher avançada, mas não desde o revanchismo ou poder, mas desde a plena consciência do Seu ser e missão. Isso seduziu Deus, modelou o Filho de Deus, impactou os seguidores de Jesus, ensinou os discípulos e encorajou os apóstolos. Isso faz dela hoje um modelo do crente, do discípulo, da Igreja e da Humanidade.

Hoje precisamos de dignidade, para reconhecer a dignidade de todos aqueles que se sentiram excluídos do sistema e do modelo, mas também a dignidade de sermos todos filhos e filhas de um mesmo solo. Nenhum de nós pode assumir o papel do vencedor, do vitorioso, dizer a última palavra ou apontar com o dedo acusador. A dignidade começa com o reconhecimento de que todos nós somos dignos de ser ouvidos, de ser respeitados, de ser valorizados, de ser atendidos. A dignidade não é património de uns poucos escolhidos, é um desafio de todos e para todos .

O Menino

E o Menino. O Menino fala-nos de ternura. Ele não é um Deus poderoso ou triunfalista, e nem muito menos arrogante ou exclusivo. Da ternura veio Deus para nos salvar, para nos reconciliar, para nos unir, para curar as nossas feridas e para reparar as nossas quedas. A ternura de Deus mostra-nos o caminho para uma autêntica fraternidade. Ele inaugura uma nova forma de lidar com os outros: sem poder abusivo, sem interesses pessoais ou conluio, sem exclusão, sem violência destrutiva e paralisante. O Menino fala-nos da autêntica e verdadeira reconciliação.

Ele é um Deus que, na Sua ternura, nos ensina a vincularmo-nos: Ele desafia-nos a crescer na confiança mútua, na co-responsabilidade e na colaboração necessária. Ele mostra-nos o valor da complementaridade, porque todo o absolutismo é intrinsecamente perverso.

Despertámos. A questão é, como é que vamos continuar?

Nestes últimos meses, o nosso país despertou. Um despertar surpreendente, embora previsível de acordo com muitos indicadores, mas não na sua magnitude, transversalidade e virulência. Um despertar que despertou a esperança de uma pátria mais justa e digna, mas também um despertar que nos mostrou rupturas, fissuras, rupturas sociais que desconhecíamos na sua profundidade, bem como níveis de criminalidade e organização destrutiva, que perturbam e assustam.

Despertámos. A questão é como continuar? Do desafio social passámos ao desafio político. E embora todos tenhamos despertado, o julgamento, o medo, a polarização, o oportunismo rapidamente emergiram. Há sinais de encontro e acordo, mas estamos nublados pelo poder de vencer, de exigir, de condicionar, que é muito diferente de querer contribuir, de complementar, de ceder para dar.

A Humanidade também despertou há 2019 anos, acordando com um desejo de um mundo melhor, de uma Humanidade em paz, de uma fraternidade universal e de um equilíbrio de criação. Mas, o Menino não se impôs pela força e exclusão, Ele fê-lo com a força do Seu amor.

E hoje o desafio tem a ver com o amor: como nos amamos uns aos outros com um amor mais respeitador, mais inclusivo, mais livre, mais generoso, mais transversal?

Teremos que aprender com a nobreza de José, com a dignidade de Maria, com a ternura de Jesus. Talvez essa seja a chave: aprender, porque esse foi o caminho de Deus feito homem em Jesus: aprender a amar até mesmo a amar a todos sem excepção.

Hoje precisamos reconhecer humildemente que é preciso aprender a amar, para forjar aquela pátria mais justa e solidária, mais fraterna e em paz, aquela pátria que é uma família. Cada um de nós deve questionar-se sobre a sua maneira de amar e ser amado, o meu amor pelos outros é livre, generoso e transversal ou estou cheio de preconceitos, egoísmo e condicionamentos? Preciso de curar a minha maneira de amar, quando ela é uma projecção das minhas próprias frustrações, deficiências e exigências?

Esta noite seguimos uma estrela, a de um grande ideal e desafio: amar como aquele Menino nos ensina a amar. E para alcançar esse ideal, devemos começar por reconhecer humildemente que precisamos aprender, e precisamos de alguém que nos ensine a amar.

Pe. Juan Pablo Rovegno M.

Padres de Schoenstatt

 

Original: espanhol (28/12/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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